
Belém te encharca de verde. Em boa parte de suas ruas, formam-se verdadeiros túneis com galhos de mangueiras, tão brasileiras, mas asiáticas na certidão de nascimento, ao lado de outras árvores de grande porte. Sabe uma floresta recheada de concreto, ferro, cimento, asfalto, postes, fios, esse plantio humano? Pois é.
Claro, há bairros de ruas peladas, sem as matas de galerias. Mas, por outro lado, há imensas ilhas verdes e lindas em meio à essa cidade de cerca de 2 milhões de pessoas, com mazelas de grandes urbes: trânsito alucinado e fumaça de ônibus em abundância em grande parte das avenidas, centenas de pessoas feito trapos amontoados e abandonados pelo desmazelo público em suas ruas centrais (a Avenida Presidente Vargas é um retrato dolorido desse contingente paupérrimo), periferias muito carentes como em todas as capitais do país etc. Cerca de 55% da população vive em áreas de favelas (baixadas ou palafitas), 27% estão na faixa de pobreza e nos locais onde essas pessoas habitam o saneamento básico tem índices rasos, talvez um dos piores do país etc.
Sim, como em todas as outras capitais brasileiras, há índices sociais desiguais, com parcela da população vivendo em bairros de classe média ou rica. Eles recebem a maior fatia dos investimentos públicos e privados em saneamento, pavimentação, segurança, saúde, entretenimento, comércio mais chique, essas coisas.
Mas, as deliciosas ilhas verdes em meio às contradições, disparates e desigualdades urbanas te lembram: você está em plena Amazônia, em uma cidade que já tem mais de quatro centenas de anos.
O Parque Zoobotânico do Museu Emílio Goeldi acorda nossas querenças ancestrais, a lembrar que somos indígenas em meio às mazelas de uma metrópole. Informam que seu acervo tem cerca de 20 mil itens. Árvores gigantescas, lideradas pela Samaúma, plantas nativas de todos os portes, abençoam a vida naquele que é considerado o primeiro parque zoobotânico do Brasil, com 159 anos, a mais antiga instituição científica da Amazônia e o segundo museu de história natural brasileiro.
Ele soma a mata (com antas, cutias, guarás e araras, entre outros animais que cruzam ruelas e trilhas à nossa frente, as áreas arborizadas, tranquilos; acho que já acostumados com a presença do bicho homem), um museu de história e arqueologia, um aquário com peixes e cobras da Amazônia e um lago onde vivem verdes e vistosas vitorias-régias. Deveriam se chamar reginas vitórias, como rainhas.
Neste museu de peças vivas, na área central da cidade, o coração de qualquer pessoa minimamente sensível às nossas coisas e à nossa gente para. Ou acelera. Lasque-se a modernidade, andei nu, embora vestido, pedaço passado no mato e pedaço futurista do urbano, e metade indígena.
Outro pedaço da Amazônia em plena urbe: o Mangal (ou Mangá) das Garças, criado em 2005 como área de proteção ambiental. Mangal não sei o que é, mas garça sei. Vivem às dúzias naquele pedaço de chão, junto a borboletas (O Borboletário José Márcio Ayres é o maior borboletário público do país, com milhares desses insetos e suas asas lúdicas a voar e colorir o ar), tartarugas, papagaios, pássaros de várias espécies, peixes, muitos outros animais e, claro, visitantes humanos e seus indefectíveis celulares. Inclusive esse que vos escreve. No Mangal das Garças, há também o Museu da Navegação, a nos lembrar o passado luso e indígena, bélico e/ou pacífico, uma mistura só.
Há outra floresta, o Jardim Botânico Bosque Rodrigues Alves, pelas bandas do Banpará Baenão, estádio do Remo. Não visitei esse bosque, outro orgulho ambiental de Belém, por falta de tempo. Voltarei. Os belenenses recomendam cuidados com a falta de segurança, devido a roubos, furtos, assaltos etc. que podem ocorrer dentro do bosque. Contribuí para isso, segundo alguns, até a sua extensão – 15 hectares de área verde provocando ciúmes às modernidades que o rodeiam e medo a certas coisas muito contemporâneas em quaisquer pontos de qualquer cidade brasileira.
Falando em Remo, sem a mínima pretensão de provocar os torcedores do Paysandu ou do Tuna Luso, esse é uma paixão azul. Torcedores gritam “Remo” em meio a shows artísticos, cerimônias religiosas, nas praças, aqui e ali, onde estiverem, especialmente nas arquibancadas do Banpará Baenão, seu estádio, ou do Mangueirão (aliás, seu nome oficial é Estádio Olímpico do Pará Jornalista Edgar Augusto Proença, mas não por acaso atende pelo seu apelido). Digamos, que essa coisa do azulino ou remista é um corintianismo, graças a Deus, em plena Amazônia. É uma onda azul em pleno estado de rios, mas não conferi os números de sua torcida. Ou seja, posso estar sendo injusto com torcedores do Paysandu e do Tuna Luso.