Político em campanha vai à igreja de manhã, ao templo evangélico à tarde e, à noite, frequenta o terreiro de umbanda – mas não quer que saibam.
10:57SPONHOLZ
10:50Uma mulher negra
de William Carlos Williams
levando um maço de calêndulas
enroladas
em um jornal velho:
Ela as leva verticais,
sem chapéu,
o volume
das suas coxas
fazendo-a gingar
enquanto anda
olhando para
a vitrine pela qual ela passa
em seu caminho.
O que será ela
se não uma embaixadora
de um outro mundo
um mundo repleto de calêndulas
de dois tons
que ela apresenta
sem saber o que fazer
além
de caminhar pelas ruas
levando as flores bem retas
como uma tocha
na manhã tão cedo.
10:04A VIDA COMO ELA É
10:01Dois perdidos
Romeu Zema disse que se prenderem ele e o Brasil mudar, ficará satisfeito. Não deixa de ser uma frase de efeito como aquela, já esquecida, de refundar o país. Ronaldo Caiado, por sua vez, aparece na tv com cor parecida com a di Trump e diz, por ser médico, que o Brasil tem cura. Alguém aí tem de avisar os dois que nada substitui a frase do Tom Jobim que informou para sempre que o Brasil é para iniciados. Os dois acima ainda não sabem disso.
8:29Inteligência
8:19PARA JAMAIS ESQUECER EGBERTO GISMONTI, NANÁ VASCONCELOS, JAZZ SINFÔNICA E FORROBODÓ
7:54JORNAL DO CÍNICO
7:53Mestre
7:32OS FLAGRAS DE ONTEM
7:20Troca de insultos entre candidatos rebaixa o debate eleitoral
por Dora Kramer, na FSP
Candidatos põem Trump no centro de uma campanha que deveria se concentrar nos problemas do Brasil. A real defesa do Pix pode ser feita com apoio à emenda que amplia a autonomia do Banco Central
O aguado caldo de racionalidade que ainda poderia haver no debate eleitoral entornou de vez com a divisão da cena entre Luiz Inácio da Silva (PT) como defensor da soberania, antagonista de Trump, e Flávio Bolsonaro (PL) no lugar de entreguista, traidor da pátria a serviço do americano.
Muito simples de entender, imagem fácil de vender, mas equação insuficiente para resolver um problema que requer paciência, serenidade, criatividade, cálculo, competência, conhecimento e, sobretudo, frieza. Nada disso se viu na primeira reação à ameaça de um novo tarifaço sobre o Brasil.
O contra-ataque em tom de palanque incluiu ilhas até então mantidas a certa distância, como o Ministério da Fazenda e a Vice-Presidência da República. Dario Durigan e Geraldo Alckmin entraram no embalo de citações à “família Bolsonaro”. No dia seguinte, todo o ministério foi chamado a entrar no embalo.
O presidente primeiro disse que esperava um telefonema de Trump com “explicações”, depois informou que enviaria uma carta cobrando o combinado no encontro de 7 de maio em Washington e, no entusiasmo, anunciou que irá à reunião do G7 na França, para “pôr ordem na casa”. Veremos o que fará de fato.
Por enquanto, o que temos é retórica eleitoreira respondida no mesmo diapasão por Flávio Bolsonaro. Em tese levaria a vantagem de ser oposição e não ter a responsabilidade de encaminhar a mitigação de prejuízos. Na prática, porém, um candidato a presidente precisaria apresentar credenciais nos quesitos perícia técnica e habilidade política. Não é o caso.
No lugar de se associar ao oponente na torrente de adjetivos vãos, o presidente poderia ganhar pontos usando de suas prerrogativas para ir com objetividade ao pote.
Um exemplo? Dar consistência à defesa do Pix apoiando a emenda em tramitação no Congresso que amplia a autonomia do Banco Central e cujo texto põe o Pix sob a proteção da Constituição. Valeria mais que quaisquer frases exibidas em cartazes de forma e conteúdo pueris.
7:09A VIDA COMO ELA É
6:41LEIVINHA
por Carlos Castelo
Certos jogadores passam pelo campo. Outros passam pela vida da gente. Leivinha pertence à segunda categoria.
Na adolescência, quando o mundo ainda era um lugar provisório e os heróis moravam a poucos quilômetros de casa, eu o via entrar em campo com aquela leveza que parecia desafiar a gravidade. Tinha algo de pássaro em seus movimentos.
Os cronistas esportivos falavam de técnica, oportunismo, visão de jogo. Tudo isso era verdade. Mas me parece insuficiente. Estatísticas servem para analisar gols. Não servem para explicar encantamentos.
Leivinha conhecia atalhos secretos dentro do gramado. A bola vinha alta e ele já estava no lugar onde ela iria cair. O cruzamento surgia de repente e, antes que os zagueiros percebessem, sua cabeça encontrava a bola com a naturalidade de um encontro marcado.
Num tempo em que muitos atacantes avançavam como tanques de guerra, Leivinha era um poeta infiltrado entre os operários da bola. Talvez por isso tenha permanecido tão vivo na memória.
Os jogadores que admiramos quando adolescentes não envelhecem conosco. Ficam guardados numa espécie de cápsula. Continuam correndo para sempre em tardes de domingo, sob céus que já não existem.
Morre o homem. Mas o jogador que habitava a imaginação do menino continua intacto.
A notícia de sua morte me fez perceber algo curioso: uma parte da minha adolescência também recebeu o apito final.
Não apenas porque ele partiu. Mas porque certos ídolos funcionam como marcos geográficos da alma. Quando desaparecem, somos obrigados a revisitar o território onde os conhecemos.
Voltei então às arquibancadas da memória. Vi novamente o velho Palmeiras. Ouvi o rumor da torcida antes do jogo. Senti o cheiro do amendoim, da grama cortada, das tardes que eram intermináveis. E lá estava ele outra vez, usando a camisa verde que, aos meus olhos de garoto, tinha algo de uniforme mitológico.
Leivinha.
Nome de craque e de passarinho.
Hoje percebo que admirar alguém no futebol é uma forma disfarçada de aprender a sonhar. O adolescente que eu fui não queria apenas fazer gols nas peladas. Queria possuir aquela elegância, aquela facilidade diante das dificuldades, a capacidade de surgir onde ninguém esperava.
Os anos passaram. Vieram outros atacantes, outros campeonatos, outras glórias e decepções. Mas alguns jogadores não pertencem ao tempo, vivem mais na memória afetiva. E ela tem regras próprias. Não respeita certidões de óbito.
Por isso, enquanto os jornais registram que Leivinha morreu, alguma coisa dentro de mim insiste em desmenti-los.
Porque nesse exato instante ele continua correndo por um campo verde como a Academia, recebendo um cruzamento impossível, antecipando-se aos zagueiros e cabeceando para o gol.
E um menino, perdido em alguma tarde distante da década de 70, levanta os braços na arquibancada.
Esse menino ainda sou eu. E esse gol ainda não acabou de acontecer.
(Publicado no Crônicas da Copa)
6:30A VIDA COMO ELA É
6:28O ET que não suportou o nevoeiro
por Lea Oksenberg, no Vigília Comunica
Dizem que o mundo é infinito, mas a paciência do Comandante Xylos tinha limites bem definidos — mais especificamente, o contorno da Região Metropolitana de Curitiba.
Naquela noite de maio, a missão em Campo Largo era simples, quase burocrática: um sobrevoo imperceptível sobre os morros, algumas luzes pulsantes para testar os sensores e, quem sabe, uma sondagem rápida na fauna local. O problema é que Xylos não consultou a previsão do tempo.
Assim que a nave cruzou a atmosfera, o painel não acusou caças da Força Aérea ou mísseis terráqueos. Acusou o bom e velho nevoeiro paranaense, aquela cortina densa que engole o horizonte e transforma tecnologia espacial em palpite cego.
— Visibilidade zero, Comandante — avisou o copiloto, tentando limpar o visor com a manga do uniforme. — Sete graus lá fora. Sensação de três. E uma umidade que entra nos ossos.
Xylos sentiu um arrepio. Ligou os faróis de milha do disco voador — os mesmos clarões que os humanos lá embaixo juravam ser um mistério ufológico. Na verdade, era só um alienígena perdido tentando achar a entrada da Rodovia do Café.
Na terra firme, a internet fazia o seu papel. Celular em riste, o influenciador local transmitia o “primeiro contato” para milhares de pessoas. Nos comentários da live, o de sempre: teorias do fim do mundo misturadas com piadas sobre o preço do pinhão e perguntas se o ET aceitava Pix. Enquanto ufólogos sérios preparavam telescópios e cálculos complexos para decifrar o clarão nos morros, a realidade a bordo era dramática. O motor de arranque havia congelado.
Xylos olhou para a névoa que batia no para-brisa, sentiu o vento encanado da RMC e tomou a única decisão logicamente possível para uma mente superior.
— Apague tudo. Vamos abortar. Esse lugar é hostil demais, as pessoas usam três casacos dentro de casa e a neblina não deixa nem a gente invadir em paz. Vamos voltar para Marte, que lá pelo menos é seco.
A nave sumiu na escuridão, deixando para trás o vídeo viral e um grupo de estudiosos decifrando o significado cósmico do que foi, no fundo, apenas um pisca-alerta espacial. Campo Largo seguiu salva, protegida pelo seu escudo mais antigo e infalível: o inverno que estava por vir.
Minha paixão há de brilhar na noite
No céu de uma cidade do interior
Como um objeto não identificado
(Não Identificado – Caetano Veloso)
20:09O FLAGRA DE HOJE
20:06Leivinha, adeus
Da FSP
Ídolo do Palmeiras nos anos 1970, Leivinha morre aos 76 anos
Ex-meia-atacante foi bicampeão paulista e brasileiro pelo alviverde. Consagrado nos gramados com a camisa de número 8, parou de jogar aos 29 anos, devido a uma série de problemas físicos
Bicampeão do Campeonato Paulista (1972 e 1974) e do Campeonato Brasileiro (1972 e 1973) com o Palmeiras, o ex-meia-atacante João Leiva Campos Filho, o Leivinha, morreu nesta quinta-feira (4), aos 76 anos. A causa da morte não foi revelada.
“Craque com os pés e a cabeça, Leivinha foi um dos símbolos da equipe palmeirense que encantou o Brasil na primeira metade da década de 1970”, disse o Palmeiras por meio de nota.
Natural de Novo Horizonte, no interior paulista, começou a carreira no Linense, de Lins, município localizado na mesma região de sua cidade natal, aos 15 anos.
Em 1966, se transferiu para a Portuguesa de Desportos. Não chegou a conquistar títulos pela Lusa, mas seus gols despertaram o interesse do Palmeiras, para onde se transferiu em 1971.
“Foi peça-chave da Segunda Academia, inclusive assumindo com maestria o comando de ataque quando César Maluco ficou fora do time por cerca de quatro meses devido a uma suspensão”, relembrou o alviverde.
O clube recordou ainda que o ex-meia “foi vítima de um dos erros de arbitragem mais lembrados do futebol brasileiro”, na rodada decisiva do Campeonato Paulista de 1971, contra o São Paulo. Leivinha marcou de cabeça, mas o árbitro Armando Marques anulou sob a alegação de que ele havia usado a mão.
“Foi uma pergunta que eu tive de responder muitas vezes. O Armando queria ser o personagem da partida. O verdadeiro juiz é aquele que passa despercebido nos jogos”, afirmou Leivinha na ocasião.
Destaque do Palmeiras na conquista do Torneio Ramón de Carranza de 1975, em Cádiz, na Espanha, foi negociado na sequência junto ao Atlético de Madrid.
Pelo time de Madri, conquistou a Copa do Rei da Espanha na temporada 1975/76 e o Campeonato Espanhol na temporada 1976/77.
16:23JAMIL SNEGE
Para onde vai o canto,
depois que os
lábios se fecham?
Para onde vai a prece,
depois que o coração silencia?
E os rostos que amamos
para onde vão, senhor,
depois que nossas
pupilas se transformam
em gotas de lama?
Ontem vi uma andorinha
que devia ter uns
cinco milhões de anos.
Será que eu também
sobreviverei
ao que restar de mim?
16:05PARA JAMAIS ESQUECER JANIS JOPLIN E BALL AND CHAIN
15:38Ordem no SOS
Do enviado especial
Verônica Rodrigues, líder do movimento SOS Arthur Bernardes, resolveu colocar ordem no movimento. Ela expressou sua insatisfação com a “moleza” de participantes durante o corte das árvores no dia 18 de maio e deixou bem claro que o grupo precisa ser mais ativo na defesa da causa e que não pode pensar pequeno. Quem não quiser seguir a liderança e não estiver empenhado na defesa do objetivo maior, deve deixar o grupo. Para a líder do movimento, é preciso que toda manifestação seja avisada com antecedência para outros coletivos, partidos, deputados e vereadores da luta, sindicatos e outras organizações contra o capitalismo.







