6:01NELSON PADRELLA

O Menino*

De volta para casa, no trem que se afastava para longe do Internato, Carlos relembra cada momento de pânico. O abraço desesperado, a boca procurando seus labios, o nojo, o horror.
Frases apaixonadas ditas para o menino, o pranto convulso do padre:”Não posso renunciar à vida” – gritava o sacerdote. E arrojava-se sobre o menino, amargurado, trespassado pela faca da paixão.
Os gritos atraíram os padres, que subjugaram Michael, e agora Carlos está salvo. Um e outro soluço ainda sacodem seu peito. Ele tem na mão o papel deixado pelo doido, na hora do embarque. Vagarosamente, rasga o bilhete de amor. A mão está cheia de confetes.
Em cada confete uma letra sangra a memória da mórbida paixão. Ele vai abrir a janela e depositar no vento aquele segredo. Antes, sorri. Depois, enquanto as letras soltas lutam para acompanhar o trem, o menino fica serio. Sabe que está sepultando uma paixão que nesse mesmo instante está fazendo um homem mergulhar no inferno.E paixões devem merecer respeito ou piedade, nunca o riso da zombaria.

* (Editado. Romance)

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