de Carlos Castelo
§ Li uma nota de jornal sobre mais um episódio de racismo em um estádio argentino. A notícia era curta, dessas que parecem repetir a edição da semana passada: insultos, indignação, notas oficiais, promessas de punição. Muda o nome do jogador. Muda o estádio. As palavras, não.
Dobrei o jornal e fui tomar café. Quando voltei, os insultos continuavam ali, impressos na página. Não como tinta. Como insetos.
Eram pequenos, escuros, barulhentos. Saíam das manchetes, atravessavam a mesa e procuravam um lugar para se esconder. Alguns entravam na fruteira. Outros se enfiavam entre os livros. Os mais atrevidos ocupavam o sofá, como se fossem donos da casa.Chamei uma dedetizadora.
O rapaz examinou um deles com uma pinça e balançou a cabeça.
— Não adianta veneno. Eles se alimentam de minimizar.
Descobri então que bastava alguém rir, relativizar ou dizer “isso faz parte da rivalidade” para que os bichos engordassem. Cresciam depressa. Em poucos dias já derrubavam quadros, arranhavam paredes e ocupavam apartamentos inteiros.
Um vizinho sugeriu ignorá-los.
Outro afirmou que sempre existiram.
Um terceiro garantiu que eram apenas folclore das arquibancadas.
Os insetos agradeceram. Reproduziram-se com entusiasmo.
Na semana seguinte, a mesma notícia voltou ao jornal. Só havia uma diferença: a fotografia do estádio parecia bem menor. Demorei alguns segundos para perceber o motivo.
Não era o estádio que encolhia.