
Não sei se é. Mas para mim a Praça da República é o coração de Belém, ponto. Conferi isso em abril último, quando passei vários dias na capital paraense, decorando pelas nuvens o recado: arraste as sandálias que a qualquer hora vem chuva. Como dois e dois quatro.
Na Praça da República, pulsam tesouros culturais centenários (convém lembrar que Belém foi fundada em 1616) mesclados aos eminentemente populares, como o empolgante carimbó ou uma profusão de sons, espalhados em shows no chão da praça, com uma diversificada feira realizada aos domingos.
Imaginem, na mesma praça estão o magnífico Theatro da Paz, inaugurado em 1878, e o histórico Teatro Experimental Waldemar Henrique, entre outros monumentos.
Sim, o Theatro da Paz e todo seu luxo e pompa nasceram do rico Ciclo da Borracha. No Paz e na paz, os nobres divertiram-se à beça, não só pela apresentação de peças, concertos e óperas, mas com prostitutas que eram abrigadas em salão especial e longe das damas da nobreza, que ocupavam os camarotes, distante de seus senhores maridos, privilegiadamente aninhados em cadeiras mais próximas ao palco, em local ventilado por pequenas janelas. Convém lembrar que as temperaturas médias em Belém estão sempre acima das médias, beirando aos 30 graus. Dos camarotes, as damas tinham uma visão apenas parcial do palco e vento, se houvesse, vinha dos seus abanadores.
Nada de intimidades. Em meio à sua arquitetura neoclássica, luxuosa e rebuscada, com colunas em mármore de Carrara, inspirada na edificação italiana Teatro alla Scala, patenteava-se a divisão social. Os escravizados, a exemplo das prostitutas, ficavam separados em um salão distante de seus senhores, além de subir as escadarias pelas bordas, ao lado dos donos da borracha. Aos escravizados era proibido pisar no centro das escadas. Nem as prostitutas e nem os escravizados assistiram a espetáculo algum, óbvio.
Quando reparei o assoalho de um dos pisos do teatro, levei um susto do tamanho de minha ignorância: o chão, em madeira de lei, era decorado com a suástica. À minha pergunta e cara de perplexo, a guia esclareceu-me e pacificou-me: a suástica é um símbolo milenar, usado por mais de cinco mil anos por diversas culturas. Seu nome vem do sânscrito “svastika”, que significa “boa sorte” ou “bem-estar”. Antes de Hitler, a suástica representava a paz, vejam só.
Na época do fuhrer, os nazistas, que inspiram congêneres e seus procedimentos atualmente, tinham o hábito de apropriações indébitas. Depois das atrocidades por eles cometidas, o emblema foi identificado ao ódio, ao crime e ao racismo. Esse Partido Nazista e seus pupilos… Mas, no Theatro a suástica é só a Paz. Ufa!
Aliás, livrei-me desse susto com um concerto “Uma Noite com Tó”, em homenagem ao compositor e violonista Tó Teixeira, considerado um dos maiores nomes da música amazônica. Se estivesse vivo, o artista paraense comemoraria 132 anos neste a ano.
Emocionante, o espetáculo pode ser considerado uma mostra da alma sonora da Amazônia, com a participação da Orquestra Tó Teixeira de Choro e direção musical de Salomão Habib. Confesso meu até então desconhecimento de quem era Tó, considerado o “poeta do violão” e o primeiro violonista negro a realizar um concerto público no Pará. Foi autor de mais de 250 composições que misturam ritmos populares amazônicos. Tó desenhou a alma musical da gente amazônica; o Brasil deveria conhecê-lo de vez.
Na mesma Praça da República, o Waldeco, apelido que deram ao Teatro Experimental Waldemar Henrique, é voltado para o fomento e a experimentação de diferentes linguagens artísticas. A dezenas de metros de distância estão um teatro centenário, extremamente luxuoso, e outro, com cara e o jeito de agora.
A praça, aliás, tem monumentos pra todos os gostos, alguns descascados, outros mais vistosos. Há um deles, luxuoso, em mármore, inaugurado em 1897, com a figura de uma mulher, saudando o regime que substituiu o Império, com um ramo de oliveira na mão, simbolizando a paz. Há um “gênio” erguendo o estandarte da República e, garantem, gritando “Liberdade”. Seus olhos estão petrificados, como sempre foram.
A descrição da praça e seus seculares detalhes ocupariam muitas páginas. Melhor é conhecê-la e cair no carimbó. O ar molhado não arrefece o calor da dança. Arraste as sandálias e rode a saia! A mescla de sons e cores toma conta do domingo, em dança profana. Amém. É algo emocionante assistir ao bailado, com pés sacudindo areia. Meus olhos ficaram das cores dos vestidos das dançarinas. Continue lendo →