por Mário Montanha Teixeira Filho
Romantismo é assim. A gente acredita nas flores, em cartas de amor, no canto dos pássaros, no brilho das estrelas, no assobio dos ventos. A gente acredita nas promessas dos demagogos, em sereias e anjos. A gente acredita na pureza.
Quando escrevi as palavras acima, algum tempo atrás, referia-me aos aborrecimentos do futebol contemporâneo, empanturrado de cifras, desinteressado da história e dos símbolos da paixão popular. Os românticos somos nós, dizia então, que nos emocionamos quando mercadores fantasiados de ídolos lambuzam com beijos frios e hipócritas nosso manto sagrado. Somos nós, que nos deixamos engambelar por cartolas velhos e novos, os cartolas e seus juramentos, e seus delírios de modernidade.
Não imaginava, naqueles dias de desilusões esportivas, que a pasteurização dos jogos e seus atores atingiria o grau que atingiu. Sufocado por uma pandemia que parece eterna, o espetáculo passou a acontecer em templos tristes e vazios, ao som de torcidas que não existem e sob a mira de bonecos de papel transformados em público de mentira. O horror futurista se impôs completamente. Nem mesmo os ideólogos da elitização, os que afugentaram a ralé dos estádios, nem mesmo os canalhas do mercantilismo acima de tudo, nem mesmo os insensíveis poderiam conceber tão grande assepsia.
Supreendentemente, nós ainda torcemos, escravos de sentimentos, da irracionalidade, do desejo de superar não se sabe o quê. Resistimos, numa resistência introvertida, exausta, feita de derrotas em série e alegrias breves. Mas é preciso cuidado: eles, os elitistas, os canalhas, os insensíveis, eles querem roubar o pouco que sobrou. Eles são a sombra terrível que estacionou sobre nossas cabeças, a nos convidar para o tempo do medo, os monstros que governam o mundo e se alimentam da fome dos outros.
Sobrevivemos, de qualquer maneira. A longa espera pelo fim do pesadelo nos concede um naco de esperança. Sonhos ainda existem, respiram, porque somos românticos. E romantismo é assim.






