
Em Matinhos (PR) – Foto de Pedro Pedreira
por Giceli Portela*
Dona Veneza – Bom dia, Eugênio. Preciso de uma reforma lá em casa.
Eugênio – Desculpe, dona Veneza. Agora não faço mais reformas. Sou retrofiter.
V- Ah… então o senhor poderia re-tro-fi-tar minha casa?
E- Do que se trata?
V- É uma casa antiga, dos meus avós. Tenho medo de que ela perca sua história com uma reforma sem sensibilidade.
E- Ela é tombada?
V- Não. Mas é importante para mim.
E – Então a senhora precisa de um restaurador.
V – Deus me livre! Vai custar uma fortuna e vão querer deixá-la como era há cem anos.
E – Quem lhe disse isso?
V- Ouvi dizer…
E- Pois ouviu errado. Restauro não faz uma casa voltar no tempo. Isso só existe em filme. O objetivo é cuidar dela, preservar o que merece permanecer, substituir apenas o que chegou ao fim da vida útil, reforçar a estrutura quando necessário e permitir que continue vivendo. Como um idoso: saúde, dignidade e longevidade. As rugas contam histórias.
V – Então isso não é retrofit?
E – Não, senhora. Isso se chama restauro.
V – Que palavra bonita.
E – E cheia de significado. No Brasil, quem projeta e coordena o restauro de edificações são os arquitetos, reunindo engenheiros e outros especialistas conforme a necessidade.
V – Entendi. E o senhor faz o quê?
E – Ainda não sei. Estou procurando trabalho.
V- Então tenho uma ideia: por que não volta a fazer reformas? Reforma também pode ser feita com respeito, inteligência e sensibilidade. Nem toda reforma destrói. Nem todo prédio antigo precisa de uma palavra em inglês para ganhar valor.
O retrofiter sorriu.
Talvez o problema nunca tivesse sido o trabalho.
Talvez fosse apenas o nome.
Ela saiu procurando um arquiteto.
Ele ficou procurando uma tradução para si mesmo. Continue lendo
de Clarice Lispector
O que me tranquiliza é que tudo o que existe, existe com uma precisão absoluta. O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete não transborda nem uma fração de milímetro além do tamanho de uma cabeça de alfinete. Tudo o que existe é de uma grande exatidão. Pena é que a maior parte do que existe com essa exatidão nos é tecnicamente invisível. Apesar da verdade ser exata e clara em si própria, quando chega até nós se torna vaga pois é tecnicamente invisível. O bom é que a verdade chega a nós como um sentido secreto das coisas. Nós terminamos adivinhando, confusos, a perfeição.
do Goela de Ouro
Por enquanto, na fase pré, a chapa in pectoris do governador Rarinho Junior ao Senado tem dois pré candidatos: Alexandre Curi pelo Republicanos e Cristina Graeml pelo PSD, partido que tem no comando o próprio governador. No prazo certo, terá um. Para a jornalista será oferecida a vice na chapa de Sandro Alex, que vai disputar o governo do Paraná. Se ela não topar, seu destino será debutar para uma cadeira na Câmara dos Deputados e fazer legenda para o partido que a acolheu e até deu cargos no fim de governo.
Para Alexandre Curi sobrará enfrentar para as duas vagas em disputa – a candidata de Lula ao Senado – Gleisi Hoffmann pelo PT; Filipe Barros pelo PL, como candidato de Bolsonaro; Alvaro Dias pelo MDB como candidato de sua história; Deltan Dallagnol candidato do Sérgio Moro se a Justiça Eleitoral permitir.
Por Lea Oksenberg, no Vigília Comunica
O relógio marcava 19h12 quando ele saltou do ônibus, quase atropelando uma senhora com sacolas de supermercado. Não havia tempo para desculpas; o hino nacional começaria em dezoito minutos. Correu as três quadras até o prédio como se a própria alma estivesse em jogo, o coração no ritmo da bateria da torcida. Passou pelo porteiro com um aceno tenso, subiu o elevador apertando o botão repetidas vezes — como se o visor fosse obedecer à sua ansiedade — e abriu a porta do apartamento num arranco.
A mochila foi jogada em um canto. Os olhos, secos de expectativa, encaravam a televisão.
O controle remoto foi acionado. A tela acendeu. Mas, em vez do gramado e do som ensurdecedor do estádio, surgiu uma tela preta com um retângulo cinza e a mensagem mais temida da era moderna: “Sem sinal. Verifique a sua conexão ou contate sua operadora.”
O estômago do garoto revirou.
— Não, não, não… Agora não! — blasfemou, como se o aparelho se sensibilizasse com o seu desespero.
Voou pra trás do rack. Entre poeira e fios emaranhados, começou o ritual de sobrevivência digital. Desliga o modem da tomada. Conta até dez — a contagem mais longa da vida. Liga de novo. As luzes piscam numa lentidão irritante. O power acende. O indicador do sinal oscila. E a luz do online… vermelha. Uma trágica e reluzente luz vermelha.
Olhou o relógio: 19h21. O pânico tomou conta.
Com fé cega, desconectou os cabos brancos de rosca e soprou as pontas — técnica herdada dos cartuchos de videogame. Nada. A TV continuava no mais pleno silêncio.
Pegou o celular com as mãos trêmulas para ligar para o suporte. Após passar por três menus digitais e uma atendente virtual de voz excessivamente calma, veio o veredito gravado: “Identificamos uma instabilidade na sua região. Previsão de retorno dos serviços: 8h30.” Continue lendo
Do Filósofo do Centro Cínico
A “tribo” dos parnanguaras não perdoa nem Jesus Cristo se esse resolver voltar à Terra e aparecer por lá – logo tascam-lhe um apelido. No caso de Sergio Moro, pela já histórica pisada no tomate de deixar a população de tanga, com certeza ele vai ganhar de presente um tão venenoso que o marreco de hoje vai parecer elogio – e não vai adiantar cantar que índio quer apito.
Se o senador Sergio Moro (PL), pré-candidato ao governo do Paraná, acha que os parnanguaras, nascidos e moradores da histórica Paranaguá, formam uma população indígena, como registra um vídeo (ver abaixo) que está bombando, sabe-se lá o que vai dizer quando perguntarem para ele sobre o que pode prometer à população de Braganey.
por PVC, na FSP
Seleção melhorou diante da Escócia, mas ainda não está no nível dos favoritos. Brasil não enfeou após 1982; já era feio na Argentina (1978) e na Alemanha (1974)
O Brasil melhorou na partida contra a Escócia na noite desta quarta-feira (24). Melhorou, mas não jogou ainda no nível dos principais favoritos ao título.
Joga Bonito foi uma campanha da Nike no meio da primeira década deste século, logo depois do pentacampeonato mundial. Quem a alimentava muito era Ronaldinho Gaúcho, melhor do planeta nas eleições da Fifa de 2004 e 2005. Não tinha como não achar bonito ver os dribles e os lances de efeito.
Craque malabarista, recebeu o apelido de Mágico no Paris Saint-Germain e de bruxo para o resto da vida.
Muito antes do “joga bonito”, a expressão mais precisa era “Futebol-Arte.” Convenhamos, é muito melhor.
Nesta Copa do Mundo, o Brasil é cobrado num nível em que nunca foi antes por não jogar bem. “Eu quero que o Messi ganhe a Copa. Torcia pelo Brasil quando jogava bonito. Agora não tem mais jogadores e não tem mais beleza. O que aconteceu?”
Dois motoristas de uber em Miami me disseram a mesma coisa. Alexander, do aeroporto até o hotel, é cubano e foi agressivo no tom de voz. Estava bem bravo. Não ganhou gorjeta.
O Brasil dificilmente vai jogar bonito nesta Copa, mas precisa recolocar a placa Futebol-Arte na lista de requisitos básicos para a seleção.
Assim como a CBF precisa dissipar a nuvem preta que sobrevoa o prédio da Barra da Tijuca depois de décadas de desmandos e corrupção; plataforma de relançamento do Brasil como potência nos próximos anos, tem de incluir arte com a bola no pé como pressuposto para quem passar perto de uma camisa amarela...
Futebol-Arte não é fazer embaixadinha, malabarismo. É buscar o ataque, ser agressivo e moderno, marcar por pressão, querer ter a bola no pé, ter drible, fazer gols.
Silvio Berlusconi tratou isso como pressuposto ao comprar o Milan. Precisava fazer seu clube ser uma marca global e entendia que o único jeito de conseguir isso seria ganhar jogando bem. Daí contratou Arrigo Sacchi, mestre intelectual de Carlo Ancelotti. O Milan se tornou símbolo de qualidade e ganhou cinco Champions League em 18 anos.
Alexander, o uber cubano, culpa a falta de jogadores de talento. Acha absurdo Vinicius Junior ter marcado só 11 gols pela seleção e acusa a falta de novos Ronaldos e Ronaldinhos como a razão do jogo feio.
Em 2001, um ano antes de ganhar o Penta, o Brasil perdeu de Honduras, e a falta de assunto dominante atacou a falta de qualidade da geração. Veja você, o quinto título veio com Cafu, Roberto Carlos, Rivaldo, Ronaldinho e Ronaldo. Faltava talento?
A rigor, não é necessário fazer a campanha do Futebol-Arte para o Brasil voltar a mostrar o que sabe. Ninguém falava em jogo bonito nem em Futebol-Arte em 1970, quando Jairzinho, Gérson, Tostão, Pelé e Rivelino formaram a melhor equipe da história das Copas do Mundo.
Construiu-se a falsa verdade de que o Brasil passou a jogar feio porque perdeu a Copa de 1982. Se fosse assim, não teria exibido feiúra no Mundial na Argentina, em 1978, nem na Alemanha, em 1974.
O problema hoje é termos tido quatro técnicos no ciclo e desperdiçado três anos com um presidente da CBF incompetente e amargurado, o rosto da equipe até agora.
Agora a seleção tem de salvar a campanha de 2026, tentar crescer durante a competição, chegar às semifinais, evitar vexame. Depois, a CBF precisa investir na recuperação da imagem.
O Brasil, no futebol, é uma marca global. Tem de jogar bem e tentar resgatar o Futebol-Arte.
por Carlos Castelo
Robespierre apareceu em Brasília, num dia qualquer, sem aviso prévio. Surgiu perto da Rodoviária, como quem perdeu uma conexão em 1794 e só agora conseguira recuperar a bagagem.
Passou boa parte da manhã observando aquele cenário de linhas geométricas. Havia algo de grandioso em tudo aquilo, mas também algo que o intrigava.
— Onde está o povo? — perguntou.
Um funcionário público, que aguardava um carro de aplicativo para percorrer uma distância de trezentos metros, explicou que o povo estava espalhado pela cidade.
— Não estou vendo ninguém.
— Porque está todo mundo dentro de carros.
Robespierre olhou ao redor.
— E por que não saem?
— Porque estão indo para algum lugar.
— E quando chegam?
— Entram em outro carro.
Mas o verdadeiro choque veio depois.
Num café, alguém lhe entregou alguns jornais. Robespierre começou a leitura com a curiosidade de um visitante interessado em conhecer a vida política local. Terminou algumas horas depois com a expressão de quem acabara de descobrir uma nova forma de loucura administrativa.
As manchetes falavam de escândalos envolvendo partidos de todas as colorações. À medida que avançava na leitura, Robespierre começou a desenvolver uma leve contração no olho esquerdo.
Leu sobre desvios de recursos, investigações, delações, anulações processuais, recursos judiciais, prescrições e absolvições celebradas com entusiasmo reservado às conquistas esportivas.
Quando percebeu que a tarefa exigiria mais pesquisa do que a Revolução Francesa inteira, pediu outro café. Foi nesse instante que lhe veio a ideia.
Na manhã seguinte, reuniu a imprensa e anunciou a criação do Comitê Nacional de Higienização Política.
A notícia produziu um efeito extraordinário. Políticos experientes passaram a demonstrar um apreço repentino pela discrição. Parlamentares desapareceram de restaurantes onde eram vistos havia décadas. Ex-governadores descobriram parentes remotos em países distantes.
Os mercados reagiram nervosamente. Os comentaristas políticos ficaram eufóricos. E Brasília se comportou da maneira tradicional: criando grupos de trabalho.
Robespierre instalou seu quartel-general na Esplanada dos Ministérios e ordenou a construção de uma gigantesca guilhotina.
Então surgiu um obstáculo inesperado.
Ao elaborar a lista dos candidatos à lâmina, Robespierre descobriu que a tarefa era muito mais complexa do que imaginara. A relação de nomes cresceu tanto que exigiu classificações, anexos e subanexos.
A própria guilhotina começou a enfrentar dificuldades. Foi necessário abrir licitação para a compra de componentes.
A licitação gerou questionamentos. Os questionamentos geraram recursos. Os recursos geraram pareceres. Os pareceres recomendaram novas análises. As novas análises justificaram a criação de uma comissão. A comissão concluiu que seria prudente criar outra comissão.
Meses se passaram e a guilhotina ali, imóvel.
Robespierre, homem acostumado a resolver impasses históricos com objetividade, observava tudo aquilo com crescente perplexidade.
Certa tarde, um jornalista conseguiu entrevistá-lo.
— Maximilien, qual é sua avaliação da experiência brasileira?
O revolucionário olhou para o Congressso, depois para a pilha de documentos acumulados sobre sua mesa. Por fim, suspirou.
— Na França, nós tínhamos uma revolução.
— E aqui?
— Aqui, vocês transformaram a revolução em processo administrativo. É isso é péssimo.
O jornalista apontou para a guilhotina enferrujada que se erguia ao longe sem jamais ter sido utilizada.
— Por quê?
— Porque a minha guilhotina cortava cabeças.
Fez uma pausa.
— E a daqui só corta prazos.
Foi a primeira vez na História em que Maximilien Robespierre admitiu uma derrota para o carimbo.
(Publicado no DCM)