Arquivo mensais:outubro 2020

11:21Romantismo é assim

por Mário Montanha Teixeira Filho

Romantismo é assim. A gente acredita nas flores, em cartas de amor, no canto dos pássaros, no brilho das estrelas, no assobio dos ventos. A gente acredita nas promessas dos demagogos, em sereias e anjos. A gente acredita na pureza.

Quando escrevi as palavras acima, algum tempo atrás, referia-me aos aborrecimentos do futebol contemporâneo, empanturrado de cifras, desinteressado da história e dos símbolos da paixão popular. Os românticos somos nós, dizia então, que nos emocionamos quando mercadores fantasiados de ídolos lambuzam com beijos frios e hipócritas nosso manto sagrado. Somos nós, que nos deixamos engambelar por cartolas velhos e novos, os cartolas e seus juramentos, e seus delírios de modernidade.

Não imaginava, naqueles dias de desilusões esportivas, que a pasteurização dos jogos e seus atores atingiria o grau que atingiu. Sufocado por uma pandemia que parece eterna, o espetáculo passou a acontecer em templos tristes e vazios, ao som de torcidas que não existem e sob a mira de bonecos de papel transformados em público de mentira. O horror futurista se impôs completamente. Nem mesmo os ideólogos da elitização, os que afugentaram a ralé dos estádios, nem mesmo os canalhas do mercantilismo acima de tudo, nem mesmo os insensíveis poderiam conceber tão grande assepsia.

Supreendentemente, nós ainda torcemos, escravos de sentimentos, da irracionalidade, do desejo de superar não se sabe o quê. Resistimos, numa resistência introvertida, exausta, feita de derrotas em série e alegrias breves. Mas é preciso cuidado: eles, os elitistas, os canalhas, os insensíveis, eles querem roubar o pouco que sobrou. Eles são a sombra terrível que estacionou sobre nossas cabeças, a nos convidar para o tempo do medo, os monstros que governam o mundo e se alimentam da fome dos outros.  

Sobrevivemos, de qualquer maneira. A longa espera pelo fim do pesadelo nos concede um naco de esperança. Sonhos ainda existem, respiram, porque somos românticos. E romantismo é assim.   

10:42Paraná prorroga campanha de vacinação contra poliomielite

Da Agência Estadual de Notícias

https://bit.ly/3kIi4Nm

Devido à baixa taxa de cobertura e de adesão da população, a Secretaria de Estado da Saúde decidiu prorrogar, no Paraná, a Campanha Nacional de Vacinação contra a Poliomielite. A campanha, que terminaria nesta sexta-feira (30), será estendida em todo o Estado até o término do estoque de vacinas ou até atingir a meta de 95% de cobertura vacinal recomendada pelo Ministério da Saúde.

10:11Mourão aposta que governo comprará vacina chinesa: “Lógico que vai”

Da revista Veja, em entrevista a Gabriel Mascarenhas e Marcela Mattos

Aos 67 anos, Hamilton Mourão chega aos estertores do segundo ano de governo cada vez mais à vontade no papel de coadjuvante mais importante da República. Se lhe falta o poder da caneta do chefe, o general se agarra ao que Jair Bolsonaro não tem: a liberdade de ir e vir — com direito a chope no boteco e partidas de vôlei no fim de semana —, tempo para escrever um livro e até a tranquilidade de pensar em uma vida fora do Palácio. Assessores de Jair Bolsonaro já espalharam aos quatro cantos que o presidente não quer mais o general como companheiro de chapa na disputa pela reeleição. Ele garante que nunca ouviu isso do presidente, com quem diz manter uma relação absolutamente respeitosa, mas que já esteve estremecida em decorrência de intrigas e fofocas difundidas por pessoas que cercam o mandatário. Em entrevista a VEJA concedida no seu gabinete, ele evita falar de 2022, mas já trata como possibilidade uma candidatura ao Senado, caso seja varrido da chapa presidencial. Mourão também se recusa a endossar a torcida bolsonarista para Donald Trump, aposta que o governo federal vai comprar a vacina chinesa e diz que faz de tudo para não travar embates públicos com quem manda. “Sabe por quê? Eu tenho vida.”

O senhor já conversou com o presidente sobre as acusações de ter conspirado contra ele? Eu preferi adotar a linha de ação de deixar o assunto rolar. O tempo é o senhor da razão. Pouco a pouco, esses ataques diminuíram, cessaram e o barco seguiu. Nunca fui encarar o presidente para apontar que fulano disse isso ou aquilo e questioná-lo por não ter rebatido. Ele já tem tanto problema, não posso levar mais.

Há gente de confiança do presidente que conspira contra o senhor? Tenho quase certeza disso. Mas não me preocupa e não sei quem faz. É como diria o grande filósofo Ibrahim Sued: “Os cães ladram e a caravana passa”, meu amigo. Vamos seguir com essa caravana.

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8:47CARLOS MALLMANN

  • Tem muita gente que sabe exatamente onde é o seu indevido lugar.
  • Quando Maradona faz 60 anos, Pelé já fez 80. Mais uma derrota para o argentino.
  • Do jeito que as coisas andam, melhor ir de galocha.

8:44Briga e destino

Goura pediu direito de resposta ao João do Novo porque este disse que ele continua recebendo salário como deputado estadual e faz campanha. João do Novo respondeu que, de fato, isso não é ilegal, mas é imoral. Aí aproveitou e detonou o adversário nas redes ao lembrar os R$ 1,2 milhão do fundo partidário, dinheiro público, e ainda lembrar que o candidato do PDT recebeu multa por usar o site da Assembleia para se promover indevidamente. Enquanto isso, Rafael Greca olha lá de longe e parece dizer: parem de brigar, meninos, porque nosso destino está traçado.

7:28O professor e o orgulho profissional

por Claudia Costin

Parabéns a Luiz Felipe Lins e a todos que participam do prêmio Educador Nota 10

A cada ano, no mês de outubro, celebra-se duas vezes o Dia do Professor: uma é a data internacional, no dia 5, a outra, no dia 15, a efeméride brasileira, oficializada por iniciativa de uma parlamentar catarinense negra, a professora Antonieta de Barros.

A data já era informalmente comemorada, por marcar o aniversário da primeira grande lei educacional do Brasil, sancionada por Dom Pedro 1º em 1827, mas coube a Antonieta a oficialização em seu estado de nascimento.

Por conta disso, este é o mês em que a Fundação Victor Civita, com base na posição de um júri e de votação da população, escolhe o educador do ano, a partir de um projeto por ele desenvolvido em sala de aula.

Em 2020, em plena pandemia, foram destacados os dez finalistas e, entre eles, apontado o melhor do Brasil desta edição do prêmio. E o educador do ano foi o professor de matemática Luiz Felipe Lins, que desenvolveu com seus alunos de 7º ano da Escola Municipal Francis Hime, do Rio de Janeiro, um projeto de construção de casas que envolvia análise de planta baixa, cálculos de áreas e custos e a elaboração de maquetes.

Essas celebrações ganham relevância num contexto em que o professor é percebido por parcela da sociedade com certa piedade, dadas as condições desafiadoras de trabalho, mas sem respeito ou admiração profissional. Ora, aquilo de que os professores mais precisam não é pena, mas reconhecimento, inclusive salarial, e a construção de um ambiente mais propício a um trabalho educacional efetivo.

Nesse contexto, é interessante existirem fóruns para os mestres mostrarem suas práticas, que, ao serem divulgadas, asseguram-lhes a merecida apreciação profissional e a possibilidade de verem seus projetos replicados em outras escolas. A disseminação de técnicas testadas, que, de fato, geram aprendizagem nos alunos, acaba também contribuindo para a melhoria da ainda frágil educação brasileira.

É nesse sentido que ganha também destaque a criação de comunidades de mestres como o Conectando os Saberes, que congrega professores de todo o país, com vários núcleos estaduais, para trocar suas experiências em sala de aula e aprender uns com os outros.

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6:51Pancada nas escolas cívico-militares

O repórter Rafael Moro Martins, do The Intercept Brasil, entrou de sola no projeto de implantação de mais de duzentas escolas cívico/militares do governo do Paraná. Na semana em que a consulta sobre as transformações de colégios tradicionais de rede pública já deram o que falar, embolando o meio de campo, a estocada da reportagem vai fundo ao afirmar que a propaganda sobre a eficiência de tais colégios não é o que a propaganda oficial alardeia. O verbo usado no título cai na cabeça do governador Ratinho Junior como uma bigorna lançada do vigésimo andar, mas encaminha para conferir o longo texto (ver link abaixo). A pancada inicial dá uma mostra do conjunto da obra:

Para convencer a patuleia de que a mera entrega da direção a policiais militares aposentados irá transformar escolas públicas com “baixos índices de fluxo e rendimento escolar” num “modelo vencedor” (os termos entre aspas são do material de propaganda oficial), Ratinho Junior e seu secretário da Educação, Renato Feder (que foi cotado para ser ministro após as demissões do imprecionante Abraham Weintraub e do breve e criativo Carlos Decotelli), lançaram mão de uma mentira: a de que “a média das escolas cívico-militares no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica é 20% maior do que na educação tradicional”.

Eu explico a redação ruim da propaganda oficial. Ratinho e Feder quiseram dizer que o Ideb comprova que a militarização das escolas melhora o rendimento dos alunos. Estão mentindo. Uma reportagem da Folha de S.Paulo, publicada em fevereiro passado, explica que “escolas militares têm desempenho similar ao de unidades com perfil parecido”. Ainda: “acima da média, centenas de colégios estaduais com alunos do mesmo perfil socioeconômico têm resultado melhor”.

A presidente-executiva do respeitado Todos pela Educação, Priscila Cruz, também já sepultou a alegada superioridade das escolas cívico-militares, como gostam de chamá-las seus defensores. “Do ponto de vista técnico, o modelo não se sustenta”, ela disse, em entrevista ao UOL concedida há um ano.

https://theintercept.com/2020/10/29/ratinho-junior-mente-escola-civico-militar-parana/

6:20NELSON PADRELLA

DIÁRIO DA PANDEMIA

(*) Eliseu – nome de fantasia, vamos dizer Eliseu – Eliseu era desses que viviam encostados. Não tem gente que vive encostada? Pois então! O Eliseu era assim. Era sair na naite e os homens já caíam no pelo do cara. “Encosta na parede!” Um dia, ou uma noite, o cara estava feliz quando saiu a passear. Sabe esses dias que a gente está feliz? Pobre também tem desses dias, também é filho de Deus. Os meganhas chegaram no cara, encosta na parede. O Eliseu estava alegrete, sei lá, alguma coisa tinha dado certo pra ele, e então ele fez gracejo: “Eu já fui assaltado hoje”. Quem é que conseguia reconhecer o Eliseu depois da surra?

(*) Só queria entender uma coisa. Por que é que se planta tanta soja, dizimando florestas, matando bichinhos para dar lugar ao agro, e o preço do óleo de soja fica cada vez mais caro? Outro dia, fui comer um pastel, a mulher perguntou: “Quer o pastel frito no óleo de soja ou em gordura desconhecida e de procedência duvidosa?” Não quis arriscar e pedi no óleo de soja. Veio o preço do pastel com o acréscimo de 20% por causa do luxo. Vamos fazer o seguinte: plantar menos soja para tornar o preço do óleo mais acessível ao consumidor. Ou parar de comer pastel.

 (*) Tem gente que é feliz e não se dá conta disso. Dizem que a felicidade está nas pequenas coisas. De modo que se você tem a coisa de pequeno porte considere-se um cara feliz. Conheço um senador que não sei se tem a coisa grande ou pequena, mas tem espaço no porta-malas onde cabe o caminhão do Faustão.

E O VENTO LEVOU: “Maria, você prendeu bem as roupas no varal?

18:47JAMIL SNEGE

Para onde vai o canto,
depois que os
lábios se fecham?
Para onde vai a prece,
depois que o coração silencia?
E os rostos que amamos
para onde vão, senhor,
depois que nossas
pupilas se transformam
em gotas de lama?
Ontem vi uma andorinha
que devia ter uns
cinco milhões de anos.
Será que eu também
sobreviverei
ao que restar de mim?

17:57Fascinação, vacinação e Rubão

por Roberto Salim

Rubão é peça rara. Nos tempos da Folha, cobriu a Chacina da Lapa, na Rua Pio XI, e acabou escondido pela turma da redação, pois eram os tempos da ditadura e queriam saber como ele ficou sabendo daquela história. Mas Rubão foi mesmo repórter de esportes. Cobriu o Santos de Pelé, o Palmeiras de Ademir da Guia, o Corinthians de Rivellino, o São Paulo de Gérson. Nesse meio tempo, tocou muito piano, foi um dos responsáveis por ensaiar o Coro dos Canarinhos do Liceu Coração de Jesus. Tocou em incontáveis festas e circos

Quando a música Fascinação foi composta, em 1905, o mundo parecia que girava mais lentamente. A tal da Terra ainda não tinha ficado plana e essa polêmica insana sobre vacinação não tomava conta do noticiário dos nossos dias.

Por falar em mundo antigo e mundo novo, quantos de vocês tem um amigão do peito que é moderno e tenha nascido em 1926 ‒ ano em que Armando Louzada nem pensava em fazer uma versão para a francesa Fascinação (o carioca Armando nasceu em 1912 e trabalhou no rádio, teatro, cinema e TV).

Pois eu tenho esse amigo.

Graças ao bom Deus.

Ele se chama Rubens Ribeiro.

É maestro, tem o ouvido absoluto, é jornalista e pesquisador.

Tem três livros sobre o futebol brasileiro que contam jogo a jogo a história do Campeonato Paulista: Os caminhos da bola.

Rubão é peça rara.

Nos tempos da Folha, cobriu a Chacina da Lapa, na Rua Pio XI, e acabou escondido pela turma da redação, pois eram os tempos da ditadura e queriam saber como ele ficou sabendo daquela história.

Mas Rubão foi mesmo repórter de esportes.

Cobriu o Santos de Pelé, o Palmeiras de Ademir da Guia, o Corinthians de Rivellino, o São Paulo de Gérson.

Nesse meio tempo, tocou muito piano, foi um dos responsáveis por ensaiar o Coro dos Canarinhos do Liceu Coração de Jesus.

Tocou em incontáveis festas e circos.

E aos 94 anos, completados neste 26 de outubro, Rubão mostrou que continua com a mente em dia e os dedos afiados.

Entre tantas músicas tocadas no encontro virtual promovido pelos velhos amigos, o Maestro tocou com rara inspiração a música Fascinação.

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