10:51A boca da Amazônia

Ele pede passagem e nos embarca junto. Sempre é assim. Pode ser reportagem, como esta, porque o olhar registra também como poesia, como sempre. Nilson Monteiro pulsa como a vida e consegue ver por dentro, por fora, pela aura, pela história. Sempre foi assim e é um privilégio tê-lo no Paraná, desde Londrina e há muito em Curitiba, ele que nasceu em Presidente Bernardes (SP). Irriquieto, escreveu livros, assessorou, chorou, riu e, que bom!, sempre escreveu e registrou as letras que brotam de uma alma do tamanho do tudo, ou seja, de poeta. Rodou este Brasil e, aqui, agora conta o que muita gente vê, mas apenas olha.

O jornalista e poeta Nilson Monteiro em Belém (PA)

 

 

 

 

 

 

 

As águas achocolatadas do Guamá beijaram meus pés, deixei. Crispadas e em ondas nos meus olhos, me levaram até o Forte do Castelo do Senhor Santo Cristo, que atende pelo nome plebeu de Forte do Castelo. Ventava encalorado no abril de 2026, pleno inverno no Norte do país. Esse país é feito de contrastes e no Pará estivemos eu e minha mulher, Cleusa Antônia, para melhor conhecer alguns deles.

Foi em uma fortificação militar, então Forte do Presépio, criada por Francisco Caldeira Castelo Branco, nos idos de 1616, que nasceu a história da Feliz Lusitânia, que pra nós, aqui e agora, se traduz por Belém, rodeada pelas saias dos rios Guamá, Acará e Moju, que formam o rendado da baia de Guajará, no Pará, na boca da Amazônia.

O complexo Feliz Lusitânia, às margens do rio que tem cara de mar, reúne o Forte do Presépio, a praça Dom Frei Caetano Brandão, a Casa de Onze Janelas, a Igreja de Santo Alexandre e a Igreja da Sé.

Ao caminhar por entre esses prédios históricos, a pergunta é inevitável: por que Casa de Onze Janelas? E a resposta é mais do que óbvia: porque tem onze grandes janelas em sua fachada.

Anteriormente chamado de Palacete, o imóvel merecia a pompa do nome: é lindo. Desgraçadamente, durante a ditadura militar nos anos 1960/70 foi utilizado como local de encarceramento e tortura de presos políticos. Reformado, virou um museu quase encostado ao Forte do Presépio. Há relatos de que as torturas ocorriam no espaço onde atualmente está́ localizado o restaurante do museu. Provoca engulhos.

Mas, sosseguem: há uma alegria revelada e resguardada por suas grossas paredes: desde 2002, o Palacete ou Casa, como queiram, abriga um revigorante local de vida. Ele é considerado o primeiro museu de arte contemporânea da região Norte e possui um considerável acervo de obras modernas e contemporâneas, com muitos nomes de figurinhas carimbadas da arte brasileira. Muito melhor que usá-lo para presídio, concordam?

Cada prédio do tal complexo conta uma história, incrustada não só neles, mas, a seu lado, em casarões que se misturam (revitalizados ou carcomidos), ruelas estreitas, milhares de barraquinhas de comércio miúdo, imóveis com arquitetura made in exterior, urubus às dúzias ou centenas assim como, tristemente, a danação das drogas (o crack é praga) em forma do torpor humano, tudo junto misturado e muito mais, temperado ao cheiro azedo comum a portos. Aliás, em Belém, pode ser que, em parte, venha do porto do Guamá ao lado do Mercado do Ver-o-Peso, que garantem ser “a maior feira de rua da América Latina”. 

A arquitetura do mercado é imponente, construído para ser um posto de pesagem, em 1625 (pasmem!), e revitalizado há poucos anos. Ao seu lado, há uma feirona onde se vende de tudo: gatos, patos, sapatos, roupas, galinhas, artesanatos, utensílios domésticos, peixes frescos, camarões de água doce, castanhas, açaí, ervas medicinais, cacau, outras frutas da região, o que mais? A feirona, com todos seus odores e sabores, gritos de anúncios dos produtos, profusão (óbvia) de conversas, uma procissão de pessoas pra lá e pra cá em seus corredores, é tida como o coração da cultura amazônica.

Contudo, para o cheiro característico de Belém há também uma explicação interessante que pode ser acrescida: ela é mundialmente conhecida como a “Cidade das Mangueiras”. E não é de graça.  Essas árvores, contaram-me, foram importadas na Ásia pra amenizar o forte calor amazônico. Elas emocionam a qualquer um que goste de árvores espalhadas por onde for.

Maringá, no Noroeste do Paraná, é igualmente uma mostra: é linda porque suas ruas são um plantio só, verde, especialmente de frondosos flamboyants, ipês e outras árvores. E suas flores.

Em Belém, as mangueiras margeiam as ruas, formam uma espécie de túneis verdes, espalham sombra, e seus frutos, especialmente as mangas coquinho, provocam reclamações nem tão doces: amassam os capôs de automóveis estacionados. E, dizem, que o cheiro intenso de mangas maduras pode ser um ingrediente importante no ar “azedo” da cidade. Pra quem quiser conferir, o cheiro e o ar molhado de Belém são inconfundíveis.

Os bairros das beiras do rio Guamá são o coração, digamos, da chamada Cidade Velha. Confesso: sou um apaixonado pelas partes geralmente mais erodidas das cidades, as centenárias, as mais desleixadas, as que reúnem a fauna humana mais diversificada, as que não escondem suas rugas históricas e as pessoas mais pobres, os bairros que, digamos, são a alma das cidades. Por eles, meu coração acaba se perdendo. Ainda mais que em uma de suas ruas encontrei o “Boteco do Nilson”. Mas, não bebi, juro.

Por aquelas bandas velhas de Belém fiquei zanzando, como fico em outros brasís, em corpo e espírito.

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