DIÁRIO DA PANDEMIA
(*) A síndica ao interfone. Perguntou o que era aquela mulher de plástico que apareceu na lixeira. Respondi que não sabia. Ela disse que era de minha propriedade sim, porque viu quando o delivery veio entregar a encomenda. Me lembrei que tinha dispensado Marilyn como veio ao mundo. Mas dispensei dentro da caixa, e isso me levava a crer que a síndica andou abrindo o que não devia. “Como é que a senhora sabia que tinha uma mulher dentro da caixa?” Respondeu que sabia o que havia dentro da caixa porque o marido ainda brincava com bonecas e ele tinha uma caixa igual. “O senhor podia pelo menos ter murchado essa coisa quando fosse jogar no lixo”. Me deu uma dor na alma, fui lá em baixo na lixeira e trouxe Marylin de volta. E ainda falei assim pra ela: Não fuja mais de casa, viu.
(*) Dei meu primeiro coice quando comemorava o aniversário de 15 anos. Lembro como se fosse hoje. Eu estava com alguns amigos, lá pelas tantas rolou um estranhamento entre a gente e eu dei um chute pra trás. Pegou no joelho do cara. Coisa de pouca monta. Percebi que escoicear desequilibra o esqueleto, e eu meio que quase caí. O segundo coice, no dia seguinte, esse foi mais legal. Mas ainda estava muito longe de ser comparado a um mestre no escoiceamento, vamos dizer. É mais fácil soltar o coice se estamos amparados numa parede ou em algum general, porque sair escoiceando sem uma base de apoio não é legal. Na época do meu debut de escoiceador procurei uma dessas academias de ensinam chutes, mas não me aceitaram. Um chute é um chute e um coice é um coice. Dar coice é uma coisa que você aprende sozinho, no recesso do lar, trancado no quarto, no beco com amigos. Hoje já consigo escoicear com as duas patas ao mesmo tempo. Não demora e me dão uma medalha. Sei que ainda tenho pela frente muito treinamento, mas valerão a pena. Quero estar preparado para quando me candidatar á Presidência.
(*) Houve um momento, antes que existissem indústrias poluindo os rios, que a água do mar foi usada como medicamento. Era injetada nos enfermos e a essa medicina chamavam de Thalasoterapia. Não tenho informação se alguma vez funcionou. Pelo menos, era pela veia que o medicamento entrava. Não se sabe se são reais as experiências realizadas com aplicação de água de coco também por por via venosa. Outra medicina, essa praticada até hoje meio no escondido, é conhecida por auto-hemoterapia e consiste na retirada de um pouco de sangue venoso e imediata reaplicação intramuscular. Acredita-se que melhora a imunidade. Quando a Gripe Espanhola chegou ao Brasil, ao final da Grande Guerra, os médicos não sabiam como agir diante de um inimigo até então desconhecido, mas logo perceberam que não se tratava de uma gripezinha. Medicamentos os mais variados eram indicados aos pacientes, sem êxito. Até que o Laboratório Seabra inventou a Gripina. Era a vovó da Cloroquina. Quando não sei, eu invento.
COMO DIZ O OUTRO: Quem com ferro fere, hoje é feriado de novo.