Por Lea Oksenberg, no Vigília Comunica
O domingo na casa daquela família de classe média alta tinha tudo para ser perfeito. O almoço, desses que demoram para sair, corria entre conversas e risadas na fartura de sempre. Mas, nos bastidores, a realidade era outra. Desde a madrugada, a mãe cuidava sozinha da bebê. Uma gravidez que não foi planejada nem desejada por nenhum dos dois, mas a mãe entendeu o óbvio: já que a criança veio ao mundo, agora é preciso cuidar, dar amor e assumir o rojão.
O clima azedou de vez na hora da sobremesa. A menina sujou a fralda. A mãe, exausta, segurando a fralda limpa em uma mão e o lenço umedecido na outra, olhou para o marido e pediu para ele trocar a filha, para que ela pudesse pelo menos terminar de comer o seu doce.
A resposta dele veio com um “não” seco, cheio de descaso. Para aquele homem, com suas ideias ultra conservadoras, o pedido parecia um absurdo vindo de outro planeta. Em vez de ajudar, ele ainda tentou empurrar a sujeira para uma tia que estava na mesa. A mãe ficou ali, estática, com a fralda e o lenço na mão, no meio da sala. O almoço congelou. Um silêncio pesado tomou conta de tudo, os talheres pararam e o mal-estar pegou todo mundo. No fim das contas, sobrou para a mãe largar o doce e ir limpar a filha.
É nesse “não” orgulhoso, dito no conforto de uma sala de jantar finíssima, que a gente entende a cabeça de quem quer proibir o aborto no Brasil a qualquer custo — mesmo quando a mulher ou uma menina são vítimas de estupro.
O pensamento é o mesmo: há uma pressa enorme em defender que a criança nasça, mas um desinteresse total pela vida dela depois que ela chega. O homem e a lei batem no peito pra falar de moralidade, mas, no minuto seguinte ao parto, dão as costas e deixam o peso inteiro nos braços da mãe. O homem se acha no direito de escolher se quer participar; a mulher é obrigada a se sacrificar sozinha.
Naquela casa abastada, o dinheiro disfarça a hipocrisia. A menina pode não ter o amor desse pai, mas vai ter tudo do bom e do melhor: escola cara, médico top de linha e conforto para camuflar a falta de afeto.
Mas a realidade do seu João e da dona Maria é outra. Se essa lei que proíbe o aborto passa, a mulher rica viaja, paga uma clínica segura ou contrata babás para aguentar o tranco. Mas e a mulher pobre, que foi violentada, que não tem o dinheiro da passagem e muito menos como sustentar um filho? Ela é obrigada a parir pela lei, abandonada pelo homem e esquecida pelo mundo no dia seguinte.
A fralda e o lenço umedecido continuam no ar. E a conta dessa moralidade de fachada sempre sobra para o lado mais fraco limpar.
Vem logo, vem curar teu negro/ Que chegou de um porre e quer morrer de amor/ Fazer as pazes, ver que preto e branco/De mãos dadas mudam de cor (Disritmia – Martinho da Vila)