11:45Sem impulsionamentos digitais

Do enviado especial

O pré-candidato ao PSD pelo Governo do Paraná, Sandro Alex, disse nesta terça-feira (30) a executivos da Associação das Emissoras de Radiodifusão do Paraná (Aerp) que vai manter a política adotada por Ratinho Junior de priorizar investimentos de comunicação pública nos veículos e emissoras do Estado, e não em impulsionamentos digitais que drenam recursos para a Meta e outras empresas do Vale do Silício.

Compartilhe

10:27Ave, Flávio!

por Carlos Castelo

A História, como se sabe, tem péssimo gosto para piadas. Quando não repete a tragédia como farsa, repete a farsa como grupo de família.
Foi assim que, em 2027, Brasília acordou com a notícia de que o novo presidente, Flávio havia descoberto sua genealogia. Um assessor, desses que estudam latim no YouTube, explicou que “Flávio” vinha dos Flavius, e que, portanto, havia ali uma ponte direta entre a Roma Antiga e o Plano Piloto.
— Presidente, o senhor é descendente direto do imperador Flavius Domitianus, que governou de 81 até 96 depois de Cristo!
— Sério? — respondeu ele, já mandando trocar o brasão da
República por uma águia com um celular na garra.
No primeiro dia de governo, criou-se o Ministério da Majestade Ofendida. Sua função era simples: toda vez que alguém fizesse piada com o presidente, o ministério avaliaria se a piada era engraçada. Sendo engraçada, era crime. Sendo sem graça, era agravante
O Senado, sempre sensível às novidades históricas, reagiu com indignação controlada, que é a indignação quando ainda há cargos a distribuir. Alguns senadores lembraram que Flavius Domitianus havia esvaziado o Senado romano e ficaram em alerta. Outros ponderaram que, no Brasil, isso seria redundante: o Senado já se esvaziava sozinho às sextas-feiras e feriados prolongados.
Havia também a questão do título. Flavius gostava de ser chamado de “Senhor e Deus”. A equipe de comunicação achou excessivo. Depois de uma pesquisa qualitativa em três barbearias, duas lives e uma padaria, chegaram a uma solução:
— Excelentíssimo Senhor, Quase Deus, Mas Humilde.
O povo aderiu parcialmente. Nos dia a dia, por economia de sílabas, ficou “QDMH”. Nas repartições, virou carimbo.
Obras públicas brotavam em Brasília: arcos, colunas, pórticos, um pequeno Coliseu para debates presidenciais e um aqueduto que levava leite condensado do Alvorada ao gabinete.
Também houve incentivo à cultura. Poetas oficiais recebiam verba para compor epigramas patrióticos de até 280 caracteres. Quem ultrapassasse o limite era acusado de experimentalismo; quem usasse ironia tinha a bolsa convertida em visita guiada ao Ministério da Majestade Ofendida.
Mas o problema de presidentes com DNA imperial é que, cedo ou tarde, começam a achar que oposição é erro de digitação. Surgiram os delatores de condomínio. O vizinho do 402 denunciava o do 301 por “não curtir com entusiasmo suficiente”.
A portaria, antes preocupada com encomendas da Shopee, passou a vigiar a moral da República.
Por fim, não houve um atentado no palácio como o ocorrido com Flavius Domitianus, porque o século XXI terceiriza tudo. Aconteceu apenas uma reunião, um áudio vazado, três notas oficiais contraditórias e uma comissão.
E, como sempre, depois do império veio a limpeza. Retiraram os bustos, apagaram os slogans, mudaram o nome do Coliseu para Centro de Memória do Esquecimento.
E só restou mesmo, numa parede esquecida do Planalto, a inscrição em latim macarrônico:
“Flavius divinus est – mas sem perder a ternura jamais”.

(Publicado no Brasil 247)

Compartilhe

8:19O documentário

Mestre Marden Machado, nosso “senhor cinema”, completa a informação do post abaixo:

No momento, o grande cineasta Paolo Sorrentino está fazendo um documentário sobre o Ancelotti. De uma certa forma um ciclo ligando cinema e futebol se fecha.

Compartilhe

8:12Em campo, Ancelotti e Pasolini

Da editora Cosac

Você sabia que Ancelotti e Pasolini já disputaram uma partida de futebol?
Antes de conquistar a Europa como treinador e chegar na seleção Brasileira, Carlo Ancelotti participou de uma partida histórica entre as equipes de filmagem de Pier Paolo Pasolini e Bernardo Bertolucci. O jogo, disputado em 1975, ajudou a reconciliar dois dos maiores nomes do cinema italiano, e acabou se tornando o último jogo da vida de Pasolini.

Pasolini e o futebol: foi Pasolini quem definiu o “futebol de prosa” (praticado pelos europeus) e o “futebol de poesia”, jogado na América do Sul. O italiano também disse que o ludopédio era um dos “grandes prazeres”, depois da literatura e do sexo.

Compartilhe

7:30A propaganda é…

Tá explicado porque os canais de televisão foram inundados de propaganda do governo federal em meio aos jogos da Copa do Mundo. Meio bilhão de reais foram liberados para isso neste ano de eleições.

Compartilhe

7:11Na Assembleia de Deus

As Assembleias de Deus têm 22 milhões de fiéis em todo o Brasil. Ontem, em São Paulo, aconteceu o 1º Fórum do Conselho Político Nacional da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB). A dupla Sandro Alex (PSD) e Alexandre Curi (Republicanos), pré-candidatos ao governo do Paraná e ao Senado, respectivamente, voaram para a capital paulista e participaram do evento. Receberam apoio oficial e, naturalmente, esperam os votos em outubro. Isso é política! Em tempo: no Paraná existem 5 mil templos com 600 mil fieis. Só em Curitiba são 163 igrejas e 35 mil seguidores.

Compartilhe

6:36O peso da dor

Por Lea Oksenberg, no Vigília Comunica

Dizem que o coração é só um músculo, mas a anatomia falha em explicar a dor no peito. Ele é, na verdade, onde todas as nossas dores se cruzam. E são tantas.
Há a dor abstrata, coletiva, que aperta quando andamos pela rua e esbarramos na pobreza e na fome. Há a dor física, concreta, essa que trava as costas, cansa os olhos e rouba as forças, nos impedindo de continuar ou até de finalizar um projeto que tanto queríamos entregar ao mundo. O corpo simplesmente cobra o preço e para.
E há, por fim, a dor do luto absoluto. A notícia da partida de Marjane Satrapi foi devastadora: a criadora de Persépolis, que sobreviveu a revoluções e exílios, morreu de tristeza pouco mais de um ano após perder o marido, Mattias Ripa. O coração, que aguentou as dores do mundo, quebrou de saudade.
No fundo, todas são farinhas do mesmo saco. Seja a fome na calçada, o corpo que falha diante de uma meta ou o amor que se vai, tudo dói no mesmo lugar. Somos feitos de fragilidades.
Diante de tamanha fragilidade, a gente se pergunta como o ser humano ainda consegue colocar um pé à frente do outro. Como continuar produzindo, sonhando ou simplesmente existindo quando o corpo reclama ou quando o mundo ao redor parece desabar?
Talvez a resposta esteja no mesmo lugar de onde nasce o aperto. Se a dor é o preço que pagamos por estarmos vivos e atentos, a nossa insistência em criar é a única teimosia que nos salva. Escrever sobre a dor, dar nome à fome, chorar os amores que partiram e respeitar o limite do próprio corpo não são sinais de fraqueza. São o nosso jeito de dizer ao mundo que, apesar de tudo, o coração ainda bate. E enquanto bate, insiste.

“Viver é desenhar sem borracha. Millôr Fernandes

Compartilhe

6:06No jogo do Brasil, a divisão política arrefece

por Joel Pinheiro da Fonseca, na FSP

A experiência da Copa é, hoje, o que chega mais próximo de unir a totalidade do país torcendo por um mesmo objetivo. A polarização no nível atual é um obstáculo a uma política funcional

Até algumas horas depois de uma vitória da seleção num mata-mata na Copa, há algo diferente no ar. Uma alegria gratuita, uma leveza. Mesmo quem volta para o trabalho não volta com a mesma seriedade. Trabalhar é prazeroso. Estranhos se cumprimentam na rua.

A experiência da Copa do Mundo é, hoje, o que chega mais próximo de unir a totalidade do país torcendo por um mesmo objetivo —vencer o adversário externo— e esquecendo das diferenças políticas.

No resto do tempo, estamos divididos. Não tanto em nossas propostas para o Brasil —a maioria gostaria de um Estado mais eficiente, menos corrupção, combate ao crime eficaz, programas sociais melhores etc.— quanto em nossa desconfiança ou mesmo ódio para com quem pertence ao outro grupo político. É a “polarização afetiva”.

A polarização no nível atual é um obstáculo a uma política funcional. Quando gravar vídeos na rede falando mal dos adversários rende mais dividendos eleitorais do que trabalhar com eles para gerar soluções de consenso, os incentivos da competição política passam a trabalhar contra a melhora da sociedade. Os conflitos geram muito calor e fumaça, mas nenhuma luz.

Nosso contexto traz desafios inéditos, mas o fenômeno não é novo. É um dos problemas perenes da filosofia política, sob vários nomes, como faccionalismo: a divisão da sociedade em facções que lutam entre si e põem em risco o bem comum. Aristóteles apontava o risco de facções, grupos que julgavam não ter sua devida parte nos recursos, no poder ou no prestígio social, e que lutam violentamente entre si. São a antessala da tirania.

Dois mil e cem anos depois, o mesmo problema ainda tirava o sono de James Madison nos “Artigos Federalistas”. Muito mudara nesse meio tempo, inclusive a incorporação do conflito próprio das facções como um motor benéfico à sociedade, se mantido dentro de certos limites. A pura harmonia leva ao imobilismo. O excesso, no entanto, é letal. Como impedir que uma república com liberdade de opinião sucumba às facções e à guerra civil? “A liberdade é para a facção o que o ar é para o fogo.” Abolir a liberdade, contudo, seria uma cura ainda pior do que a doença.

Madison previa soluções institucionais: governo representativo, federação grande —com muitos interesses regionais—, divisão dos Poderes. Hoje, lá e aqui, todos esses arranjos estão em xeque. O imediatismo da opinião pública conectada coloca representantes contra a parede, colapsa distâncias e facilita a politização de órgãos e Poderes independentes. Já a China, ao suprimir em parte essa liberdade, se apresenta como uma solução funcional.

Há quem diga que o discurso sóbrio da IA pode remendar o que o barulho das redes rompeu. Suspeito, contudo, que a tecnologia sozinha não dará conta da polarização. Temos que nos educar para a cooperação e a independência. Teríamos não só uma política mais funcional, como uma sociedade mais feliz. A Copa não é a solução, mas nos permite sonhar com esse Brasil melhor.

Compartilhe