11:12Por que não na Argentina?

por Hayton Rocha

Uma de minhas sobrinhas-netas já passou da idade dos porquês. Pelo menos era o que eu imaginava. Quando criança, queria saber por que o céu era azul, por que o mar era salgado ou por que o cachorro do vizinho latia para motocicletas, mas nem ligava para os caminhões. Agora cresceu. As perguntas diminuíram de quantidade e aumentaram perigosamente de qualidade.

Esta semana apareceu aqui em casa, segurando um punhado de figurinhas da Copa do Mundo.
— Tio, tem jogador negro nas seleções da França, da Inglaterra, da Alemanha, da Holanda, da Suíça, da Suécia… até do Japão. Por que não tem na seleção da Argentina?

Nessa idade, a gente ainda acredita que o mundo precisa fazer sentido. Não sabe a pequena curiosa que os mais velhos passam metade da vida inventando explicações para coisas que nem eles próprios entendem direito.

Ganhei alguns segundos examinando uma figurinha imaginária. É um recurso antigo: quando a resposta não aparece, a gente finge que está pensando, mas, na verdade, torce para que ela apareça sozinha.

Esses álbuns fazem milagres. Ressuscitaram uma espécie que muitos cientistas já davam como extinta: crianças conversando umas com as outras. Voltaram as rodinhas nos corredores da escola, os encontros nas livrarias, as negociações nos shoppings, a felicidade de completar uma página e a tristeza de descobrir que a figurinha repetida era justamente a que ninguém queria trocar. Há muito tempo um pedacinho de papel colorido não humilhava com tanta classe uma tela de celular.

Enquanto ela aguardava minha resposta, lembrei de uma velha frase de Chico Buarque. Dizia que, no Brasil, só a Xuxa era branca e, mesmo assim, se não se casasse com o Taffarel, os brancos desapareceriam. Era uma hipérbole, claro, mas dessas que dizem muito. Chico zombava de nossa mania de esquecer que este país nasceu da mistura. Africanos, europeus, indígenas e asiáticos acabaram formando um povo em que a pureza racial existe apenas na imaginação de quem nunca se deu ao trabalho de conversar com os próprios antepassados.

A Argentina trilhou um caminho diferente. Durante mais de um século cultivou a fantasia de ser uma nação essencialmente branca, descendente dos milhões de europeus que chegaram entre o fim do século XIX e o início do XX. Os povos indígenas e os afrodescendentes foram sendo empurrados para as bordas da História, como quem varre poeira para debaixo do tapete acreditando que a visita não vai reparar.

Essa ideia reapareceu há poucos anos, quando o então presidente Alberto Fernández declarou que os argentinos “vieram dos navios”, enquanto os mexicanos “vieram dos índios” e os brasileiros “saíram da selva”. A frase provocou indignação não apenas pelo preconceito implícito, mas porque a genética mostrou outra realidade. Boa parte dos argentinos também carrega ancestralidade indígena e africana. A miscigenação existia; faltava disposição para reconhecê-la.

Por isso a ausência de jogadores negros na seleção argentina continua despertando tanta curiosidade. Não existe qualquer política de exclusão conhecida. Os estudiosos apontam fatores demográficos, históricos e sociais. Ainda assim, não deixa de ser emblemático que um país miscigenado apresente ao mundo justamente a imagem que passou décadas tentando construir.

Minha sobrinha-neta ouviu tudo em silêncio. Quando terminei, fez aquela cara de quem agradece o esforço do professor, mas percebe que ele respondeu apenas metade da pergunta. E tinha razão. A História costuma explicar muito, mas quase nunca explica tudo.

Antes de voltar às figurinhas, perguntou:
— Então você não sabe exatamente por quê?

Respondi que não. Mas acrescentei uma última observação.

— Só sei de uma coisa. Se a História tivesse seguido outro rumo e um certo menino negro, nascido em Três Corações (MG) e criado em Bauru (SP), tivesse vindo ao mundo alguns quilômetros mais ao sul da fronteira, o sofrimento do povo brasileiro seria bem maior.

Porque suportar argentino campeão do mundo já exige paciência e resignação com os desígnios divinos. Imagine, então, se Pelé tivesse aprendido a cantar o hino olhando para a Casa Rosada. Não bastassem Maradona e Messi, ainda teríamos de conviver com o Rei vestindo azul e branco.

Há desgraças que Deus, em sua infinita misericórdia, simplesmente não permite.

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9:18Homem sentado na praça

Homem sentado na Praça João Lisboa

 

de Luis Augusto Cassas

Homem sentado na praça
na solidão do domingo
na solidão desta tarde
newyorquina londrina
ipanemense ludovicense
Homem sentado na praça
entre rosas estátua namorados
– o olhar sociológico
perscrutando a multidão –
homem universalmente sozinho
como se estivesse sentado na tarde
de Londres New York Paris
São Paulo Buenos Aires Rio
no Central ou no Hide Park
na Praça de La Concorde
da Sé ou 9 de Julho
(o sol reclina-se nos bancos)
O olhar baço-sol apagando –
fitando perto nenhum lugar;
o pensamento solto – como pássaro –
cria projetos de paz e igualdade
que as nuvens desfazem, ah entardecer!
Já pensou em soluções coletivas
para a cidade e a humanidade
(agora idealiza pombos na mão
como se estivesse em Veneza)
Homem sentado na tarde
absorto triste indiferente
ruminando a solidão do domingo:
e nem percebe quando as andorinhas
– como uma rajada de metralhadora –
batem asas contra a Igreja do Carmo
avisando que a missa das seis já encerrou
e a voz do padre e a tarde
se extinguiram

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8:35A transição do Flávio e o pedalinho

Ao saber que Flávio Bolsonaro ofereceu aos EUA uma participação na equipe de transição de seu governo, o Gaiato da Boca Maldita teve um treco e foi logo atendido por uma equipe do Samu. Recuperado, sacou uma navalha e começou a cortar o ar, de tanta indignação. Falou da soberba do senador e disse que nem o Santos de Pelé cantava vantagem antes das decisões. “Ele acha que o Brasil é mesmo o quintal dos yankes. Pois, se perder para o Lula, deveria ser deportado e enviado para fazer companhia ao mano Eduardo lá no Império – mas iria navegando de pedalinho, para pagar os pecados”.

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8:21Bolsonaro x Bolsonaro

Que grande novela dariam as brigas passadas, presentes e futuras da família Bolsonaro. Ganha um fim de semana em Miami quem souber um só tema de política pública que os divide. É puro Nelson Rodrigues. (Elio Gaspari)

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8:12A eleição e a Copa

No próximo dia 4 de julho termina o prazo para divulgação das propagandas institucionais dos partidos. Depois, de 20 de julho a 5 de agosto, as candidaturas serão oficializadas. Por enquanto muitos pré-candidatos torcem para que o Brasil chegue à final da Copa do Mundo (19 de julho). Para não se expor e, nesse tempo, achar um caminho para convencer o eleitorado que tem propostas – mesmo sabendo que não pode cumpri-las. É o conhecido jogo do “eu sei que estou mentindo” e o eleitor “sabe que está sendo enganado” – mas a mensagem ilude. Se a seleção cair antes… bora torcer pelo Messi ou pelo Vozinha.

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7:22Futebol, vida e morte

  • Meu palpite é que gostamos do futebol porque ele imita a vida. (Hélio Schwartsman)
  • O futebol em seu estado mais puro faz isso com a gente: aponta para a vida e lida com a morte. Dá sentido à existência, eleva o lugar de mais significado e ensina que tudo acaba. Morremos, renascemos, tornamos a morrer. Começo, meio e recomeço. Não existe fim, o tempo não é linear, depois de acabar volta a começar. (Jamil Chade)
  • Citados na coluna do mestre Tostão

 

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7:05A PERGUNTA

Luciana Saito, primeira-dama do Paraná que está com o marido Ratinho Junior nos Estados Unidos, vai torcer pra quem no jogo decisivo entre Brasil e Japão amanhã?

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7:02O relógio do Neymar

Neymar comprou relógio de R$ 1 milhão na folga da seleção brasileira. A bolinha dele ainda está do tamanho de uma de tênis. Se não se machucar, entrar em forma e jogar o que sabe, levando a seleção ao título desta Copa, poderá comprar o Big Ben e será aplaudido pela torcida.

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6:40A absolvição do espelho

por Lea Okseanberg, no Vigília Comunica

A janela insistia no cinza de todos os dias. No termômetro da avenida, os sete graus pareciam o peso exato que os ombros de Luzia conseguiam carregar ao cruzar a sala. Ela colocou a chaleira no fogo, um gesto repetido tantas vezes que os objetos já pareciam conhecer o ritmo de suas hesitações.

Enquanto esperava a água ferver, o silêncio da casa era preenchido por uma canção antiga — daquelas que Luzia guardava na memória e no peito há décadas, como velhas amigas que se recusam a ir embora. Era uma melodia do tempo em que a esperança parecia um projeto viável, um samba antigo que contrastava com a dureza cruel do agora. Hoje, as notícias que chegavam pela tela ou pelo papel falavam de desamparo, de salas de aula esquecidas e de calçadas frias onde o inverno não pedia licença para os que não tinham teto. O mundo parecia andar de cabeça para baixo, tomado por uma aridez que ela não reconhecia.

Luzia olhou para o telefone. Havia um cansaço na forma como certas relações se transformavam ao longo dos anos. Uma metamorfose lenta, feita de silêncios compridos, que ela não sabia se devia tentar romper ou apenas testemunhar. Sentou-se, segurando a xícara quente entre as mãos, pedindo mentalmente desculpas pelo café que talvez ficasse forte demais, ou por não ter forças para consertar o que estava quebrado lá fora. Pedindo desculpas, como sempre, pelo que fazia e pelo que deixava de fazer.

Luzia olhou para as próprias mãos ao redor da xícara. O calor do vidro começava a ceder para o ar frio da cozinha, mas algo nela, finalmente, reagiu.

Havia coisas, ela sabia, diante das quais era preciso aceitar a própria pequenez, a própria insegurança. Ela não podia esticar os braços e alterar os sete graus do termômetro da avenida. Não podia, sozinha, reescrever as notícias, iluminar a política ou cobrir com um cobertor cada calçada fria da cidade. O mundo continuaria seu curso torto do lado de fora. Mas ali, dentro do quadrado da sua cozinha, ela mandava. Continue lendo

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6:26Cassino

por Antonio Prata

Imagina se, em vez de legalizar o jogo, o Congresso tivesse legalizado drogas. Todas. Que hipocrisia enorme é vender um vício e pedir moderação. Se a loteria é a maconha, as bets são a cocaína

Imagina se em vez de legalizar o jogo, o Congresso tivesse legalizado drogas. Todas. E elas fossem a principal patrocinadora da Copa do Mundo.

“E começa a partida! Partida que fica mais animada com a Copacoca! A cocaína da torcida brasileira! Tá vendo o QR code aí no canto da tela? É só escanear e correr pro abraço, em meia hora a Copacoca tá aí na sua casa! Cheirou, é gooool! O Brasil toca a bola no campo de defesa. Casimiro. Pra Vini Jr. Vini é craaaaaaaaque! É craaaaaaaaque! Será que ele vai ser o craque da partida? Será? Será? Entra agora no nosso App, diz quem você acha que vai ser o craque da partida e você concorre a três pedras de crack e um cachimbo oficial da Seleção Brasileira! Brasil no ataque. Vini volta com Casimiro. Passa pra Neymar. Neymar aí que conseguiu se recuperar a tempo da Copa, Neymar herói, herói, herói, e herói chama o que? Herói chama heroína! Foi gol? Injetou! Viajou! Lembrando que é só pra maiores de dezoito anos e que pra mais emoção, injete com moderação!”.

Não sei se o locutor dormiria melhor por dizer a última frase. Eu não. Que hipocrisia enorme é vender um vício e pedir moderação. Se a loteria é a maconha, as bets são a cocaína. Ninguém tem overdose de maconha, assim como não se vai a falência jogando na Mega-Sena. Bet é droga pesada. Já ouvi mais de uma história de pessoas se arruinando por apostar em lateral, gol, escanteio. É criança pegando o cartão dos pais, marido apostando com o dinheiro da esposa. A prima da minha diarista economizou 15 mil reais ao longo da vida. Fazendo faxina. Cozinhando. Lavando roupa. O marido gastou tudo, sem que ela soubesse.

Outro fator agravante. A loteria lida com números aleatórios, mas apostar nas bets pega numa fraqueza nacional: todo homem brasileiro acredita ser o Guardiola, o Telê, o Ancelotti. Faz parte da nossa masculinidade frágil uns delírios de grandeza. Acreditamos até que poderíamos estar em campo. Na Copa de 2014 fiz uma crônica sobre aquele ser o último mundial em que poderia jogar. Ao me dar conta que estava com 33 anos e que em 2018 teria 37. Claro que, perna de pau como sempre fui e tendo me dedicado a vida toda não aos gols de letra, mas às letras sem gols, havia zero possibilidade de jogar na seleção. Em algum lugar do inconsciente, contudo, havia esse desejo latente, que parou de latir.

Tá todo mundo caindo de pau na Cazé TV, com razão, mas ela é só a boca de fumo (de crack, de pó) mais visível. Toda a mídia tá comprada pelas milícias das apostas, hoje os maiores anunciantes, depois do governo. Se você libera um troço desses, com tanta grana, é claro que quem vive de propaganda vai aderir.

Faz umas semanas, a colunista da Folha Deidre Nansen McCloskey escreveu uma coluna falando sobre o erro que é deixar decisões importantes nas mãos do estado. “É melhor deixar para os mercados e outras interações humanas voluntárias a maior parte do que o Estado tenta planejar, organizar, ordenar e moldar.” Falava sobre a série “The West Wing”, em que um governo de centro esquerda tentava governar. Cara Deidre, olhe pro mundo hoje. Os governos e os cidadãos são reféns do mercado, que convence pessoas pobres a gastar suas parcas economias em cassinos. É melhor deixar bets, Elons Musks, Jeffs Bezos e Marks Zuckerbergs darem as cartas? Acha que está funcionando?

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17:26Conversa de compra de passarinho

de Rubem Braga

Entro na venda para comprar uns anzóis e o velho está me atendendo quando chega um menino da roça, com um burro e dois balaios de lenha. Fica ali, parado, esperando. O velho parece que não o vê, mas afinal olha as achas com desprezo e pergunta: “Quanto?” O menino hesita, coçando o calcanhar de um pé com o dedo de outro: “Quarenta”. O homem da venda não responde, vira a cara. Aperta mais os olhos miúdos para separar os anzóis pequenos que eu pedi. Eu me interesso pelo coleiro do brejo que está cantando. O velho:

— Esse coleiro é especial. Eu tinha aqui um gaturamo que era uma beleza, mas morreu ontem; é um bicho que morre à toa.

Um pescador de bigodes brancos chega-se ao balcão, murmura alguma coisa: o velho lhe serve cachaça, recebe, dá troco, volta-se para mim: “O senhor quer chumbo também?” Compro uma chumbada, alguns metros de linha. Subitamente ele se dirige ao menino da lenha:

— Quer vinte e cinco? Pode botar lá dentro.

O menino abaixa a cabeça, calado. Pergunto:

— Quanto é o coleiro?

— Ah, esse não tenho para venda, não…

Sei que o velho está mentindo; ele seria incapaz de ter um coleiro se não fosse para venda; miserável como é, não iria gastar alpiste e farelo em troca de cantorias. Eu me desinteresso. Peço uma cachaça. Puxo o dinheiro para pagar minhas compras. O menino murmura: “O senhor dá trinta…?” O velho cala-se, minha nota na mão.

— Quanto é que o senhor dá pelo coleiro?

Fico calado algum tempo. Ele insiste: “O senhor diga…” Viro a cachaça, fico apreciando o coleiro.

— Se não quer vinte e cinco vá embora, menino.

Sem responder, o menino cede. Carrega as achas de lenha para os fundos, recebe o dinheiro, monta no burro, vai-se. Foi no mato cortar pau, rachou cem achas, carregou o burro, trotou léguas até chegar aqui, levou 25 cruzeiros. Tenho vontade de vingá-lo:

— Passarinho dá muito trabalho…

O velho atende outro freguês, lentamente.

— O senhor querendo dar quinhentos cruzeiros, é seu.

Por trás dele o pescador de bigodes brancos me fez sinal para não comprar. Finjo espanto: “Quinhentos cruzeiros?”

— Ainda a semana passada eu rejeitei seiscentos por ele. Esse coleiro é muito especial.

Completamente escravo do homem, o coleirinho põe-se a cantar, mostrando sua especialidade. Faço uma pergunta sorna: “Foi o senhor quem pegou ele?” O homem responde: “— Não tenho tempo para pegar passarinho.”

Sei disso. Foi um menino descalço, como aquele da lenha. Quanto terá recebido esse menino desconhecido, por aquele coleiro especial?

— No Rio eu compro um papa-capim mais barato…

— Mas isso não é papa-capim. Se o senhor conhece passarinho, o senhor está vendo que coleiro é esse.

— Mas quinhentos cruzeiros?

— Quanto é que o senhor oferece?

Acendo um cigarro. Peço mais uma cachacinha. Deixo que ele atenda um freguês que compra bananas. Fico mexendo com o pedaço de chumbo. Afinal digo com voz fria, seca: “— Dou duzentos pelo coleiro, cinquenta pela gaiola.”

O velho faz um ar de absoluto desprezo. Peço meu troco, ele me dá. Quando vê que vou saindo mesmo, tem um gesto de desprendimento: “Por trezentos cruzeiros o senhor leva tudo.”

Ponho minhas coisas no bolso. Pergunto onde é que fica a casa de Simeão pescador, um zarolho. Converso um pouco com o pescador de bigodes brancos, me despeço.

— O senhor não leva o coleiro?

Seria inútil explicar-lhe que um coleiro do brejo não tem preço. Que o coleiro do brejo é, ou devia ser, um pequeno animal sagrado e livre, como aquele menino da lenha, como aquele burrinho magro e triste do menino. Que daqui a uns anos quando ele, o velho, estiver rachando lenha no inferno, o burrinho, menino e o coleiro vão entrar no Céu — trotando, assobiando e cantando de pura alegria.

 

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