7:39De agenda lotada e alma lavada

por Lea Oksenberg, do Vigília Comunica

A semana da quimioterapia não avisa que vai chegar pelo calendário. Avisa pelo estômago. Baixa em mim uma fome de leão, daquelas de quem quer devorar o mundo antes de entrar na clínica. É o corpo estocando energia para o combate.
Mas o dia da sessão em si começa com um fuso horário todo próprio, inventado pela ansiedade. Acordei sobressaltada no escuro, olhei para as paredes e decretei com autoridade: “Três da manhã!”. No mais puro piloto automático, engoli os remédios daquele horário. Só depois fui checar o relógio: era meia-noite. Parabéns para mim, adiantando o inevitável por pura pressa mental.
Para melhorar o enredo de comédia pastelão, o corpo resolveu protestar com uma tremenda dor de barriga de última hora, quando já estava de saida. É o físico pagando o pato do nervosismo.
Só que eu tenho regras. Posso até ter aprendido a escrever com o escritório de ponta-cabeça, entulhado de caixas da cozinha por causa de uma reforma eterna, mas não saio de casa sem banho. O banho é fundamental, meu ritual sagrado. É debaixo da água quente que lavo os sustos da madrugada e me visto de coragem.
E ontem, ali no banho, que, me ensaboando, me achei o ser mais normal e invencível do planeta. Tomada por um otimismo crônico e delirante, saí marcando compromissos com meia Curitiba para hoje de manhã. Esqueci convenientemente o pequeno detalhe de que passaria a manhã inteira amarrada a um soro recebendo medicação. É o meu superpoder: fingir que sou uma cidadã normal e ainda com a agenda lotada. Maior mentira!
Hoje é sexta-feira. Enquanto encaro a minha cadeira na clínica — lembrando a mim mesma, como um mantra, que as sessões de quimioterapia finalmente terminam em janeiro —, um grande amigo meu encara um destino muito mais duro, visitando um lugar onde ninguém gostaria de ir.
É por ele, e por mim, que decidi manter a escrita leve hoje. Se a jornada é braba, o humor é o melhor escudo. No fim das contas, o poetinha estava coberto de razão: é melhor ser alegre que ser triste. Que a nossa sexta-feira, apesar dos pesares, seja a melhor coisa que existe.

É preciso estar atento e forte
Não temos tempo de temer a morte
(Divino, Maravilhoso – Caetano Veloso e Gilberto Gil)

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