
Foto de Carlos Castelo
por Eugênio Bucci, no Estadão
Acontece nas famílias mais fofas. Na sua também, pode admitir. Aos poucos, meio assim do nada, vai aparecendo lá um sobrinho amuado, uma tia falastrona ou um primo de segundo grau com sintomas esquisitos. Primeiro, discretos. Depois, desinibidos. Até que, num dia aleatório, numa terça-feira à tarde, num feriado modorrento ou numa noite de domingo, o quadro fica patente e escarrapachado. O cidadão ou a cidadã assume de vez o seu bolsonarismo extremofrênico. Aí, é tarde demais.
Nos primeiros surtos, há quem tente argumentar. E o desmazelo com a covid-19? O familiar em questão desconversa. E o contrabando de joias? Fake news. E o apoio aos torturadores? Olhos baços se desviam na direção do teto. Só resta desistir. Não tem cura. Por favor, não vá falar do Banco Master. É perigoso, pode gerar reações inamistosas. Na dúvida, não arrisque. E nunca, em hipótese alguma, fale disso na frente das crianças. Exorcismo não funciona.
No princípio, há uns dez anos, a eclosão de casos tinha contornos de epidemia aguda, que logo evoluiu para uma pandemia fora de controle. As pessoas infectadas são distintas umas das outras, mas, de repente, todas assumem trejeitos idênticos, num mimetismo crônico, num automatismo intrigante. O bolsonarismo é pura repetição robotizada.
Até na hora de disfarçar o indisfarçável, os tipos seguem condutas iguais. Todos eles organizam o WhatsApp da turma da escola, aquela que se formou há 20, 40 ou 60 anos. Todos eles disparam mensagens de autoajuda intercaladas com uns videozinhos de amor à cerveja. Depois vem lá, sub-reptícia, uma ode a Donald Trump. Nenhuma surpresa. O protocolo é invariavelmente o mesmo, copiado, previsível e sufocante.
Então você se questiona: mas de onde vem todo esse acervo de tolices meticulosamente editadas para o celular, em escala industrial? De onde vem tanto mau gosto? Quem abastece as torrentes de sandices? Quem são os fornecedores? Onde ficam os estoques de patacoadas? E mais: como os difusores do contágio conseguem atuar de forma tão coesa? O que explica tanta uniformidade no bojo de alucinação que acomete milhões? Como sujeitos tão diferentes assumiram um padrão de comportamento tão unificado (e tão desagradável)? O que transformou o fanatismo fascista nessa poderosa tropa digital?
As respostas podem não estar apenas na psicologia social ou nas enfermarias psiquiátricas. Talvez a medicina tenha pouco a dizer, por mais que a proliferação dos desvarios carregue tantos indícios de demência clínica. Agora, pistas valiosas nos chegam da Ciência Política. É ela quem tem as lentes que nos deixam ver o lado de dentro do monstrengo que, antes, só conseguíamos observar pelo lado de fora. Continue lendo
Do Goela de Ouro
Há sinais de incêndio na área municipal da Saúde. A crise tem como endereço o Hospital do Trabalhador. Se instalou no andar de cima e se espalhou para a mesma área no Estado. Junto com isso, a informação é que candidato ao governo do Paraná recebeu material explosivo de denúncia sobre o assunto.
Em O Globo, na coluna de Malu Gaspar, com reportagem de Johanns Eller
Deputado Filipe Barros replicou emenda de Ciro Nogueira, mas nega intenção de favorecer banco; comissão presidida por ele teve audiência tensa com presidente da CVM e convite a Galípolo
O deputado federal Filipe Barros (PL-PR), aliado próximo do clã Bolsonaro, usou seu mandato e o comando da Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional (CREDN) da Câmara dos Deputados para pautar medidas que beneficiariam diretamente o Banco Master e pressionar o Banco Central (BC), a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e desafetos de Daniel Vorcaro no período em que a tentativa de venda da instituição para o BRB era alvo de questionamentos.
Levantamento feito pela equipe da coluna em dados públicos mostra que foram sete requerimentos, um projeto de lei e uma audiência pública entre novembro de 2024 e setembro de 2025, período em que a situação do Master se agravou e Daniel Vorcaro atuou nos bastidores para conseguir mudanças regulatórias que beneficiassem o banco, além da aprovação da venda para o BRB.
O cardápio vai desde a apresentação de um projeto de lei idêntico à chamada “emenda Master”, que Ciro Nogueira (PP-PI) tentou incluir em uma PEC no Senado Federal e acabou rejeitada, até o convite do presidente do BC, Gabriel Galípolo, e o da CVM, João Pedro Nascimento, para depor na CREDN – embora o colegiado trate de temas internacionais e soberania, com pouca ou nenhuma conexão com os temas discutidos.
A primeira medida tomada pelo deputado, indicado ao cargo pela bancada do PL para substituir Eduardo Bolsonaro após o autoexílio dele nos Estados Unidos, foi apresentar um projeto de lei que, se aprovado, ampliaria de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) para aplicações financeiras. O FGC era a base do modelo de negócios do Master, que prometia taxas de retorno muito acima das praticadas no mercado.
O teor do projeto de lei que Barros, atualmente pré-candidato ao Senado, protocolou em novembro de 2024 era o mesmo do apresentado três meses antes por Ciro, ex-ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro. Ampliar para R$ 1 milhão a cobertura do FGC poderia dar fôlego ao Master, mas também causaria um rombo ainda maior ao fundo, que é sustentado pelos grandes bancos e já perdeu estimados R$ 57,4 bilhões por conta do escândalo.
A emenda de Ciro Nogueira bateu na trave — o relator, Plínio Valério (PSDB-AM), disse que não era o caso de incluir o assunto na Constituição e que seria mais adequado um projeto de lei. Foi exatamente o que Barros fez ao protocolar sua proposta na Câmara.
O projeto não chegou a ser votado. Ficou parado na Casa até ser retirado de tramitação em fevereiro deste ano, três meses após a liquidação do Master e a primeira prisão de Vorcaro. No mês passado, uma etapa da operação Compliance Zero que mirou Ciro Nogueira revelou que o texto da “emenda Master” foi redigida por funcionários do banco e entregue na casa do senador dentro de um envelope a mando de Vorcaro.
À equipe do blog, Filipe Barros admitiu ter redigido o PL após tomar conhecimento da emenda proposta pelo senador do PP, que considerou uma “boa ideia”, com o objetivo de proteger investidores de prejuízos.
Mas negou ter discutido o assunto com Ciro Nogueira e disse que nem ele e nem seus assessores jamais tiveram contato com Vorcaro. Mas reconheceu ter retirado a proposta de tramitação por conta da repercussão do escândalo e alegou que pretende reapresentá-la no momento “oportuno”. Continue lendo
Da revista Veja
Segredos do ex-banqueiro incluem pagamento milionário no exterior ao senador e detalhes de negócios dele com o partido de Lula
Desde que eclodiu, o escândalo do Banco Master chama atenção por uma série de razões. Um dos maiores rombos financeiros da história do país, ele deixou um rastro de prejuízo estimado em mais de 50 bilhões de reais. A meteórica ascensão de Daniel Vorcaro e de sua instituição, sabe-se hoje, está intimamente ligada à construção de uma impressionante rede de conexões junto aos Três Poderes da República. O banqueiro transitava nas mais altas-rodas. Promovia festas nababescas, que misturavam atrizes, modelos estrangeiras, políticos, juízes, empresários e burocratas bem posicionados. Sua frota de jatos estava sempre à disposição dos poderosos e ele não economizava na hora de distribuir pequenos e grandes mimos a personagens influentes das mais diversas correntes ideológicas. Com acesso a tudo que o dinheiro pode comprar, parecia imune às adversidades reservadas aos mortais. Nada sugeria que essa situação um dia pudesse desmoronar. Até que desmoronou. Confinado há três meses em uma cela, Vorcaro, numa tentativa de mudar o destino que parece traçado, passou a emitir sinais de que pretende revelar segredos.
Conforme apurou a reportagem de VEJA, um dos novos e mais bombásticos segredos envolve o senador Davi Alcolumbre (União Brasil- AP), o presidente do Congresso. Segundo o relato, o ex-banqueiro teria feito a Alcolumbre um pagamento de 30 milhões de dólares, cerca de 155 milhões de reais. De acordo com proposta de confissão, o valor foi depositado em uma conta secreta no exterior e repassado ao parlamentar pelo apoio dado a uma demanda de interesse do Banco Master, em transação operada por Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro. O ex-banqueiro se dispôs também a falar sobre seus negócios nebulosos com o PT da Bahia, citando especialmente Rui Costa, chefe da Casa Civil de Lula até recentemente, que se mostraram fundamentais para a ascensão meteórica do Master.
Do enviado especial
“Já vi velório mais animado”. Comentário de um prefeito do interior no evento desta semana de entrega de caminhões e equipamentos. A cerimônia no Palácio Iguaçu foi realizada no mesmo dia da divulgação do último levantamento da Paraná Pesquisa, que colocou o senador Sérgio Moro lá em cima e mostrou o deputado federal Sandro Alex patinando na preferência dos paranaenses.
por Lea Oksenberg, no Vigília Comunica
Marilda e a irmã dela, a Cleide, são melhores amigas, mas casaram com homens de planetas completamente diferentes.
A Cleide casou com o Clodoaldo, o rei do desapego. O tipo de cara que vive de bermuda de praia, camisa de time e chinelo de sola de pneu — se bobear, vai até em casamento assim. Já a Marilda casou com o Clóvis, um homem que parece que nasceu vestindo um paletó. O Clóvis não é apenas formal; ele é o próprio manual de etiqueta em formato de gente.
Em um verão, as duas resolveram alugar casas na praia. Marilda e Clóvis ficaram em uma praia mais pacata, já Cleide e Clodoaldo alugaram uma casinha em outra praia, bem mais agitada. Um belo dia, decidiram se encontrar para um churrasco na casa da Cleide.
Clodoaldo estava no portão da casa de praia, com um espeto de linguiça numa mão, uma lata de cerveja na outra, sem camisa e com o pé na areia. Eis que o carro do Clóvis estaciona.
Cleide se une a Clodoaldo para receber o casal. Quando a porta do motorista se abre, o mundo parece parar em câmera lenta.
Primeiro, um sapato de couro legítimo, preto e impecavelmente lustrado, pisa diretamente na areia fofa.
Depois, surge uma calça social com o vinco tão perfeito que parecia ter recém-chegado da lavanderia.
E, finalmente, Clóvis sai do carro: camisa social e paletó. Sob um sol de 38 graus na cabeça.
Cleide olhou para aquilo, olhou para Clodoaldo (que estava com a bermuda suja de carvão), olhou de volta para Clóvis e quase caiu dura no chão. Ela não sabia se dava as boas-vindas ou se pedia para Clóvis assinar um contrato de partilha de bens, de tão advogado que ele parecia no meio do veraneio.
Clóvis, sem perder a pose, deu boa tarde, estendeu a mão formalmente para Clodoaldo e perguntou onde ficava o “lavabo”. Clodoaldo deu um gole na cerveja, mediu o cunhado de cima a baixo e mandou:
— Fica lá dentro, chefe. Mas entra rápido antes que a sua dignidade comece a evaporar nesse sol de meio-dia.
Vamos a la playa oh o-o-o-oh
Vamos a la playa oh o-o-o-oh
Vamos a la playa – Stefano Righi e Carmelo La Bionda
por Vinicius Torres Freire, na FSP
Time masculino jamais ficou mais de cinco disputas seguidas sem levar o título. Além da falta de vitórias, para o bem ou para o mal o esporte fica sem lendas e mitos
Jamais o Brasil ficou mais de cinco Copas seguidas sem ganhar o título mundial. Caso não vença neste 2026, a sexta, será um “recorde”, como gosta de dizer o jornalismo que lida com números quaisquer.
Para o jornalismo esportivo, seria uma nova “escrita”, um mitológico tabu, no caso um histórico comprido de estatísticas negativas. Quase nunca esses números dizem algo, como tantos recordes da economia e as estatísticas engraçadas discutidas em mesas-redondas boleiras.
Foram cinco Copas sem título até 1958. Houve um terceiro lugar honroso em 1938 e um mitologicamente desastroso vice em 1950, a derrota no Maracanã, que a lenda diz ter abalado aquele país muito pobrinho, simplezinho e à procura de motivo de orgulho nacionalista.
Foram cinco Copas sem título até 1994, com um quarto lugar em 1974 e um terceiro em 1978. Os resultados foram então tidos como fiascos do futebol tricampeão imbatível, mitologia embalada também pela propaganda da ditadura, do Brasil Grande.
Desde o penta, em 2002, a melhor classificação foi o quarto lugar da Copa do 7×1, em 2014. A Copa, assim como a Olimpíada, fora marcada para um Brasil que decolava, dizia a lenda. O disparate das obras dos estádios motivou protestos de rua. Vinham na rabeira de 2013, a onda mitológica do Gigante que acordou, raquítico, confuso e ignorante como sempre, para viver no pesadelo de depressão econômica e ameaça de golpe.
E daí que o time do Brasil estique uma escrita ruim? Talvez o desinteresse por Copas aumente, como tem sido o caso na última década.
O desinteresse não aumentaria apenas por causa de nova derrota, mas também pelo declínio das lendas. Em 1978, o Brasil foi campeão “moral”, tendo perdido para uma suposta mutreta argentino-peruana. Em 1982, o “jogo mais bonito do mundo” perdeu para uma eficiente e pancadeira Itália e para o embevecimento da Seleção pela própria beleza. Mito, mas interessante.
O desinteresse talvez seja explicado em parte pelo fato de os jogadores da seleção, afora os “influencers”, serem pouco conhecidos por quem não seja boleiro. Dos cinco brasileiros mais seguidos no Instagram, quatro são ou foram jogadores de futebol. Neymar, que está nessas duas categorias, lidera. A outra pessoa é Anitta.
O aumento do desinteresse talvez se deva ainda à dispersão de interesses, que não vem de agora, deste tempo da economia da atenção capturada por algoritmos. As pessoas têm literalmente mais o que fazer. Há mais opções de esporte, entretenimento e de ocupações da vida. Até o Brasil da crise quase crônica de mais de 40 anos ficou mais rico ou menos pobre.
É um chute explicativo parcial. Nos riquíssimos e imensos Estados Unidos de tantas opções de consumo, entretenimento e emburrecimento, a história é outra. Trata-se do país do show bizz esportivo extremo e profissional, já de atletas bilionários. Lá, o futebol americano leva a atenção nacional de modo que não ocorre com decisão alguma de final de futebol brasileiro, até por envolver música e política.
Aqui, falta de profissionalismo e corrupção fazem o público olhar o comando do esporte como olha para o Congresso. Os tipos que mandam são parecidos, quando não os mesmos. Há mutretas em jogos por causa de “bets”, desordem, violência; campos e arbitragens ruins.
É uma realidade degradada. Resta ao torcedor a fantasia de que esse time pouco inspirador acorde. De qualquer modo, é só futebol. Ou não.
Da FSP
Morre Brito, zagueiro campeão do mundo na Copa de 1970, no México
Informação foi divulgada pela família nas redes sociais, em perfil oficial do ex-atleta. Ex-zagueiro estava internado desde 14 de maio por conta de uma pneumonia
Brito, zagueiro titular da seleção brasileira campeã na Copa do Mundo de 1970, no México, morreu. A informação foi divulgada via redes sociais, em conta oficial do ex-jogador nesta quinta-feira (11).
Hércules Brito Ruas, o Brito, nasceu em 9 de janeiro de 1939. Marcou época no Vasco da Gama, mas também passou por Internacional, Flamengo, Cruzeiro, Botafogo e Corinthians.
Ele tinha 86 anos e estava internado desde o dia 14 de maio por conta de uma pneumonia, conforme registro no perfil. Ainda não foram divulgadas informações sobre o velório.
“É com imensa tristeza que comunicamos o falecimento do nosso campeão do mundo. Agradecemos a todos pelas orações e as mensagens de apoio e carinho”, diz trecho da publicação da família.
O zagueiro também disputou a Copa de 1966. Em 1970, fez dupla ao lado de Piazza. Foi considerado o jogador com melhor preparo físico do torneio no México.
Brito foi titular em todas as partidas e não foi substituído. Atuou pela seleção brasileira de 1964 a 1972, com 61 jogos.
Foram 45 vitórias, 11 empates e cinco derrotas, com títulos da Copa Roca (1971) e Taça Independência (1972), segundo dados da CBF (Confederação Brasileira de Futebol).
Mauro Silva, volante titular da seleção na Copa de 1994, nos EUA, publicou uma homenagem a Brito.
“O futebol brasileiro se despede de um grande campeão. Tive a honra deste encontro com Brito, tricampeão do mundo em 1970 e referência de uma geração que marcou para sempre a história da nossa seleção”, escreveu.
O Vasco homenageou o ex-zagueiro nas redes sociais.
“Hércules Brito Ruas tinha 86 anos, era vascaíno de berço e foi revelado em São Januário. Com a Cruz de Malta, disputou 405 jogos e anotou 11 gols, em duas passagens: 1957 e de 1959 até 1969. Conquistou o Torneio de Paris de 57 e o Rio São Paulo de 66. Suas atuações e seu porte físico o levaram para a Seleção Brasileira, a qual defendeu em duas Copas do Mundo: 1966 e 1970, de onde saiu com o tri mundial”, escreveu o clube.
por Carlos Castelo
Conheço muita gente que já cresceu bilíngue. Em português e inglês. Português e alemão. Português e japonês. Eu cresci falando português e português.
Mas não a mesma última flor do Lácio.
Da porta do nosso apartamento para fora, eu era um migrante mirim como qualquer outro. Sabia pedir pão na padaria, reclamar do trânsito e chamar biscoito de bolacha.
Da porta para dentro, porém, entrava numa espécie de território autônomo da federação linguística brasileira: a República Popular do Piauião.
Meu pai era piauiense. Minha mãe, maranhense. O resultado foi uma criança criada em São Paulo, mas alfabetizada emocionalmente num idioma que o Ministério da Educação jamais catalogou.
Toda família possui palavras próprias. Algumas têm apelidos carinhosos. Outras têm mitologia doméstica. A minha tinha um extenso vocabulário.
Lembro do dia em que descobri que “calundu” não era uma palavra universal. Para mim, era tão normal quanto cadeira ou copo.
— O menino acordou de calundu.
— Seu tio está de calundu.
— Não mexe com a avó hoje que ela tá de calundu.
Só muito mais tarde percebi que, em São Paulo, as pessoas precisavam de frases inteiras para explicar um simples calundu.
“Estou irritado sem motivo aparente, mas também não quero conversar sobre isso.”
No Maranhão, bastam três sílabas: calundu. Economia verbal digna de haicai.
Meu tio Zé Leão era um grande entusiasta dessa palavra. Certa vez viu uma namorada minha com cara de poucos amigos e perguntou:
— A moça está de calundu?
Ela, paulistana da gema e muito sincera, respondeu:
— Não, senhor. Estou no período fértil.
Outra joia linguística da família era “petimetre”.
Trata-se de uma palavra inusitada porque já ofende antes mesmo de você saber o que significa. Ninguém recebe tal título e agradece.
“Fulano é um petimetre.”
Pronto. A reputação do sujeito acaba de ser despejada num banheiro químico.
Descobri depois que a palavra vem do francês petit-maître e que, paradoxalmente, também pode significar dândi. Os gauleses tentaram fundar uma França Equinocial no Maranhão e falharam. Militarmente, perderam. Linguisticamente, deixaram essa bomba-relógio.
Mas nada se compara ao majestoso, ao incomparável, ao indispensável “pindó”.
Pindó nem é mais uma palavra. Já é quase um sistema filosófico.
Quando você esquece o nome de alguma coisa, o pindó surge para preencher a vacuidade.
— Passa o pindó.
— Qual pindó?
— O pindó do pindó.
E misteriosamente os outros entendem.
O carregador de celular é um pindó. O controle remoto é um pindó. A tampa do ralo é um pindó. Até o clitóris é um pindó.
Suspeito que, se Aristóteles tivesse nascido no Piauí, metade da metafísica seria resolvida com a palavra-coringa.
O universo, afinal, talvez seja apenas um enorme pindó cuja função ainda estamos tentando descobrir.
E assim segui vivendo entre idiomas. Falando português para o mundo. E, dentro de mim, preservando aquele velho dialeto doméstico onde mau humor é calundu, anão moral é petimetre e todas as coisas sem nome encontram abrigo sob a mesma palavra: pindó.
A mais brasileira das soluções para quando a língua sabe o que quer dizer, mas não está muito a fim de explicar.
(Publicado no Estadão)