
Foto de Chen Man
por Mário Filho
Um torcedor que assina “o torcedor do espelho” pergunta-me, por carta, com ar quase de zanga, porque eu, quando citei o caso do torcedor do bodoque, atrás do gol da piscina, lá em Campos Salles, não citei o caso dele: o caso do “torcedor do espelho”. Ele tinha tanto direito quanto o outro. E talvez mais. A pedrinha atirada pelo bodoque poderia “até” machucar. O espelho, não. E, além disso, o espelho era uma arma muito mais perfeita do que o bodoque. O bodoque acertaria ou não acertaria. Em São Januário, por exemplo, o bodoque não adiantaria de nada. E o espelho foi aplicado, com absoluto êxito, de “qualquer ponto” de São Januário. Amado ia defender uma bola e o reflexo do sol batendo sobre o espelho — um espelho de bolso, pequeno, leve, cômodo — cegou Amado. Gol do Vasco. “O senhor não se lembra? Pois o torcedor do espelho era eu.”
Naturalmente que eu me lembro do torcedor do espelho. Durante um certo tempo os torcedores do espelho se multiplicavam como vaga-lumes. A gente olhava para as arquibancadas e via tudo faiscando. De repente, o goleiro passava a mão pelos olhos. Qualquer pessoa, porém, podia levar um espelho para o campo. E a arma passou a não valer de nada. Se um torcedor do Vasco botava o reflexo do espelho em cima da cara do goleiro do Flamengo, o torcedor do Flamengo esperava o primeiro ataque contra o gol do Vasco e toca a cegar o goleiro do Vasco, o beque do Vasco, qualquer coisa do Vasco. E um dia um chofer, em São Januário, arrumou os faróis de um carro em direção ao arco do Flamengo. A polícia prendeu o chofer. O carro. Os faróis.
O que me impressionou mais na carta do torcedor do espelho foi o anonimato. Ele protestou porque eu não tinha citado o nome dele. Qual é o nome dele? Torcedor do espelho não se parece com nome de ninguém. E, no entanto, eu sei que basta. O “torcedor do espelho” agora mesmo está sorrindo. Encantado. Como se bastasse isso — a citação de um torcedor, que aliás não era um, era uma multidão — para identificá-lo. Ele pode pegar o pedaço de jornal e mostrá-lo a todo mundo. Hoje é dia de festa na casa do “torcedor do espelho”. “Você já leu a Primeira Fila?” — ele indagará de companheiros de repartição, de amigos, de vizinhos. — “Pois não perca a de hoje. Está boa. Cita-me”.
Eu um dia estava sentado diante de uma mesa redonda, escrevendo, escrevendo. Aí, apareceu um homenzinho, com um embrulho debaixo do braço. Dentro do embrulho estava um pacote de cinco contos de réis. O homenzinho encontrara o embrulho não sei onde e se apressara em vir entregá-lo. “Eu sou pobre, mas honesto” — declarou ele, com convicção. Com uma satisfação íntima, profunda, tomaram nota. Nome. Endereço. Tudo. Levaram o pacote para dentro. E o homenzinho começou a ficar nervoso. Ele vestira o terno dos domingos e feriados, mandara engraxar os sapatos, cortar os cabelos e nenhuma fotografia? Eu o vi querer dizer uma coisa. Não disse. Ou, por outra, só disse quando abriu a porta para sair: “Assim, sem fotografia nem nada, nem vale a pena ser honesto. Até desanima a gente”. E bateu a porta com violência. Em sinal de protesto.
O nome em jornal há de ter o seu encanto. Há de ter. Mesmo quando é uma indicação: “Leônidas fazia-se acompanhar por um amigo”. Quantos apontam a linha em corpo sete para dizer: “o amigo era eu”? Assim, não é difícil compreender o caso do “torcedor do espelho”. Eu, inclusive, devia a ele uma crônica. Quem me forneceu o motivo foi ele. Realmente, há uma porção de torcedores que intervêm em uma jogada, em um match, que decidem uma partida. Uns violentos. Os que levam tijolos para o campo. Os que bebem soda só para ficar com a garrafa na mão para o que “der e vier”. E outros maliciosos. Levando um espelho. Um bodoque. Um apito. Continue lendo
Olhaí a nova modalidade de pesquisa – ela junta lé com cré, ou seja, o candidato propriamente dito e o maior apoiador. Pode ser tudo, pode ser nada, mas segue um resumo para conferir a que foi divulgada hoje pelo IRG:
Assim veio:?
Uma pesquisa do Instituto IRG divulgada nesta segunda-feira (15) mostra que o apoio de Ratinho Junior a Sandro Alex está ganhando tração. No cenário em que são indicados os concorrentes e seus aliados, o deputado federal aliado do governador tem 27,5% de intenções de voto, contra contra 39,1% de Sergio Moro (PL) com o apoio de Flávio Bolsonaro e 20,8% de Requião Filho (PDT) com o apoio do presidente Lula.
A pesquisa também testou apoios em um eventual segundo turno. Sandro Alex com o apoio de Ratinho Junior tem 38,5% das intenções contra 42,5% de Sergio Moro com o apoio de Flávio Bolsonaro, o que significa um empate dentro da margem de erro. Continue lendo
A resposta que o senador Sergio Moro deu à nota de Lauro Jardim, publicada em O Globo, onde é revelado que o então ministro da Justiça colocou dez estados na frente do Paraná na distribuição de verbas para Segurança, vai servir de roteiro para os adversários que tentam derrubar o ex-juiz de sua liderança folgada nas pesquisas para a sucessão no governo. Na nota, Moro elenca programas que viabilizou para o Estado. A saber: Centro Integrado de Operações de Fronteiras – CIOF, o único no país, em Foz do Iguaçu; – investimentos na base Nepon da PF em Guaíra, com integração das forças policiais e o Exército em base fluvial, o que reduziu o tráfico de drogas na região; – o programa Para Frente Brasil, com a presença da Força Nacional de Segurança Pública em São José dos Pinhais para a diminuição do crime em cidades violentas (SJP e outras 5 cidades do país foram escolhidas). Entre outras coisas, a munição a ser armazenada tem pelos inimigos tem como pólvora e chumbo o fato de muita coisa ser política de Estado e não específica do ministério da Justiça. A conferir.
Do Goela de Ouro
Alvaro Dias está muito contente com o resultado da maioria das pesquisas que o colocam em primeiro lugar na corrida por uma das duas cadeiras paranaenses no Senado. Mas… há quem acredite que sua longa experiência política o faz pensar também no partido em que entrou, o MDB, e o fato de ele correr o risco de, eleito, ser do time do “eu sozinho” – e isso não interessaria nesta altura do campeonato. Resumo: no Centro Cívico aposta-se firme que, no prazo, ele desiste da disputa, ainda mais porque os principais concorrentes, com máquinas partidárias fortes e dinheiro, vão crescer, aumentando o risco de um novo fracasso ao veterano político.
por Lea Oksenberg, no Vigília Comunica
A entrevista de emprego transcorria num clima de absoluto desapego à realidade. O interviewer, Clovis, vestindo aquele terno justo de quem trabalha em Recursos Humanos, sorria como quem está prestes a vender um lote na Lua para a Luciana.
— Aqui na empresa, nós somos modernos — disse Clovis, com os olhos brilhando. — Não trabalhamos com aquele modelo engessado e arcaico da CLT — falou, com indisfarçável desprezo. — Nós queremos parceiros. Empreendedores! Você será a CEO da sua própria carreira.
O peito de Lulu parecia peito de pomba, inflado de orgulho. De eterna desempregada a CEO em trinta segundos. Que salto magnífico!
— E como funciona essa parceria de giants? — perguntou Luciana a Clovis, já imaginando seu crachá com letras douradas.
— É simples. Você abre uma microempresa, emite uma nota fiscal por mês e pronto. Liberdade total. Sem amarras com o Estado opressor.
— Perfeito. E quais são os horários dessa autonomia corporativa?
O sorriso de Clovis perdeu dois milímetros de largura.
— Bom, o horário é das 9h às 18h, de segunda a sexta. Presencial, claro. Batendo ponto no sistema. Se chegar às 9h15, o desconto é automático.
Lulu piscou duas vezes. Tentou lembrar de alguma regra de empreendedorismo que fizesse sentido ali.
— Mas… se eu sou uma empresa parceira, eu não deveria gerenciar meu próprio tempo?
— Veja bem — Clovis interrompeu, com a paciência pedagógica de quem explica o óbvio para uma criança lenta. — Nós precisamos de união. Se o seu CNPJ não estiver sentado na cadeira dele às 9h, a engrenagem da nossa empresa adoece. Ah, e tem o plantão de fim de semana, tá? Uma vez por mês. Mas veja pelo lado bom: você é seu próprio chefe!
— Entendi. E o vale-transporte para o meu CNPJ vir trabalhar? — perguntou Lulu, meio que já debochando.
Clovis soltou uma risada genuína, quase gostosa.
— Ora, onde já se viu uma empresa pagar o combustível da outra? Você já viu a Petrobras pagar a gasolina da Volkswagen? Não, né? O deslocamento é por sua conta, grande liderança.
Luciana começou a pensar: “Ora, ora… meu CNPJ vai ter que vir de Uber porque o transporte público está caro, e o faturamento dessa minha ‘multinacional de uma mulher só’ mal vai cobrir o pão e o café da manhã”. Essa é a famosa “pejotização tabajara”: você tem todas as obrigações e amarras de um trabalhador CLT, mas com os direitos e garantias de um liquidificador. É o clássico “o patrão quer ter o bicho de estimação, mas não quer pagar a ração”.
— E as férias? — arriscou Lulu, já imaginando a resposta que viria.
— Nós não chamamos de férias. Chamamos de recesso estratégico não remunerado. Você pode tirar 15 dias in janeiro, desde que deixe todas as suas demandas entregues, o e-mail respondido e o celular ligado para emergências. E, claro, nesses 15 dias o faturamento é zero. Afinal, empresa que não funciona, não fatura! É a lei do mercado!
Luciana saiu da entrevista com uma pasta debaixo do braço e uma profunda crise de identidade. Olhou no espelho do elevador e não viu uma trabalhadora; viu uma grande corporação vestindo calça jeans desbotada e sapato com a sola furada.
É fascinante o capitalismo moderno. Conseguiram a proeza de ressuscitar a servidão gourmet. Lulu, indignada, pensou que, no mundo de hoje, ainda há capataz, feudo e jornada exaustiva, mas o chicote agora é digital, a chibata vem por WhatsApp e a culpa de não ter décimo terceiro é exclusivamente do seu “fluxo de caixa”.
Amanhã será o primeiro dia no novo “médio império comercial” de Lulu. Ela vai ter de acordar às 6h para que o CNPJ dela não perca o ônibus. Se ela for demitida — ou melhor, se o seu contrato de prestação de serviços for descontinuado por desalinhamento cultural —, não tem seguro-desemprego, não tem FGTS, não tem aviso prévio.
Mas tudo bem. Pelo menos ela poderá estufar o peito no almoço de domingo e dizer para a mãe que finalmente é uma grande empresária brasileira. Só falta o dinheiro.
Eu me perdi
Na selva de pedra
Homem primata
Capitalismo selvagem
Oh, oh, oh
— Homem Primata (Marcelo Fromer, Ciro Pessoa, Nando Reis e Sérgio Britto)
por Marcus André Melo, na FSP
Para ele, nossos triunfos deviam-se a termos abandonado a restrição a negros que vigia também no Itamaraty. O autor argumenta que o futebol criara as condições para, finalmente, o surgimento de heróis nacionais negros
A Gilberto Freyre são atribuídos alguns mitos populares. Mas a tese de que a superioridade do futebol brasileiro se deve à miscigenação —ou, mais precisamente, ao “mulatismo”— não está entre eles. Provavelmente deveria estar. Em artigo intitulado “Foot-ball mulato”, em sua grafia original, denotando as origens inglesas ainda muito presentes, Freyre escreveu: “Uma das condições dos nossos triunfos este ano me parecia a coragem que afinal tivéramos completa de mandar à Europa um team fortemente afro-brasileiro. Brancos alguns, é certo; mas grande número de pretilhões bem brasileiros e mulatos ainda mais brasileiros”.
O contexto era a Copa do Mundo de 1938, quando o país ficou em terceiro lugar e Leônidas foi eleito o melhor jogador. Era também o início da ditadura do Estado Novo que viria a persegui-lo e a confiscar sua correspondência.
Freyre, que viria a ser consagrado como o pai do mito da democracia racial, faz dura crítica ao racismo do Estado brasileiro: “a escolha de jogadores brasileiros para os encontros internacionais andou por muito tempo obedecendo ao mesmo critério do Barão do Rio Branco quando senhor todo-poderoso do Itamaraty. Nada de pretos nem de mulatos chapados, só brancos ou então mulatos tão claros que parecessem brancos. Ou, quando muito, caboclos, deviam ser enviados ao estrangeiro mulatos do tipo do ilustre Domício da Gama, a quem Eça de Queiroz costumava chamar na intimidade de mulato cor-de-rosa”.
Na senda aberta por Freyre, Mário Filho produziu, quase dez anos depois, uma obra-prima, “O Negro no Futebol Brasileiro” (1947). No prefácio da obra, Freyre acrescenta um argumento novo: o futebol permitiu a sublimação —sim, ele foi pioneiro em mobilizar conceitos freudianos entre nós— de elementos irracionais e primitivos de nossa cultura, domesticando-os. E especula sobre o que teria acontecido com o samba, a capoeiragem e a malandragem. Seu vaticínio quanto ao cangaceirismo é profético, mas em sentido oposto ao que imaginou: “o cangaceirismo teria provavelmente evoluído para um gangsterismo urbano, com São Paulo degradada numa sub-Chicago de Al Capones ítalo-brasileiros”.
Mário Filho descreve a transformação ocorrida. O futebol não alterava a ordem das coisas. Pelo contrário. “Os ídolos do futebol, todos brancos. Quando muito, morenos. Preto só entrava no escrete uma vez na vida e outra na morte. E quando um branco que devia jogar estava fora, doente ou coisa que o valha. Então o preto podia jogar.”
E, mostrando que foi muito mais do que um cronista esportivo, arrematava: “O mulato e o preto eram, assim, aos olhos dos clubes finos, uma espécie de arma proibida. Não um revólver, uma navalha. Se nenhum grande clube puxasse a navalha, os outros podiam continuar lutando de florete”.
Freyre argumenta que o futebol criara as condições para, finalmente, o surgimento de heróis nacionais negros, como o dionisíaco Leônidas. Seu antípoda, Domingos, que jogava sem floreios, era “uma espécie de inglês desgarrado nos trópicos, como Machado de Assis” —mas, ainda assim, “tinha alguma coisa de concentradamente brasileiro”, de “mulatismo”. Freyre escreveu essas linhas em 1947, antes de surgirem Pelé e Garrincha.
de Manoel de Barros
É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
Tudo que não invento é falso.
Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
Tem mais presença em mim o que me falta.
Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.
Sou muito preparado de conflitos.
Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
O meu amanhecer vai ser de noite.
Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.
O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.
Meu avesso é mais visível do que um poste.
Sábio é o que adivinha.
Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.
A inércia é meu ato principal.
Não saio de dentro de mim nem pra pescar.