de Carlos Castelo
Fui ao cinema assistir A Odisseia, de Christopher Nolan, porque sempre desconfiei de qualquer diretor capaz de transformar a guerra de Troia em Identidade Bourne.
Entrei para decifrar o filme. Saí com a impressão de que ele havia me decifrado e não gostara do resultado. Na fila encontrei um sujeito que afirmava ter lido Homero no original. Achei admirável. Eu também já li um cardápio em grego e, desde então, admiro qualquer língua que faça uma salada de queijo de cabra custar o mesmo que caviar russo.
Atrás dele havia um casal discutindo se Nolan produz filmes difíceis ou espectadores inseguros. Concordei com os dois. Pena que covardia não paga meia-entrada.
A sessão começou e o silêncio era tão solene que temi estar numa aula de meditação tibetana com a monja Cohen. O homem ao meu lado anotava observações num bloquinho. Imaginei que fosse crítico de cinema, mas talvez estivesse apenas registrando os momentos em que fingia compreender a trama. É um hobby válido. Eu mesmo finjo entender meus parentes.
Quando as luzes se acenderam, todos saíram com expressão meditabunda, como se tivessem atravessado o Mediterrâneo, a nado, e voltado com a obrigação moral de dizer que o filme era extraordinário. Eu também caminhei lentamente; não por reflexão, mas porque minha bexiga estava a ponto de explodir após três horas de projeção.
Se a verdadeira odisseia era chegar ao fim do longa-metragem acreditando que havia entendido tudo, posso anunciar: fracassei de maneira épica.