6:53NELSON PADRELLA

DIÁRIO DA PANDEMIA

(*) Banho e tosa. É só isso que tenho a dizer. Vi o anúncio oferecendo banho e tosa a preço de liquidação. Me interessei. Para saber mais detalhes liguei pra moça que me daria o banho. Ela perguntou se era só banho ou iria aproveitar a tosa grátis. Tudo o que é de graça fala minha língua. Eu disse não, não, não, sim vou querer a tosa. “E cadê o bicho?” Taqui – quase que eu disse. Mas, falei assim: “O bicho tá no lugar de sempre, um pouco afoito face à promessa”. Ela fez ouvidos de mercador. Perguntou se eu podia estar lá em determinado horário. Perguntei se não atendiam em casa, tipo delivery. Disse que não e eu respondi que lá eu não poderia ir. Fiquei em casa, tomei banho e fiz minha tosa sozinho.

(*) Foi, afinal, realizado o teste catarinense de combate à pandemia. O Grupo I recebeu a dose via forevis, como estava combinado entre o médico e as cobaias. O Grupo II recebeu um produto inócuo, tipo nem tanto ao mar nem tanto à terra. E teve mais um grupo, o III, que recebeu os agradecimentos do médico e a licença de retornarem às suas casas. Na realidade, a única diferença entre o Grupo I e o Grupo II estava na largura entre o tubo que levaria o medicamento ou produto inócuo às vias de fato. O resultado ainda não é sabido, mas dizem que os cobaios ostentavam sorrisos de orelha a orelha. Certamente de esperança.

(*) As lembranças vêm de mansinho como fantasmas tímidos, pedindo licença para entrar. Volto para aquele dia, aquele almoço numa rua de Veneza, cerca à gare. Teresa e eu pedimos talharim ao molho de vôngoli e veio vôngoli com pardais. Os pardais, intrusos e deseducados, andavam sobre a mesa pedindo nossa comida. Vê lá se eu ia dar minhas deliciosas comidinhas para esses marrecos voadores. Dava migalhas de pão praticamente em suas bocas, e isso nos divertia, até que o garção nos pediu que não alimentarmos  os pássaros. Fizemos sim com a cabeça, mas íamos distribuindo migalhas pelo chão, que os afoitos visitantes furtavam e esqueciam-se de agradecer. O garção, de longe, fazia cara feia, mas não tínhamos mais pardais à mesa, e alimentá-los no chão o cara não podia proibir. Essa lembrança boa, envolvendo pássaros, vôngoli e Teresa não me deixa triste. Soubemos ser felizes no tempo que nos foi dada a oportunidade de ser feliz. Se estivéssemos vivos hoje, não seríamos tão felizes.

PALAVRAS QUE JÁ SERVIRAM PARA DEFINIR O BRASIL: Pujança. Honra. Respeito. Carmem Miranda.

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