10:26O ESPELHO PERFEITO

de Greg Mariano

A casa era perfeita.
Não no sentido banal da palavra, mas de um modo quase clínico. O chão polido refletia as janelas milimetricamente lavadas, os móveis repousavam em alinhamento geométrico — o sofá paralelo ao tapete, o tapete perpendicular à mesa de centro, a mesa de centro alinhada à simetria do lustre. Era uma harmonia imposta à força, como se qualquer desvio fosse um tipo de afronta pessoal.
Para ele, aquilo não era apenas estética. Era proteção.
A ordem o blindava. Contra o mundo lá fora, sim, mas também contra algo mais íntimo, mais profundo: o ruído constante de pensamentos que ameaçavam a superfície do silêncio. Desde sempre, o caos lhe causava náusea. A sensação de algo fora do lugar podia lhe roubar o ar, como se estivesse preso sob o peso invisível de uma marreta. O menor desalinho — uma cadeira ligeiramente torta, uma dobra na cortina — e ele se via engolido por uma urgência insuportável de corrigir. Corrigir tudo. Corrigir a si mesmo.
Foi nessa lógica que o espelho entrou em sua vida.
Um presente da mãe, anos atrás. Um espelho de moldura discreta, fria, pendurado inicialmente no corredor, depois movido para a sala. Ele não sabia explicar por que, mas se sentia observado por ele. Não ameaçado — não ainda — mas… observado. Como se o espelho não refletisse apenas sua imagem, mas também suas falhas, suas imperfeições mais íntimas.
Aos poucos, sem perceber, passou a consultá-lo com frequência. Um olhar rápido ao passar. Depois mais demorado. Depois constante. O espelho se tornou um juiz silencioso, um altar onde ele podia se examinar, se testar, se punir.
E naquele dia, quando passou por ele novamente, algo havia mudado.
O reflexo devolveu-lhe um olhar que não reconheceu. Não era hostil, tampouco estranho, mas… imperfeito. Havia algo errado na simetria de sua expressão, na forma como o maxilar parecia ligeiramente desalinhado, ou talvez no ângulo da luz que tocava seu rosto. Ele tentou ajustar o cabelo. Recompôs a gola da camisa. Voltou-se de lado. De outro. Franziu a testa.
Nada adiantava.
Voltou para o banheiro e lavou o rosto. Esfregou as mãos com sabão, como fazia sempre. Uma, duas, cinco, doze vezes. A cada movimento, um pouco mais de força. O sabão ardia nos cortes antigos — feridas abertas de dias anteriores — mas ele não podia parar.
A espuma agora era rosa, depois vermelha. Pequenos fiapos de pele desprendiam-se dos dedos. Ele sentia a carne viva arder, mas a água precisava levar embora algo. Algo que ele não conseguia nomear, mas que o contaminava por dentro.
Voltou para a sala. O espelho ainda lá.
O reflexo agora era pior. Os olhos fundos, a pele esbranquiçada. Havia algo de doente naquela imagem. Começou a perceber detalhes em si que jamais notara: uma mancha mínima no canto da boca, um dente que parecia ligeiramente fora do lugar, um vinco assimétrico sob a sobrancelha direita.
“Eu preciso corrigir.”
Voltou ao banheiro. Abriu a gaveta. Pinças. Lâminas. Fita. Desinfetante.
Nada era o bastante.
As unhas estavam sendo arrancadas, uma a uma. Lentamente.
Com cada gesto, ele murmurava: “Agora sim. Agora sim.”
Os dias passaram — ou talvez horas? Ele havia perdido a noção.
A casa, antes um templo de perfeição, agora era um campo de batalha. O chão antes brilhante estava coberto por panos ensanguentados, lenços usados, pedaços de unhas, fios de cabelo arrancados. Os móveis estavam revirados, alguns quebrados. O espelho, milagrosamente intacto, reinava no centro da sala como uma divindade de vidro.
Ele já não comia. Apenas limpava.
Limpava o sangue. Limpava o chão. Limpava a si mesmo.
Horas esfregando as mãos, que já eram apenas carne exposta, as juntas abertas, os dedos grossos de pus.
A dor já não importava. Era só mais um lembrete de que estava vivo — e isso era o problema.
Ele tentou explicar.
Falou com vizinhos, com entregadores, com vozes que talvez nem existissem.
Dizia que o espelho estava tentando lhe mostrar a verdade. Que ali havia algo que ninguém mais via.
Eles não entendiam. Ouviam, sorriam, e se afastavam, como se ele fosse transparente.
Alguns nem olhavam nos seus olhos. Talvez porque seus olhos agora estivessem inchados, vermelhos, abertos demais, como se tentassem ver tudo ao mesmo tempo.
Ele parou de sair.
Fechou as cortinas.
A luz artificial criava sombras estranhas na sala.
As sombras o tranquilizavam. Faziam sentido.
Ao contrário do rosto no espelho, que ainda parecia torto.
Naquela noite — se é que ainda havia noites — ele acordou do chão. Não sabia mais por que estava ali.
O gosto de ferro na boca. O som de algo gotejando. Um zumbido constante no ouvido.
Levantou-se cambaleante, os pés deixando rastros carmesins pelas tábuas.
E então, viu o espelho.
Pela primeira vez, ele sorriu.
O reflexo sangrava.
Tinha cortes nos mesmos lugares. Os olhos estavam dilatados, o rosto inchado, desfigurado.
Mas estava… certo. Finalmente simétrico.
A mandíbula estava alinhada. O rosto estava imóvel. Os olhos, mortos.
Era a perfeição. A verdadeira. A que só se alcança com sacrifício.
Ele caiu de joelhos, rindo com a garganta cheia de catarro e sangue.
A casa ao redor era ruína — não havia mais ordem, não havia mais móveis inteiros. O chão era um tapete de fluidos secos, trapos, pedaços de espelhos partidos. A cozinha parecia uma cena de crime.
Mas ele… ele estava em paz.
O corpo mutilado.
A carne viva exposta como um altar.
Os olhos fixos naquele reflexo deformado e glorioso.
“Agora sim,” ele sussurrou.
“Agora está perfeito.”
E no centro da casa destruída, envolto por sangue, dor e delírio, ele finalmente se deitou.
Sorriu.
E não se levantou mais.

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