10:34LEROS

de Carlos Castelo

§ Há um mar entre nós e Cabo Verde, mas é um mar mentiroso: por baixo dele corre o mesmo sangue, a mesma cana, a mesma dor antiga que virou dança. Quando os holofotes do Mundial de 2026 acenderam sobre aquele arquipélago de meio milhão de almas, alguma coisa em mim se ajoelhou. Não era só futebol. Era história cobrando o troco em forma de gol.

Eles empataram com a Espanha. Empataram com o Uruguai. E na terceira rodada, contra a Arábia Saudita, seguraram um 0 a 0 que valia mais que muita vitória: a classificação, inédita, para o mata-mata. Um país do tamanho de um bairro grande, cuja seleção nasceu do mesmo ventre que a nossa — o tráfico, o entreposto, a mistura forçada que os séculos transformaram em beleza — foi lá e disse ao mundo: existimos, e existimos com categoria.

Não é força de expressão chamá-los de irmãos. Antes de sermos brasileiros mestiços, Cabo Verde já era mulato. Testado, ensaiado, quase um rascunho de nós mesmos, feito pelos mesmos portugueses que depois vieram fazer a obra definitiva em terra maior. Eles receberam primeiro o que nós receberíamos depois em escala monstruosa: o corpo africano arrancado de Angola, atravessado pelo Atlântico como mercadoria, replantado à força numa terra que não era sua. E onde a dor planta, às vezes, séculos depois, floresce um Ryan Mendes fazendo gol, um Vozinha defendendo pênalti, um técnico Pedro Leitão Brito de peito estufado à beira do campo: capitão que virou treinador, ilha que virou nação, dor que virou orgulho.

Então enfrentaram a Argentina de Messi. E, mesmo perdendo, já venceram: venceram o esquecimento, essa sina cruel reservada aos pequenos e aos oprimidos da história. Cabo Verde jogando Copa do Mundo é a crioulidade dizendo presente ao mundo com a cabeça erguida, sem pedir licença.

Torci por eles como quem torce por um parente distante que a gente reencontra e reconhece na hora, no jeito de andar, na cor da pele, no sorriso que carrega dentro de si séculos anos de travessia. Se o Brasil é uma nação mestiça orgulhosa, Cabo Verde foi o ensaio geral. E ensaio bem feito, às vezes, rouba a cena do espetáculo principal

Compartilhe

10:16Uma sociedade distraidamente espectadora

Por Lea Oksenberg, no Vigília Comunica

Outro dia estava lembrando de um caso de crime brutal que aconteceu no Rio, quando eu tinha uns oito anos, e que chocou profundamente a sociedade. O impacto foi tamanho que o caso virou até fotonovela na revista Flagrante nº 1. Fiquei pensando: se hoje fôssemos escrever sobre cada uma dessas barbáries diárias, as gráficas estariam bilionárias e as bancas de jornais virariam gigantes bibliotecas.

Em julho de 1960, o país parou para ver aquelas páginas em preto e branco encenando os passos sombrios de Neide, a Fera da Penha, e o destino cruel da pequena Taninha. Naquela época, o horror ainda paralisava os humanos. Havia um tempo de espera: o crime acontecia, a gráfica rodava e o leitor folheava a tragédia no banco da praça, digerindo a dor em balões de fala e legendas dramáticas.

Hoje, essa mesma “banca” está instalada no bolso de cada cidadão, operando 24 horas por dia.

A fotonovela apenas se modernizou: as fotos estáticas viraram vídeos de câmeras e os balões de diálogo foram substituídos por áudios. A novela agora é transmitida ao vivo, com o público participando ativamente nos comentários, apontando dedo e decretando sentenças em tempo real. Resta a dúvida: o mundo de fato piorou na quantidade de crimes por minuto ou foi a nossa miopia que acabou, já que a informação antes simplesmente não circulava tanto? É provável que a barbárie sempre tenha estado lá, mas o fato é que hoje ela se multiplica sem filtros na nossa tela. Mudamos o papel pelo vidro do celular, mas o apetite humano pelo macabro continua intocado. O Brasil segue consumindo seus crimes como capítulos diários de uma ficção real.

A grande e dolorosa diferença é a normalização. Aquela capacidade de se horrorizar, que marcou a minha infância, foi engolida pelo excesso. Antes, o horror parava o cotidiano e nos obrigava a olhar para a nossa própria humanidade. Hoje, ele faz parte da engrenagem. Deixamos de ser uma sociedade profundamente abalada para nos tornarmos uma sociedade distraidamente espectadora — anestesiada, que consome a tragédia entre um clique e outro, aceitando o absurdo como se fosse apenas mais um post esperando o feed carregar.

No fundo, viramos a trilha sonora de João Bosco e Aldir Blanc tocando em modo de repetição na timeline. Passamos o olho na tela, arrastamos o dedo e fingimos não ver que, a cada segundo, tá lá um corpo estendido no chão.

Compartilhe

8:34O filósofo de coquetel

por Carlos Castelo

Ari Nhotim não nasceu, foi inaugurado. Com direito a vernissage, vinho branco morno e um discurso sobre a curadoria da própria existência. Desde cedo demonstrou sinais de erudição seletiva: aos oito anos, já dizia que não gostava de brincar de bola porque preferia experiências lúdicas mais conceituais. O que, traduzido, significava empilhar tampinhas e chamar de instalação.
Seu nome não é coincidência. Ari Nhotim vai a espaços culturais não para ver, mas para ser visto – vendo. Caminha placidamente entre as obras, mãos para trás, testa franzida, parecendo decifrar o sentido da vida, quando na verdade tenta lembrar o nome do artista que acabou de ler na plaquinha.
Ele domina a arte do comentário vazio com uma precisão quase científica. Diante de uma tela branca, murmura: “Interessante como o silêncio visual dialoga com o caos interno do observador”. Como acontece nesses ambientes, todos em volta acham uma sacada inteligentíssima. Afinal, ninguém quer se revelar menos culto do que aquele cidadão tão letrado. O que, diga-se de passagem, é mais fácil do que parece.
Ari Nhotim tem um vocabulário próprio, composto por palavras como “ressignificação”, “interseccionalidade estética” e “ruptura narrativa”, usadas de forma aleatória, como tempero em comida ruim: não melhora, mas disfarça.
Seu maior medo é ser descoberto. Por isso, evita as perguntas diretas. Quando alguém lhe pede opinião sobre um livro, responde:
– Prefiro não limitar a obra a uma interpretação linear.
Traduzindo: não leu.
Quando indagado sobre um filme de arte, costuma dizer:
– A experiência sensorial supera a narrativa.
Traduzindo: dormiu no meio do longa-metragem.
Mas é em Inhotim, o lugar real, que Ari Nhotim atinge seu auge. Lá é onde se sente em casa, ou melhor, em exposição. Tira fotos despretensiosas, sempre olhando para o horizonte, como se estivesse contemplando alguma coisa profunda, quando na verdade está tentando dar a ideia de que contempla algo insondável.
Ele não aprecia a arte; mas a ideia de ser alguém que aprecia a arte. É um colecionador de impressões, nunca de experiências. Sai dos lugares com mais fotos do que memórias, mais frases prontas do que pensamentos próprios.
E, no entanto, há algo admirável em sua pessoa. A dedicação é inegável. Ser raso com tanta consistência exige muito esforço. E ele estudou: não os conteúdos, mas as poses. Pois, em um mundo onde parecer é mais importante do que ser, Ari Nhotim é, sem dúvida, um grande mestre.
Por outro lado, se repararmos bem, talvez todos tenhamos um pouco dessa profundeza de superfície de Ari Nhotim. Na real, ele só tem mais prática.

(Publicado no Rascunho)

Compartilhe

7:21O suplente e um barulho no PT

Do Goela de Ouro

A deputada federal Gleisi Hoffmann convidou o empresário Assis Gurgacz Neto, de Cascavel, para ser seu suplente na eleição do Senado. Ele é filho do ex-senador Acir Gurgacz. Por conta disso, o PT do Paraná entrou em ebulição porque nessa área a ideia é ter chapa pura. Em tempo: a família Gurgacz tem um império no Paraná e Rondônia (Transporte, Comunicação e Educação).

 

 

Compartilhe

7:04NELSON PADRELLA

Perguntaram se eu era membro. Respondi que não estava entendendo.
– Membro, membro, não sabe o que é membro?
Mostrei. Ainda confuso, perguntei:
– Refere-se ao rapaz?
Fui expulso da entidade com palavras de mau agouro.

Compartilhe

6:46Propaganda institucional

por Luiz Francisco Carvalho Filho, na FSP

Mentira e ilusão fazem parte da dinâmica política. Publicidade enganosa está no horizonte dos governos

A partir de agora, desaparece a publicidade institucional de governos e órgãos federais, estaduais e municipais. A Justiça Eleitoral autoriza exceções em caso de “grave e urgente necessidade pública”, como na pandemia. A lei também admite propaganda de produtos e serviços que concorrem no mercado.

intervalo de proibição só dura três meses. Depois da eleição dos prefeitos em 2024, administradores federais e estaduais tiveram 18 meses para construir a imagem dos governantes. No projeto da reeleição, recursos públicos significativos são drenados para campanhas que, em tese, deveriam ter “caráter educativo, informativo ou de orientação social”.

Segundo a Folha, o governo Lula já empenhou R$ 520 milhões para propaganda institucional no primeiro semestre.

Um tema de “interesse público” é capaz de receber tratamento publicitário diferente. Pode-se falar de requisitos e benefícios do Novo Desenrola, com orientações concretas para famílias endividadas, mostrando a importância do planejamento financeiro e o malefício das apostas esportivas, ou se limitar a dizer, sem propósito real de informar e educar, que o governo está “do lado do povo brasileiro” (slogan do governo federal), e que o programa foi concebido para ajudar o cidadão em dificuldade.

Nas campanhas institucionais, a apologia política da candidatura é mais ou menos sutil, mas aparentemente inevitável.

O governo de São Paulo, por exemplo, diz que, “nos últimos três anos”, fez “história” e colocou a educação na “direção certa”. Como os filmes publicitários não mencionam o nome do governador (eleito há três anos e candidato à reeleição), o governo estadual faz de conta que o propósito é informativo.

O governo de São Paulo também diz que “segurança é mais do que força, é inteligência”. A Rede de Observatórios da Segurança, porém, mostra que o Estado registrou, em 2025, um recorde de mortes decorrentes de intervenção policial desde 2019, quando começou a monitorar os índices. Letalidade policial é a antítese da inteligência.

Como os principais partidos políticos, independentemente de ideologia, são governo em alguma instância de poder, os interesses são convergentes. Só partidos minoritários, fora do establishment, jornalistas e membros do Ministério Público costumam ter olhar crítico para a publicidade governamental. Prevalece o regime da tolerância.

Na publicidade capitalista, para proteção e defesa dos interesses do consumidor, há o conceito de propaganda enganosa. É verdade que a punição é branda e ineficaz (detenção de três meses a um ano), mas o regramento existe. É proibido fazer ou promover “publicidade que sabe ou deveria saber ser enganosa ou abusiva” ou dar “informação falsa ou enganosa”, ou omitir informação relevante sobre mercadorias e serviços.

A propaganda enganosa está no horizonte da publicidade institucional. Antes do período de defeso, prepara-se o terreno para a disputa: na prática, não se mente sobre o adversário, pela reação capaz de desencadear, mas mente-se sobre o próprio governo, sobre números, méritos administrativos e desempenhos revolucionários.

Importante é vencer. Mentira, ilusão e subjetividade dos julgamentos fazem parte da dinâmica política e eleitoral.

Compartilhe

16:38“Fundação Cultural em Cartaz” celebra mais de 50 anos de história no Solar da Glória

Assim veio:

Curitiba vai reencontrar a própria memória cultural. A exposição “Fundação Cultural em Cartaz: Mais de 50 Anos de História”, da documentarista Josina Melo, abre no dia 09 de julho de 2026, quinta-feira, às 18h30, no Centro Cultural Solar da Glória. Na abertura, serão distribuídos livretos ao público, com a história da Fundação Cultural, reprodução de diversos cartazes e depoimentos de funcionários públicos que fizeram parte dessa trajetória.

SERVIÇO
Abertura: 09 de julho de 2026, quinta-feira, 18h30
Visitação: 10 de julho a 12 de setembro de 2026
Horário: Terça a Sexta, das 9h às 12h e das 13h às 18h. Sábados, das 9h às 14h
Local: Centro Cultural Solar da Glória – Avenida João Gualberto, 531, Alto da Glória, Curitiba – PR
Entrada: Franca

Compartilhe

15:51Com e sem vírgula

Ao ver que na região metropolitana de Curitiba o pré-candidato Sandro Alex, o homem que o governador escolheu, apareceu na pesquisa divulgada hoje com 1,8%, uma víbora do Centro Cívico disse que nem tirando a vírgula ele se viabiliza.

Compartilhe

14:33JORNAL DO CÍNICO

Do Filósofo do Centro Cínico

Lula foi ao Rio Grande do Norte e inaugurou um túnel de adutora, mas sem a água do Rio São Francisco. Correria eleitoral. Logo deve voltar lá e quando a água jorrar a ninguenzada vai achar que é milagre.

Compartilhe