16:33JORNAL DO CÍNICO

Do Filósofo do Centro Cínico

O Coritiba não quer alugar o estádio Couto Pereira para o jogo do Atlético contra o Santos pelas quartas-de-final da Taça Libertadores porque não é capitalista e, além disso, tem compromisso assumido para uma partida do campeonato da Suburbana na mesma data.

15:53Para se explicar

Do Goela de Ouro

Alguns funcionários que aplaudiram ontem os vereadores da oposição que foram se encontrar com o prefeito Rafael Greca para tratar do pacote de ajuste fiscal foram chamados para explicar a atitude. Os parlamentares já foram avisados.

 

 

15:12Cataflam

Um com memória lembrou que durante a campanha para a prefeitura de Curitiba, o então candidato Rafael Greca disse que, por causa das dores causadas com os buracos nas calçadas da cidade, precisava tomar doses de Cataflam. Ele deve ter renovado o estoque com trombadas de agora com os sindicalistas do serviço público municipal.

15:10No gabinete dela

Na segunda-feira passada aconteceu um encontro entre o secretário Ratinho Junior, o ministro da Saúde Ricardo Barros e a vice-governadora Cida Borghetti – no gabinete dela. A conversa foi republicana, como virou moda dizer agora. Pode ser tudo. Pode ser nada.

10:48A razão

O mundo só pode ser dos que têm razão. Mas a razão é todo um maravilhoso esforço, toda uma dilacerada paciência, toda uma santidade conquistada, toda uma desesperada lucidez. Não era bem assim que eu queria dizer. Mas faltam-me palavras. (Nelson  Rodrigues)

8:37PENSANDO BEM…

ROGÉRIO DISTÉFANO

Falta uma

Araquém Alcântara, 65, é o que se chama ‘fotógrafo da natureza’. Sua especialidade, as onças brasileiras, apanhadas no hábitat, em ação. Fotos lindas, estão no Uol. Alguém precisa avisar Araquém que seu álbum está incompleto, pois falta a mais irada de todas as onças brasileiras: Rafael Valdomiro Greca de Macedo.

Renuncie, então

O príncipe Harry, neto da rainha, filho e irmão dos futuros reis da Inglaterra, diz que na família Windsor ninguém tem vontade de ser rei ou rainha. Então podia sugerir aos desinteressados que desistissem dos títulos, dos palácios, dos serviços e das pensões do Estado. O moço parece político brasileiro, para quem o mandato é um peso que justifica as mordomias. Duvido que se não fosse príncipe estaria namorando Megan Markle, a estrela da série Suits.

Aqui, não

O ministro Gilmar Mendes está à beira do ataque de nervos. Ontem teve um piti na sessão do STF em que se decidiu manter Édson Fachin relator do caso JBS: Gilmar discutiu com o colega Luís Roberto Barroso, levantou-se e foi ao gabinete, retornando após o intervalo. Discordar fora dos autos, em entrevistas, é fácil. Lá dentro é que são elas.

Amadores

A delegacia de furtos e roubos de cargas bateu na churrascaria do Pinheirinho e prendeu a quadrilha – na realidade uma tredrilha, pois eram três elementos – que roubou e distribuiu quatro toneladas de carnes. É o mau exemplo da Friboi, desta vez com amadores.

Defina, por favor.

Lula declara que irá “às últimas consequências” para provar sua inocência nos processos da Lava Jato. É a segunda vez na semana que a expressão surge por aqui, a primeira pelo deputado Ney Leprevost. Será que esse povo alcança o ponto a que podem chegar nas “últimas consequências”? Não, claro que não, é apenas o gosto brasileiro pelo bombástico.

Tiro ao Álvaro

Nessa quadra triste e trágica da política brasileira, instalada no fervo brasiliense, eu me volto ao centro geográfico do país e pergunto, “cadê Álvaro Dias”? Ele, sabem, o senador que a gente esqueceu de quantas vezes elegeu, ele, que em tempos amenos adora dar pitacos sobre o que acontece em Brasília. Qual o quê, nessas horas o senador é que nem cachorro em dia de tormenta: corre para se esconder debaixo da casa. Não é defeito, também corro. Mas também não fui eleito para ser valente. Álvaro, sim.

Os mineiros, aquele pessoal da Andrea Neves, dizem que o esperto acaba comido pela própria esperteza. Não é o caso de Álvaro, que só finge ser esperto. Ele não é esperto, é prudente, quem o conhece sabe disso. Mas o resultado acaba o mesmo: Álvaro ainda será comido pela prudência. Logo ele, bacharel em História, pós-graduada em impostação vocal. Faltou as aulas sobre a Revolução Francesa, no ponto sobre Jean-Paul Marat, que fez da audácia sua filosofia de ação política. É isso, Álvaro não tem audácia.

8:02Ameaça

Ontem, na reunião com o prefeito Rafael Greca, um dos vereadores da oposição espantou a maioria presente ao afirmar: “Se não retirarem e votarem o projeto teremos uma guerra sangrenta”. O pior é que uma dupla de parlamentares concordou e reforçou a ameaça desmiolada.

7:42Hay que…

Depois do que aconteceu ontem na sede da prefeitura de Curitiba, com a trombada entre Rafael Greca e os vereadores da oposição, não é de se duvidar que o prefeito vá até a curva do vento para adotar aquela famosa frase que soa como mantra para a turma da esquerda: “Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás”.

7:35Uma canção para os pacotes

Ainda não apareceu na província um artista capaz de compor a versão moderna da famosa canção interpretada por Isaurinha Garcia no tempo em que o Amigo da Onça fazia sucesso. “De conversa em conversa”, de Haroldo Barbosa, poderia se transformar em “De pacote em pacote”, porque arrumar um jeito de brigar é que não falta.

7:17Vexame internacional

por Bernardo Mello Franco

A viagem de Michel Temer à Europa produziu um vexame internacional. Enquanto o presidente passeava em Oslo, o governo da Noruega anunciou que cortará pela metade a ajuda ao Fundo Amazônia. O motivo é o fracasso do Brasil no combate ao desmatamento.

A devastação da floresta avançou 29% na última medição anual, divulgada em novembro. O país perdeu 7.989 quilômetros quadrados de mata tropical, o equivalente a sete vezes a área da cidade do Rio de Janeiro. Foi o pior resultado em oito anos.

A Noruega é a maior patrocinadora do Fundo Amazônia. Já doou R$ 2,8 bilhões para o Brasil proteger as árvores e reduzir a emissão de carbono. Isso equivale a 97% dos recursos do fundo, que também recebeu aportes da Alemanha e da Petrobras.

Às vésperas da chegada de Temer, os noruegueses repreenderam o governo brasileiro pelo desmantelamento da política ambiental. O ministro Vidar Helgesen criticou a aprovação de medidas provisórias que reduzem unidades de conservação.

A pressão internacional convenceu o presidente a vetar as MPs. No entanto, o governo prometeu aos ruralistas que vai enviar ao Congresso um projeto de lei com o mesmo teor.

Após o anúncio desta quinta, o Fundo Amazônia deve perder ao menos R$ 166 milhões em doações. “É uma decisão humilhante para os brasileiros. O país pediu dinheiro para reduzir o desmatamento, mas o que está acontecendo é o contrário”, me disse Jaime Gesisky, da WWF.

O secretário-executivo do Observatório do Clima, Carlos Rittl, avalia que o retrocesso ainda pode se agravar. “A aliança de Temer com a bancada ruralista está saindo muito caro. O meio ambiente virou moeda de troca na negociação para barrar o impeachment”, afirmou.

Em Oslo, onde desfilou com uma reluzente gravata verde, o ministro Sarney Filho foi questionado se o Brasil vai reduzir o desmatamento. Sua resposta foi outro vexame: “Só Deus pode garantir isso”.

*Publicado na Folha de S.Paulo

7:09Revolução de Outubro, 100 anos

Por Ivan Schmidt 

O historiador marxista Isaac Deutscher, um dos mais importantes do século 20, escreveu uma trilogia sobre a vida política do revolucionário Leon Trotski (O profeta armado, O profeta desarmado e O profeta banido), publicada no Brasil nos anos 80 pela Editora Civilização Brasileira (RJ), dos irmãos Enio e Breno da Silveira, a meu juízo até hoje insuperável no descortino editorial e rigorosa seleção do acervo posto ao alcance do leitor.

Deutscher descreveu o panorama da Revolução de Outubro dos anos 20 até a chamada desestalinização do regime do qual se apropriara, com mão de ferro, o georgiano Josef Stalin, desde a morte de Vladimir Lenin.

O responsável pelas primeiras denúncias à ação vingativa e policialesca de Stalin foi o então secretário geral Nikita Kruschev, no discurso pronunciado durante o XX Congresso do PC-URSS, no final dos anos 50, propiciando por outro lado o regurgitar de referências históricas ao papel de Trotski na revolução, “pela primeira vez em três décadas”, segundo o autor de O profeta desarmado (1921-1929), aqui lançado em 1984, com a tradução de Waltensir Dutra.

“Quando o ídolo Stalin estava sendo derrubado e a falsificação stalinista da história estava sendo oficial e enfaticamente denunciada, a sombra do principal adversário dele despertou inevitavelmente um interesse novo e interno, embora surpreso”, afirmou Deutscher, ao acrescentar que “os jovens historiadores, para quem os arquivos – até então trancados à chave – foram subitamente abertos, procuraram avidamente uma resposta nos registros pouco conhecidos do bolchevismo”.

As palavras de Kruschev tiveram efeito devastador no ambiente político soviético, em especial ao assegurar que Stalin destruíra todos os críticos dentro do partido “por meio de acusações falsas e monstruosas”, levando os historiadores a esperar naturalmente “uma reabilitação explícita das vítimas dos Grandes Expurgos”.

Contudo, no final de 1956 e início de 1957, devido à intensa agitação ideológica causada pela invasão da Hungria, o historiador lembrou que “Moscou determinou um alto na reconstituição da verdade histórica”, apressando-se o partido a editar novo compêndio oficial sobre a história da revolução, “que procura repetir, embora numa visão revista e um pouco amenizada, o anátema sobre Trotski”, ressaltando, entretanto, movido pelo instinto de correto historiador que “nas publicações soviéticas, o volume de artigos destinados a difamar Trotski sub-repticiamente cresceu muito mais do que nas últimas décadas, aproximadamente, da era stalinista”.

Sem esconder sua profunda admiração pelos feitos de Leon Trotski, na condição de investigativo biógrafo, Isaac Deutscher não teme declarar que “não acredito, e jamais acreditei que a memória de Trotski tenha qualquer necessidade de reabilitação pelos governantes ou líderes do partido. (Creio, antes, que são eles os que devem trabalhar, se puderem, para conseguir sua própria absolvição!)”.

A formação da União Soviética teve início em 1921, período imediatamente posterior à guerra civil, “com Trotski no auge do poder” e termina em 1929 quando o outrora aclamado como um dos líderes mais autênticos da revolução, depois de passar um ano banido nos confins da Sibéria, está na rota de Constantinopla, uma das capitais da Turquia, onde passaria a primeira fase do exílio.

Durante esse tempo, o Partido Bolchevista, depois da morte de Lenin, viveu a mais acesa e momentosa controvérsia política da era moderna, “inseguro de suas políticas e tateando por uma direção, colhido em extraordinárias tensões sociais e políticas e na lógica do sistema monopartidário, e sucumbindo à autocracia de Stalin”.

Nesse caldo fervente e destruidor, Trotski está no centro da luta “como principal adversário de Stalin, o único candidato alternativo à liderança bolchevique, o defensor ‘prematuro’ da industrialização e da economia planificada, o crítico do socialismo num único país e o campeão da ‘democracia proletária’”.

Não foi uma época de vacas gordas para o chefe revolucionário, acusado diuturnamente por Stalin e a camarilha que obedecia suas ordens cegamente, sem que a população sequer percebesse o que se passava nos bastidores: “A grande maioria do partido assemelhava-se a uma massa gelatinosa: consistia de membros humildes e obedientes, sem inteligência e vontade próprias. Há mais de quatro anos Lenin havia declarado que o partido virtualmente nada representava como órgão elaborador de políticas e que apenas a velha guarda, aquela “pequena camada que não tinha mais de alguns milhares de membros, era o repositório das tradições e princípios bolcheviques”.

A oposição a Stalin provinha dos grupos fieis a Trotski, Zinoviev e uns poucos mais, que na qualidade de revolucionários profissionais de épocas anteriores, eram em grande parte “homens e mulheres que tinham opiniões firmes sobre os grandes problemas e enfrentavam graves riscos pessoais. Muitos se haviam destacado entre os quadros bolchevistas, nas épocas mais críticas e tiveram muitos laços políticos com a classe operária”.

Isaac Deutscher levantou uma dúvida sobre as facções dominantes, questionando a versão de que estas eram mais fortes, inclusive numericamente, alegando que então os bukarinistas pareciam ser mais populares que os stalinistas, embora dois anos depois fossem derrotados muito mais facilmente que a Oposição Unida. O poder ditatorial de Stalin residia não no tamanho do rol de seguidores, “mas no domínio completo que seu líder tinha da máquina partidária e que lhe permitia valer-se dos recursos do partido, violar eleições, manufaturar maiorias, disfarçar o caráter seccional e pessoal de sua política – numa palavra, identificar sua facção com o partido”.

Na estimativa feita pelo historiador, no máximo 20 mil pessoas estavam “por sua própria escolha, direta e ativamente envolvidas na momentosa luta interna do partido”.

A escalada imperialista de Stalin chegou ao ponto do afastamento do Politburo de Leon Trotski, criador do Exército Vermelho e vencedor da guerra civil, instância da qual haviam sido também expulsos revolucionários de primeira hora.

Os passos decisivos que levariam Trotski ao exílio e à morte violenta em Coyoácan, nos arrabaldes da Cidade do México, em 21 de agosto de 1940, seguiram com rigor o plano estabelecido pelo insaciável czar vermelho.