por Fernando Muniz
A Morte, intrigada com o que tem acontecido entre os homens, coloca sua roupa de gala e visita o país do Destruidor, devastado após meses de pragas, furacões e lobos cinzentos no poder.
Recebida com reverência, participa de uma inspeção das medidas tomadas pelo governo contra a subversão. Cães e porcos que, há pouco, trucidaram os lobos em um golpe insuflado pelo Destruidor, acompanham a comitiva.
“Quem volta do exterior fica um mês em hotéis requisitados em nome do esforço nacional de guerra”. Pocilgas imundas, sem água ou comida, onde retirantes em farrapos se amontoam, suspeitos de trazerem doenças do exterior. Quem não tinha acaba contaminado; quem as desenvolve é morto pelos companheiros. Quem tenta fugir é estraçalhado por rottweilers.
O Destruidor, orgulhoso dos seus feitos, desafia a visitante a mostrar coisa igual em qualquer outro lugar. Mas ela, tão velha, não se impressiona com jogos infantis, ainda mais quando envolvem cifras, gráficos e números.
“Nossa prioridade é lidar as ameaças à segurança nacional enfrentando o inimigo casa a casa”, diz o porco responsável pela visita, explicando a Nova Ordem Nacional. Cães penduram o slogan “Doença É Crime” nas portas dos suspeitos de abrigarem parentes que voltaram ao país sem autorização, ou de tratarem seus doentes em hospitais clandestinos, ou de receberem remédios sem declará-los ao governo. O slogan, em vermelho vivo, atiça a vizinhança a invadir, expulsar, enforcar e destruir. Justiça do povo, cantada em hinos patrióticos nos corredores de palácios e quartéis. Guerra é guerra, inimigo é inimigo e a humanidade não merece alento.
O Destruidor não poderia estar mais feliz, certo de que está neste mundo para atingir grandes feitos. Graças à engenhosidade dos seus novos aliados, em poucos dias poderá alçar voos com asas de cera para além das nuvens, onde os raios do sol batem mais forte. Ele mal consegue esperar por esse dia – nem seus aliados.
Porém as pessoas, indiferentes ao extermínio, seguem funerais, contrabandeiam remédios e fuçam as ruínas sem se preocupar com o que o governo faz ou diz. Trapos velhos ou restos de comida valem mais.
A visitante, imponente em seus trajes, sente uma lufada de vento e percebe que o Destruidor a venceu. O cálculo frio da mercancia de padeiros, mascates e donas de casa permite a vida seguir; isso é o que importa no momento. O amanhã é incerto e, afinal, morrer todo mundo vai.
Após as providências de praxe, a Morte retorna aos seus domínios.
Ignorada.