
Milla Jovovich – Foto de Ellen von Unwerth
De Elio Gaspari
As forças que já começaram a armar o bote para esfarelar as investigações do Caso Master, como fizeram com a Lava Jato, têm um obstáculo: o ministro André Mendonça.
Ao contrário do juiz Sergio Moro, ele e sua mulher não têm projetos políticos. Até agora, ele não se tornou arroz de festa no circuito Elizabeth Arden de palestras. Seus colaboradores no STF e na Polícia Federal são quase anônimos.
Alguns promotores da Lava Jato adoravam dar palestras, e um deles criou uma empresa para agenciá-las.
Na sua fase de delírio, parte da turma de Curitiba chegou a armar o direcionamento de multas para uma fundação que seria dirigida por eles.
Jogaram no lixo seus 15 minutos de fama.
Brasil 70
Nas minhas caminhadas diárias, para fortalecer o corpo e a alma, um leitor perguntou se é verdade que, durante a Copa de 1970, eu lia Machado de Assis e me preparava para o vestibular, como mostrou o filme da Netflix “A Saga do Tri”.
Eu lia Machado de Assis, o Shakespeare brasileiro, mas não é verdade que estudava para o vestibular, pois queria jogar futebol por muito tempo.
Alguns anos depois, tive que parar de jogar por orientação médica, fiz vestibular e me tornei médico e professor de medicina. Após uns 20 anos, voltei ao futebol, como comentarista e colunista, onde estou nos últimos 20 anos.
Tive várias vidas. Gosto de todas. A vida pulsa.
Depois do alarme falso que atingiu 30 milhões de brasileiros e apresentou ao público a palavra misantropia, não podia dar outra no Bananão. Agora até na tendinha da favela estão batendo no peito para garantir ser misântropo – porque soa bem e é palavra difícil. Oposto ao filantropo, o tal tem aversão, desconfiança ou desprezo pela humanidade e pelo convívio social. Hummmmmm. O misântropo vê os outros seres humanos como egoístas e decepcionantes. Pensando bem…
por Lea Oksenberg, no Vigília Comunica
Minha professora da quarta série, dona Catarina, tinha uma paciência de santa e um giz sempre novo na mão. Passou semanas tentando enfiar na nossa cabeça a tal da conjugação verbal. Eu amo, tu amas, ele ama. O “eu” era fácil, o “tu” mais difícil, mas o “ele” era uma entidade misteriosa. Dona Catarina ajeitava os óculos e explicava com precisão incrível : “A terceira pessoa, crianças, é aquela de quem se fala. Ela não está na conversa, mas a gente fala dela.”
Mas a gramática só fazia sentido mesmo quando a gente saía do quadro negro e ia para a ação. É que a nossa Morah, embora fosse mais feia que bater na mãe, era uma flor de pessoa. Fora dar aulas de língua portuguesa, ela adorava montar peças de teatro com os alunos. Quando aquela pessoinha entrava na cena, o mundo quadrado dos pronomes ganhava vida. “Criança não foi feita para ficar sentada conjugando a vida no infinitivo!”, dizia, distribuindo papéis e figurinos improvisados. No palco da escola, quem era “eu” virava “tu”, quem era “ele” virava rei, e a periferia do cenário virava o centro das atenções. Ali, no teatro, ninguém ficava invisível.
Demorei décadas para entender que dona Catarina, com sua diretoria de cena improvisada, estava nos dando a chave para entender o Brasil. É que, fora do teatro da infância, o figurino da vida real é cruel.
Por aqui, a terceira pessoa está longe de ser apenas um pronome. É uma categoria social. É o sujeito invisível que move o país em silêncio enquanto a primeira pessoa — o “eu” blindado no ar-condicionado — reclama no celular que o sinal do Wi-Fi caiu ou que o café veio morno. O “eu” adora se queixar na primeira pessoa do plural (“nós estamos esgotados”, “nós sofremos com o trânsito”), mas esquece que quem está segurando o piano, lá na terceira pessoa do singular, sequer tem tempo para conjugar o verbo cansar.
Repare no balé da calçada. O “eu”, apressado, desvia de uma poça d’água xingando o prefeito e limpando o sapato. Logo ao lado, a “terceira pessoa” — o gari de uniforme — varre as folhas com uma vassoura de gravetos, equilibrando-se no meio-fio para não ser atropelado pelo ônibus. Ele ouve o mesmo desaforo do trânsito, mas, em vez de esbravejar, canta um samba baixinho. Um abismo separa o sapato do “eu” da galocha do “ele”. Estão na mesma rua, mas habitam planetas gramaticais diferentes.
E o Brasil é especialista em multiplicar essas terceiras pessoas. É o entregador de aplicativo que quebra a moto no trânsito; é a moça que corre atrás do ônibus às seis da manhã carregando o almoço na marmita; é o flanelinha que o motorista finge não ver, olhando fixamente para o painel do carro. São os sujeitos que estão na nossa frente, mas dos quais falamos como se estivessem ausentes. A primeira pessoa tem a incômoda mania de achar que a terceira pessoa não tem ouvidos.
No final do dia, o “eu” deita a cabeça no travesseiro, exausto de “tanto trabalhar” diante de uma tela. Enquanto isso, a terceira pessoa, que carregou o mundo nas costas para que o dia do “eu” funcionasse, ainda está na fila do ponto de ônibus. Na escuridão da noite, ela recolhe os adereços, apaga as luzes do cenário alheio e segue esperando a sua vez de, finalmente, ter direito a conjugar o verbo descansar.
A sorrir eu pretendo levar a vida
Pois chorando eu vi a mocidade
Perdida
(O sol nascerá – Cartola e Elton Medeiro)
por Elio Gaspari, na FSP
Líder do governo no Senado virou bomba-relógio para Lula. Oposição torceria para que ele ficasse no posto até outubro
A entrada do senador Jaques Wagner no panelão do Banco Master era uma questão de tempo. A oposição repetia há meses que as delinquências de Daniel Vorcaro começaram na Bahia. Lá atrás, durante a Lava Jato, a polícia encontrou 15 relógios de luxo na casa do senador. Um deles, mimo da empreiteira Odebrecht, foi avaliado pela Polícia Federal em US$ 20 mil.
Ele explicou que eram imitações chinesas. Passaram-se dez anos, a PF foi lá e voltou a achar relógios. O senador voltou a dizer que eram imitações chinesas. A reprise transforma Wagner num caso raro de colecionador de falsificações chinesas.
O PT já havia deixado uma digital no caminho de Daniel Vorcaro quando o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega levou-o a Lula no final de 2024.
Em 2016, quando uma parte do PT foi apanhada pela Lava Jato, Wagner disse que “o PT se lambuzou”. Na quinta-feira, lambuzou-se o líder do governo no Senado.
Depois do mensalão e do petrolão, o PT foi jogado na panela do caso Master. A ver como lida com ele às vésperas de uma eleição.
A diligência da PF ainda tem um longo caminho a percorrer. Em 2025, antes de sua primeira prisão, Daniel Vorcaro teria ameaçado “contar toda a história do Master”. Correndo o risco de mofar numa cela, Vorcaro fingiu, por duas vezes, contar a história do Master; suas propostas de delação eram seletivas e foram rejeitadas.
Há uma curiosidade na trajetória de Vorcaro. Até 2020, eram raros os seus contatos com a cúpula da turma de Brasília. Era conhecido por suas festas milionárias e pela liberalidade com que recorria aos serviços femininos para entreter convidados. Quando percebeu que estava sentado numa pirâmide, Vorcaro atropelou.
Promoveu farofas no circuito Elizabeth Arden. Seu cunhado comprou o resort da família de um ministro do Supremo. Seu banco contratou por dinheiro gordo a mulher de outro, que voava em seus jatinhos. Cerejas do bolo: Guido Mantega levou-o a Lula sem registro na agenda, e o senador Ciro Nogueira apresentou um projeto que elevava de R$ 250 mil para R$ 1 milhão o limite de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Além disso, decidiu bancar um filme que contaria a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro para estrear durante a campanha do seu filho, Flávio.
Com outro braço, segundo a Polícia Federal, Vorcaro mantinha uma milícia privada para quebrar os dentes do jornalista Lauro Jardim. Esse crime ficou na intenção.
Eram ações de um banqueiro radioativo, lidando com os políticos a partir da imagem que tinha deles. Os fatos mostraram que seus alvos foram bem escolhidos.
A menos que ofereça uma colaboração veraz, Vorcaro mofará anos numa penitenciária, como mofou o patrono de sua classe, o americano Charles Ponzi (1882-1949), que ralou 14 anos na cadeia. Depois, ele veio para o Brasil e morreu pobre no Rio.
A chegada da Polícia Federal a Jaques Wagner mostrou a Vorcaro que falar pode se tornar o melhor negócio de sua vida. Talvez ele tenha percebido o que vários figurões não perceberam: a Polícia Federal sabe muito mais do que supõem os intocáveis de Brasília.
por Carlos CasteloHoje acordei com um agente da CIA debaixo de minha cama.
O maior susto, no entanto, foi ele reclamar da poeira.
— Você precisa melhorar seus protocolos de limpeza — disse, anotando alguma coisa num bloco.
Pensei que estivesse sonhando. Afinal, não é todo dia que alguém encontra um espião norte-americano escondido entre uma pantufa órfã e uma revista de palavras cruzadas de 2019.
— O que o senhor está fazendo aí?
— Monitoramento preventivo.
— De mim?
— Não exatamente. Do bairro. O senhor apareceu por acidente estatístico.
Era o tipo de resposta que só um serviço secreto ou o aplicativo do iFood poderia dar.
Levantei, fui fazer café, e o agente me seguiu com a naturalidade de quem já tinha decorado a planta da casa.
Segundo ele, depois das notícias sobre facções brasileiras entrarem no radar internacional como possíveis organizações terroristas, a burocracia global havia enlouquecido.
Computadores cruzavam dados, detectavam padrões e relatórios eram produzidos em velocidades incompatíveis com a leitura humana.
— Ontem investigamos um sujeito porque ele comprou cinco pacotes de Miojo.
— E era terrorista?
— Não. Era inadimplente.
Anotou mais alguma coisa.
Perguntei se os Estados Unidos realmente entendiam o Brasil.
O agente soltou uma risada.
Foi a primeira coisa de fato assustadora naquela manhã.
— Nós passamos décadas tentando entender o Oriente Médio. O Brasil tem reunião de condomínio, coxinha, grupo de família. É muito mais complexo.
Concordei.
Expliquei que o verdadeiro centro de operações estratégicas do país não era nenhuma facção criminosa, mas o grupo de WhatsApp dos moradores de prédio. Ali se espalhavam boatos, teorias conspiratórias e áudios de oito minutos gravados por pessoas caminhando na pracinha do bairro.
O agente ficou pensativo.
— Temos monitorado satélites, portos e redes financeiras. Nunca pensamos nisso.
Em seguida, foi anotando com fúria no bloquinho.
Ao meio-dia chegaram mais dois agentes. Um entrevistou o síndico. Outro desapareceu depois de ouvir uma discussão sobre vagas de garagem. Deve ter sido considerado morto em combate.
No fim da tarde, o primeiro agente arrumou suas coisas.
— Concluímos que o senhor não representa ameaça internacional.
— Que alívio.
— Porém…
Nunca existe frase mais perigosa que um “porém” pronunciado por alguém de crachá.
— Detectamos que já respondeu “vamos marcar” sem qualquer intenção de marcar.
Baixei a cabeça.
— Isso é crime?
— Não. Mas demonstra comportamento brasileiro avançado.
Ele apertou minha mão, agradeceu e saiu pela porta.
Antes de dormir, olhei embaixo da cama. Estava vazia. Pela manhã, o espião estava escondido ali. À noite, não mais.
Em compensação, ao me abaixar, encontrei duas cobranças e um boleto do IPTU ainda em data de validade.
Valeu alguma coisa ter sido alvo da CIA.
(Publicado no Brasil de Fato RS)