por Joel Pinheiro da Fonseca, na FSP
Renan Santos e Caiado até agora não romperam a barreira dos 3%. Há o precedente de Ciro Gomes em 2018, que trombou no muro do petismo
Renan Santos e Ronaldo Caiado, embora tenham escolhido vices de seus próprios partidos, representam estratégias de campanha opostas. Caiado e Kassab apostam na política institucional. São, afinal, dois nomes consumados do jogo político tradicional. O PSD tem mais de mil prefeituras, palanques espalhados pelo país que servirão para ecoar a candidatura de Caiado. Suas falas têm poupado Flávio. Quando e se ele derreter, a escolha mais segura estará dada.
Já Renan e seu vice Aroldo Medina são a aposta antissistema. Ecoando Bukele e Milei, com campanha inteiramente focada nas redes sociais e uma militância altamente engajada, quer fazer barulho para ser ouvido. Não poupa ninguém, inclusive Flávio, e acredita que a postura agressiva nos debates pode lhe alçar para além das redes.
Qual dos dois irá decolar? Se eu tivesse que escolher apenas uma das estratégias, ficaria com a de Renan. Mas a verdade é que, até agora, nenhum deles rompeu sequer a barreira dos 3%. Se ao menos um candidato passar a barreira dos dois dígitos, dadas as reiteradas fragilidades que vêm se revelando de Flávio, haverá uma ponta de esperança na renovação da direita nacional. Os prognósticos, no entanto, não empolgam. Mesmo fazendo tudo certo, nada garante o sucesso.
Há um precedente: Ciro Gomes em 2018. Lula estava preso e inelegível, e por isso ungiu Haddad, que não tinha os mesmos dotes retóricos de Lula nem era conhecido por todo o Brasil. Havia, em tese, espaço para que um candidato de esquerda furasse o domínio lulista. Eis que Ciro Gomes se apresentou.
A campanha de Ciro em 2018 foi bem-feita. Tinha mensagem clara —perdão das dívidas da população—, era muito hábil na comunicação e no uso das redes. Engajou muita gente. Seu desempenho foi surpreendente —12,5%—, muito à frente de outros candidatos menores (Alckmin, Amoêdo, Marina, etc.); mas muito atrás de Haddad, que teve 30% dos votos. Mesmo fazendo tudo certo, Ciro trombou no muro do petismo.
Um paralelo passado não sela o destino de ninguém. Flávio tem revelado muito mais fragilidades do que Haddad tinha em 2018 —a começar pela proximidade com o grande escândalo do momento, o Banco Master. Ainda não se viu, ademais, qualquer evidência de que consiga falar mais de uma linha sobre qualquer assunto.
Se fosse por seu próprio brilho e méritos, Flávio jamais seria um candidato nacional competitivo. Contudo, ele não está lá por méritos. Sua força vem da unção do pai, cujo movimento agora lhe sustenta. Um teste foi o rompimento público com Michelle Bolsonaro. Ela saiu mais machucada do que ele. A fidelidade da maioria à escolha de Jair se impôs. A ausência dela na campanha de Flávio pode bem lhe custar a eleição (aquelas frações de pontos percentuais que podem definir o segundo turno), mas nada indica que lhe enfraquecerá perante outros nomes da direita.
Sendo nulo, Flávio pode ser carregado pelo bolsonarismo até o segundo turno. Para que isso não ocorra, ele terá de ser agressivamente negativo, um desastre ambulante que arruína tudo o que toca. A sequência de tropeços nas cartas a Trump dá alguma esperança nessa direção. Eu só não apostaria nisso ainda.