14:27Asas não foram feitas para permanecer imóveis

Foto e texto de Ricardo Marajó

Apesar de a fotografia ser minha profissão, para mim ela sempre foi muito mais do que isso.
Uso a fotografia como uma válvula de escape, um caminho que me leva a refletir sobre a vida. Afinal, a fotografia congela um instante; a crônica tenta compreender o que aquele instante tem a dizer.
Naquele dia, enquanto fotografava um grupo de pássaros pousados sobre fios de energia elétrica, dei por mim pensando…
Lá de cima, a vista deve ser boa.
O equilíbrio exige pouco esforço, a companhia afasta o silêncio e a rotina convence de que permanecer é uma forma de sabedoria. Afinal, quem está sobre o fio não enfrenta o vento.
Mas também não conhece o céu.
Naquela manhã, um dos pássaros fez algo que parecia simples: abriu as asas.
Seria o mais imprudente? Ou o mais corajoso?
Prefiro acreditar que foi o único que compreendeu que asas não foram feitas para permanecer imóveis.
Os outros ficaram.
Não porque lhes faltassem asas, mas porque lhes sobravam motivos para adiar o voo.
O medo costuma vestir roupas elegantes. Às vezes chama-se prudência. Outras vezes, responsabilidade. Em certos dias, atende pelo nome de “esperar o momento certo”.
E assim os dias passam, enquanto o fio deixa de ser um descanso e se transforma em destino para quem nasceu para o horizonte.
Quem voa corre o risco de enfrentar tempestades, de errar a direção, de voltar cansado ou até ferido.
Quem permanece sobre o fio evita todas essas dores.
Mas paga um preço silencioso: o de nunca descobrir se existia um céu esperando por ele.
Tenho certeza de que o pássaro que voa não é melhor do que os que ficaram. Apenas aceitou que a liberdade cobra um preço que a acomodação jamais precisará pagar.
A vida sempre nos oferece essas duas escolhas: a segurança do fio ou a incerteza do vento.
Os que ficam enxergam o voo como perigo.
Os que voam sabem que o fio pode ser um descanso, mas nunca um destino.
No fim, não é a altura que distingue um do outro.
É a decisão.
Porque todos nasceram com asas.
Mas apenas alguns têm coragem de assumir a responsabilidade de usá-las.

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