7:17Torcida

por Thea Tavares

Sou torcida, é a verdade. Dito isto, posso emitir a opinião pulsante que me cabe emitir em ambiente democrático, a fim de interagir com pensamentos discordantes e diferentes. É assim que funciona. Quem me conhece, sabe que aqui dentro bate um coração e uma consciência movidos pela paixão. No futebol, na música, nas artes em geral, na política e, depois da ascensão do “Papa Chiquinho” ao trono da Santa Sé, até na seara religiosa. De repente, me vi torcendo para que as palavras e gestos de bondade do torcedor do argentino San Lorenzo ganhassem um amplificador para chegar também dentro de muitos corações e mentes pelo mundo à fora. A imagem dele abençoando a humanidade em uma praça vazia, com aquele céu que vai escurecendo sobre uma Itália que, naquele momento, atingia a marca de mil mortes em 24 horas pelo novo coronavírus, sempre me dá a dimensão histórica exata da gravidade do que estamos enfrentando.

No último sábado, eu recebia em vários grupos de whatsapp e de diversos contatos individualmente imagens da briga entre apoiadores de Moro e de Bolsonaro em frente ao prédio da Polícia Federal, em Curitiba, onde o ex-ministro da Justiça prestava depoimento. Não contentes em brigar “em família”, esses membros de uma mesma torcida rachada também agrediram e hostilizaram jornalistas, profissionais da imprensa, que atuavam na cobertura da notícia. Não sabia o que pensar daquilo, até porque as palavras que me chegavam para tentar justificar aquele entrevero eram carregadas de conteúdo incompreensível mesmo, mas me vi foi torcendo pelo sucesso da briga em si.

Especialmente num dia em que os números do avanço da COVID-19 em Curitiba, no Paraná e no Brasil, ainda que não traga a conta da subnotificação, latejavam na minha cabeça, aquela bizarrice toda era intragável. Fechava os olhos e continuava enxergando os webcards que divulgam essas informações nas páginas da comunicação institucional da Prefeitura de Curitiba, do Governo do Estado do Paraná e do Ministério da Saúde. Queriam intoxicar o meu final de semana, mas não conseguiram. Por sorte, esse sentimento não durou muito.

Logo em seguida, a minha torcida voltou a se normalizar e a pulsar harmonicamente dentro daquilo que nos alimenta de emoção saudável, de alegrias, encantamento e de beleza. Começaram a chegar dos grupos e por postagens nas redes sociais as imagens e notícias do plantio de hortas comunitárias por acampados e assentados da reforma agrária em diversas localidades do estado, com o intuito de alimentar as famílias dessas comunidades rurais, lhes garantir renda e sobrevivência, mas também para que os alimentos colhidos dessa terra sejam doados a milhares de famintos e desempregados na periferia das grandes cidades do Paraná, nas ruas, nas comunidades indígenas e quilombolas e onde mais se puder encontrar uma barriga gritando o abandono, o descaso e escárnio da sociedade, agravados agora pela pandemia da COVID-19. Enquanto interesses menores se digladiavam no bairro Santa Cândida, os camponeses trabalhavam a terra, pensando em diminuir ali adiante um problema social grave, causado pelos flagelos da fome e da miséria.

Essa ação solidária, organizada pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST do Paraná, aconteceu no dia em que se lembrou os 20 anos da morte do trabalhador rural de Candói, Antônio Tavares, no ano 2000, quando uma marcha camponesa em direção a Curitiba foi recebida à bala pela Polícia Militar na BR-277, ali na altura de Campo Largo. Quase 200 outros sem terra saíram feridos e sequelados desse episódio. Um mosteiro ali perto acolheu os camponeses e virou uma espécie de enfermaria improvisada para cuidar das suas feridas.

O plantio das hortas comunitárias no último sábado, dia 2 de maio, repetiu uma outra ação solidária dessas famílias que vivem em comunidades de reforma agrária, que foi o que aconteceu no dia 17 de abril, quando se lembrou dos 24 anos do massacre de Eldorado de Carajás, em 1996 no Pará, episódio em que morreram 21 sem terra na estrada, enquanto marchavam a caminho da capital do estado, Belém, para reivindicar terra e trabalho. Naquele último 17 de abril, em plena pandemia, os camponeses doaram mais de 45 toneladas de alimentos para o povo pobre de cidades que são pólos regionais, para hospitais, orfanatos, asilos, moradores de rua e de comunidades tradicionais do campo. Mais de 10 mil famílias, ainda que pobres e ameaçadas também, das comunidades de reforma agrária, separaram um pouco do que colheram para distribuir a outros pobres que não conseguem sequer plantar sua própria comida.

Faz sentido mesmo jogar a semente na terra, cultivar e colher comida para sobreviver, se isso puder ainda aplacar a fome de outras gentes. Torcida cativa essa solidariedade garantiu! Precisava muito receber, de dentro do meu confinamento, aquelas imagens e informações que me ensinaram mais do que as aulas de catecismo da infância a importância daquele mandamento de amor ao próximo. Alguém lembra? Não se trata nem de generosidade o que fazem os camponeses do Paraná em memória daqueles que perderam a vida numa luta para que essas famílias de hoje pudessem plantar alimentos num pedacinho de chão. É para eles a razão de continuarem existindo.

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