por Lea Oksenberg, no Vigília Comunica
Quando a gente se recolhe, o relógio sofre uma mutação esquisita: os dias ganham a lentidão daquele velho disco de 78 rotações quando o motor da vitrola vai cansando. A música arrasta, o tempo se torna elástico e estático ao mesmo tempo. As horas esticam até o infinito, mas o calendário parece não sair do lugar.
Nesse compasso, a vida ganha um novo caminhar. O café, que antes era engolido quente e com pressa, agora é tomado devagar, morno, quase como um ritual. A reclusão é silenciosa, mas o mundo lá fora, barulhento e veloz, insiste em bater à porta. E é aí que começa a ginástica mais delicada de todas.
O WhatsApp apita. Do outro lado da tela, um superamigo, cheio de boas intenções e completamente alheio ao nosso recolhimento, pede companhia para um compromisso. A gente respira fundo e inventa uma desculpa suave. É um cansaço imenso ter que dar um boletim médico detalhado a cada convite, explicar o inexplicável, expor o que preferíamos guardar no escuro.
Por outro lado, há o silêncio mais dolorido, daqueles que sacam a gente por inteiro. A amiga de décadas que vai fazer aniversário e, com uma delicadeza comovente, sequer nos deixa saber da festa. Ela não faz isso por desfeita, mas por um imenso carinho: para nos poupar do constrangimento de dizer “não” mais uma vez, ou de ter que recusar porque não queremos vestir as máscaras — sociais ou físicas — que o mundo exige para que possamos circular. O não-convite, às vezes, é a maior prova de afeto que existe.
Mas o recolhimento também tem seus limites de tolerância. No início, a nossa pausa é vista com poesia; há colo, chá e paciência. Porém, com o passar das estações, parece que um cronômetro invisível começa a apitar na mão de quem está ao nosso redor. Surge, então, a cobrança sutil — ou nem tão sutil assim. Exige-se um prazo de validade para a nossa ausência.
Quem está perto passa a bater o pé na porta, estipulando datas para que a gente se resolva, como se a saúde e o restabelecimento de tudo o que está rolando fossem um contrato com prazo de entrega, e não um caminho sinuoso e, muitas vezes, desconhecido. Querem que a gente dê um jeito na nossa existência como quem organiza uma gaveta. Esquecem que há gavetas profundas demais, que exigem muito tempo para serem reorganizadas.
Há quem olhe para o nosso silêncio com uma pressa e certa impaciência de ver a gente de pé, e há quem pareça quase confortável em nos ver quietinhas no canto, como se fôssemos uma pintura estática na parede que não vai incomodar ninguém.
Mas quem pensa que o repouso do corpo é o fim da linha comete um erro crasso. O retiro pode ser necessário, a cama pode ser um território temporário, mas a cabeça segue em alta velocidade. Tenho a escrita, esse diálogo silencioso, estimulada por alguns amigos. Posso, sim, estar em repouso, mas a minha voz continua solta por aí, correndo o mundo de mão em mão, sem precisar de máscara e sem pedir licença a cronômetro nenhum.
O que usaremos pra isso / Fica guardado em sigilo / Tempo, tempo, tempo, tempo /Apenas contigo e migo / Tempo, tempo, tempo, tempo (Oração ao Tempo – Caetano Veloso)