por Lea Oksenberg, no Vigília Comunica
A vida em confinamento doméstico tem regras muito próprias. A principal delas é a lei da compensação perversa do tempo: no dia em que amanhece um sol radiante — daqueles que convidam a uma caminhada despretensiosa até a esquina —, você é obrigada a ficar dentro de casa, medindo o tempo a passos lentos e sonhando com a calçada.
Aí, quando surge um compromisso inadiável de cruzar a porta de saída, o céu desaba. E chove!
Ir à rua hoje em dia virou um espetáculo de comédia pastelão. De máscara para encarar o mundo, a gente tenta resolver a vida. Vai olhar o celular e o aparelho, na sua finíssima ignorância artificial, recusa-se a nos reconhecer. “Rosto não identificado”, diz a tela. A pessoa é obrigada a passar por um teste de identidade no meio da rua, tirando a máscara na chuva, para provar ao próprio telefone que continua sendo ela mesma — ainda que em versão provisória e em manutenção.
É nesses momentos, parada na calçada molhada, tentando convencer a si mesma de que é apenas uma cidadã cumprindo sua cota diária de resiliência, que a gente entende a verdadeira dimensão da paciência. O tempo não tem pressa, as máquinas não têm empatia, e a chuva não pede licença.
No fim das contas, esse cativeiro temporário nos ensina que haverá dias de teto e dias de calçada. E que, diante da teimosia do tempo e do clima, a única resistência elegante é o bom humor.
A sorrir / Eu pretendo levar a vida / Pois chorando / Eu vi a mocidade / Perdida (O sol nascerá – Cartola e Elton Medeiros)