6:09Calma que o leão é manso

por Lea Oksenberg, no Vigília Comunica

Dizem por aí que quem se veste de leão quer comer um. Mentira. Na maioria das vezes, a gente só coloca a juba de mentira porque está morta de medo de apanhar. É um ritual antigo. A gente ensaia a fala grossa no espelho da alma, ergue os ombros cheia de certezas e se apronta para entrar na guerra. Vai mandar a real. Vai impor o limite, fechar a porta e bancar a brava.

O problema é quando o plano funciona bem até demais.

Você solta o primeiro rugido — aquele argumento afiado, trabalhado na indignação — e espera uma disputa de gigantes. Em vez de uma batalha, porém, encontra o olhar encolhido do outro. O tiro sai pela culatra. A intenção era só não parecer vulnerável, mas o efeito foi o apavoramento de quem estava na sua frente. Nessa hora, um balde de afeto dá o primeiro nó na garganta do rei da selva. Coloca a brabeza goela abaixo, recolhe as garras. Rapidamente o leão precisa virar gatinho, passando a mão na cabeça do outro para consertar o estrago: “Calma, que o leão é manso.”

Mas a máscara não cai só por ternura. Ela cai de verdade é pelo pavor de se expor.

A gente passa tanto tempo sustentando a pose de forte que esquece o óbvio: a juba pesa. E a armadura esfarela quando a vida nos coloca diante do sentimento mais perigoso de todos — o amor. Falar que ama, abrir o peito e confessar o afeto exige uma coragem que nenhum rosnado consegue bancar. É ter de encarar a realidade quase impossível de se ver sem escudos, suspensa no ar, morrendo de medo da reação de quem ouve. Diante da possibilidade de amar, o rugido perde a voz.

Diante desse abismo, rosnar para quê? O amor não se assusta com a nossa cara feia — quem se assusta somos nós, com o tamanho do que sentimos. A valentia de fachada desmorona no exato segundo em que percebemos o risco de ficar à mercê do outro. O susto, então, muda de lado. O leão descobre que era manso não por generosidade, mas por puro receio de se machucar.

No fundo, a bravata era só um jeito maneiro de tentar disfarçar a fragilidade. E quando o afeto aperta, a gente percebe que de nada adianta mostrar os dentes para não ser ferida. Resta descer do pedestal da selva, aceitar o miado e aprender, sem vergonha nenhuma, que amar é pedir abrigo no abraço do outro.

Um leão está solto nas ruas/calamidade igual nunca vi/jamais terá problemas de alimentação/se ele encontra o meu broto por aí . (Um leão esta solto nas ruas – Rossini Pinto)

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