13:10Criaturas

Senhor, as criaturas que enviaste já estão aqui, batendo asas ao lado da minha cabeça. Eu as prendo com um fio de sangue e temo que ser corte o fio…

de Dulce María Loynaz, no livro “Fabián e o Caos”, de Pedro Juan Gutiérrez

12:46Placebos

A maioria dos candidatos a prefeito de Curitiba reclamou do tempo mais curto da propaganda eleitoral. Se isso é piada, não dá para rir, mas chorar. O que apresentam agora é um espetáculo triste que desanima até quem já estava desanimado. Cópias requentadas do que de pior já foi apresentado no passado. Tudo para enganar o eleitor estropiado. Apresentam remédios para curar os males - e oferecem placebos.

12:41Domingos

por Eduardo Galeano

A leste, a Muralha da China. A oeste, Domingos da Guia.

Nunca houve zagueiro mais sólido na história do futebol. Domingo foi campeão em quatro cidades – Rio de Janeiro, São Paulo, Montevidéu, Buenos Aires – e foi adorado pelas quatro: quando jogava, os estádios enchiam.

Antes, os zagueiros se agarravam aos atacantes feito selos em envelope, e livravam-se da bola como se ela lhes queimasse os pés, chutando-a o quanto antes para o alto. Domingos, ao contrário, deixava passar o adversário, investida vã, enquanto lhe roubava a bola, e depois tomava todo o tempo do mundo para tirar a pelota da zona do perigo. Homem de estilo imperturbável, fazia tudo assobiando e olhando par outro lado. Desprezava a velocidade. Jogava em câmera lenta, mestre do suspense, amante da lentidão: chamou-se domingada a arte de sair da área com toda calma, como ele fazia, soltando a bola sem correr e sem querer, porque tinha pena de ficar sem ela.

10:10A verdade sempre aparece

Da coluna Diário do Poder, de Claudio Humberto

Apesar dos panos quentes, a impressão no Senado é a que Renan Calheiros disse a verdade quando passou na cara de Gleisi Hoffmann (PT-PR) que a livrou e ao marido Paulo Bernardo de indiciamento. O Supremo Tribunal Federal ficou muito mal nessa história vergonhosa.

Senadores dizem ter ouvido, fora dos microfones, Renan Calheiros reagir assim aos gritos de “canalha” por parte de Gleisi Hoffmann: “A senhora deveria estar presa”, lembrando que ele a livrou disso.

10:00Começou!!

Do analista dos Planaltos

O primeiro dia do horário de propaganda política na televisão teve dois destaques: mostrou Rafael  Greca completamente alucinado contando, como se tivesse com um megafone e com palavras que explodiam na tela, o que fez em Curitiba quando foi prefeito (nada da traição de quem o inventou e lhe ensinou como fazer – e também que existia dinheiro para tanta “criatividade”) e Requião Filho desafiando as leis de trânsito ao falar e olhar para uma câmera enquanto dirigia pelas ruas da cidade.

9:46Vidas públicas, vidas privadas

por Leonardo Padura

Um dos valores da sociedade moderna é –ou deveria ser– o respeito pelo âmbito privado do indivíduo. Os interesses pessoais de cada um, sua forma de entender diversos aspectos da realidade e da existência, seus gostos e fobias individuais eram vistos como pertences arcanos que o contrato social deveria proteger, desde que essas preferências pessoais não se mostrassem lesivas ao restante dos cidadãos.

Em um país como Cuba, onde passei toda minha vida, os limites da vida privada muitas vezes foram permeados, por razões culturais –a tendência gregária do cubano– e até por decisões políticas que incluíram desde a votação pública com o braço erguido até a intromissão nas preferências sexuais, as crenças religiosas, as opiniões políticas pessoais do indivíduo e que, submetidas a julgamento, podiam decidir, por exemplo, o destino profissional ou estudantil de um cidadão. A chamada “verificação”, que poderia ser realizada a partir das opiniões de um vizinho, tinha o poder de expor assuntos estritamente privados de uma pessoa que eram levados a público e influíam sobre o destino dos indivíduos, quando não eram considerados “apropriados” ou “admissíveis” segundo determinados códigos, entre os quais não figurava, é claro, o Código Penal nem qualquer outro escrito e referendado.

Notícias como a das escutas telefônicas realizadas por órgãos de inteligência contra políticos de outros países ou partidos ou contra simples cidadãos, o hacking de computadores, a espionagem de e-mails –que todos sabemos que podem ser revistos por outros– me parecem especialmente lesivos daquele que considero ser um direito inalienável do cidadão.Essa experiência me tem levado a ser defensor decidido dos assuntos e espaços privados do cidadão. Apesar de meu ofício, que me obriga constantemente a me expor em público, a expressar ideias e opiniões, a ser entrevistado e criticado, tenho lutado para defender minha privacidade até onde tem sido possível.

Todos esses conceitos e realidades me deixam ainda mais empenhado em procurar preservar minha privacidade. Por isso, apesar de ser escritor e jornalista, nunca tive página na internet, a página de Facebook que aparece com meu nome na rede é apócrifa, e jamais mexi em uma conta no Twitter. Sou estritamente pré-informático nesses sentidos. Sou um bicho raro, um anacrônico.

Assim, minha condição me faz reagir visceralmente quando fico sabendo como hoje as pessoas voluntária e festivamente divulgam coisas que alguém como eu considera privadas.

Pouco tempo atrás, graças a uma amiga, pude ver a página no Facebook de um antigo colega da universidade com quem eu tinha perdido contato. Pude ver e ler, com assombro, como ele relatava cada acontecimento corrente de sua vida –encontros, visitas, experiências–, como narrava parte de sua história familiar e até revelava detalhes de sua vida sentimental e sexual! Na realidade, bi e homossexual (se a conjunção é possível). Que mecanismos podem levar um homem de 60 anos a participar dessa demolição do privado? Por que um encontro com uma pessoa determinada precisa adquirir o caráter de notícia? Continue lendo

8:50Gianoto-Paolicchi: TJPR aceita recursos e altera sanções

Do blog do jornalista Angelo Rigon

Foi publicado esta semana o acórdão do julgamento feito pela 4ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Paraná, realizado no último dia 9, e que alterou parcialmente sentença de 2010 do juiz Mário Seto Takeguma, da 1ª Vara Cível de Maringá, numa das grandes ações ajuizadas pela Promotoria de Proteção ao Patrimônio Público, em 2002, do caso Gianoto-Paolicchi.

Quatro dos condenados recorreram ao TJPR, que decidiu reduzir o tempo de suspensão dos direitos político, da proibição de contratar com o poder público e a exclusão de condenação ao pagamento de honorários advocatícios do ex-prefeito Jairo Gianoto e do ex-secretário de Fazenda Luiz Antonio Paolicchi, morto em outubro de 2011. O mesmo benefício foi concedido aos ex-servidores públicos municipais Rosimeire Castelhano Barbosa e Jorge Aparecido Sossai. Também o doleiro Alberto Youssef conseguiu reduzir a proibição de contratar com o poder público e de receber benefícios ou incentivos fiscais ou creditícios por 5 anos.

Nesta ação também foram condenados, em primeira instância, Celso de Souza Campos, Izaias da Silva Leme, Valmir Ferreira Leme, Sérgio de Souza Campos, Rubens Pegini, Rubens Pinheiro, Mário Jorge Taveira Cortez e Flórida Importação e Comércio de Veículos Ltda. Gianoto, Paolicchi, Sossai e Rosimeire Castelhano foram condenados a devolver R$ 2.831.896,55 por desvio de dinheiro público.
(*) Caso não consiga visualizar o acórdão, clique aqui.

8:38Oba!

Depois dos dois dias de espetáculos escalafobéticos protagonizados por senadores no julgamento de Dilma Rousseff, a Gazetona do final de semana aparece com uma manchete de capa gigantesca afirmando que o Senado está anabolizado, ou seja, mais forte para prensar e conseguir o que quiser do governo federal. Juntando lé com cré, só resta cantar Silvio Brito: “Tá Todo Mundo Louco! Oba!”

8:17Olhos debruçados

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Rogério Distéfano 

COMPANHEIRA LEITORA, companheiro leitor. Antes de seguir adiante devo explicar a foto que ilustra a coluna: trata-se da peça “Macaquinhos”, levada pelo grupo de mesmo nome sob patrocínio da Lei Rouanet. Teatro na modalidade performance, na qual os atores e atrizes – parece que apenas uma – exploram-se uns aos outros as anfractuosidades anais (o popular fiofó): em círculos, formando corrente humana, acocorados, uns abrem as nádegas dos outros e avaliam com interesse as cavidades excretoras.

Não vou cansá-los em tema de teatro, que não domino. Queria, ao invés da foto acima, publicar o vídeo que registra o embate cenográfico de ontem, em Brasília, entre os senadores Renan Calheiros e Gleisi Hoffmann, com a participação do colega Lindbergh Farias, que quando pode se interpõe, roubando a cena no plenário da respeitável casa do Congresso. Antes a foto que o vídeo dos senadores. A foto beira a ingenuidade diante do espetáculo chocante e indecoroso do Senado.

Vocês podem perguntar, o que têm os Macaquinhos a ver com os senadores? Em verdade vos digo, muito. Explico, resumidamente. Os senadores praticam nos debates o que os atores fazem na peça: esgaravatam e examinam as reentrâncias uns aos outros. Bem o disse a senadora Gleisi Hoffmann ainda nesta semana que seus pares “não têm moral para julgar Dilma Rousseff”. No senado de Roma, o colega de Gleisi e Renan diria, horresco referens, tremo ao falar essas coisas. Depois entrava na banheira e cortava os pulsos.  

A performance dos Macaquinhos beira a ingenuidade diante da performance dos senadores. Renan Calheiros dirige-se ao presidente do impeachment, presidente do STF, para condoer-se do sacrifício de estar dirigindo um “hospício”. A seguir, em imagem de causar engulho no conterrâneo Graciliano Ramos, salienta que “os olhos do mundo estão neste momento debruçados sobre o Brasil”. Olhos debruçados – no teatro dos Macaquinhos também tem disso. A vida imita mesmo a arte.

Não bastasse a injúria, Renan acrescenta o insulto – aos colegas, ao Senado e ao STF – quando reprova a colega Gleisi: logo ela, a quem ele, Renan, como presidente da casa, livrou com o “esposo” do indiciamento pelo STF. Uma confissão candente de tráfico de influência para interferir em investigação policial. Aqui ainda “diante dos olhos do mundo, debruçados sobre o Brasil”. Nunca antes na história do melífluo e escorregadio senador das Alagoas ele foi tão sincero e, por que não dizer, honesto.  

Gleisi, sabemos, não só não leva desaforo dos outros para casa, como carrega na bolsa o estoque pessoal. Tipo Aracy de Almeida, a saudosa Dama da Central, jurada de Sílvio Santos. De um salto ejetou-se da cadeira, narizinho rubro como o costume que vestia, vermelho-petista. Eespevitada, aos gritos de “mentira” faltaram bolsa e espaço para levar a nocaute o boquirroto Renan. A seu lado, quais leões de chácara, os senadores Lindbergh Farias e Vanessa Grazziotin.  Se essa gente, como antigamente, portasse armas…

Comecei com os Macaquinhos da performance e termino com a performance dos macaquinhos do Senado. Saldo favorável, com mérito para os atores – que empregam o dinheiro da Lei Rouanet melhor que os senadores os polpudos salários. Se os Macaquinhos, na exaltação da arte, cutucam e abrem os ânus uns dos outros, os senadores não só imitam os atores na vida como aos macacos na selva – que também brigam lançando uns nos outros a munição que extraem do ânus.  

19:10ZÉ DA SILVA

guerrilheiro já fui aqui mesmo neste país de meia pataca e eu sei lá como entrei na fria a cabeça era suburbana a idade de imbecil e a lorota dos que eu achava que entendiam da coisa era das boas para a ocasião caí na clandestinidade e meu codinome era zé das couves o que não é lá muito ideológico mas depois virou nunca dei um tiro e sim um esbarrão num militar para criar coragem de assaltar uma barraquinha de cachorro quente para levar ao aparelho preso não fui mas fui dar um bordejo na ilha e não gostei da cor do canavial voltei anistiado mas tive azar de retornar no mesmo avião de uma estrela da esquerda nem papagaio de pirata consegui ser na vida tudo segue e virei papagaio de ideologia ganhei alguns cargos no serviço público para não fazer nada e descobri então minha veia ecológica igual a muitos companheiros que tentaram derrubar o regime como se isso fosse mais fácil que perder cinquenta quilos com a dieta de beverly hills cheguei lá defendendo principalmente a causa de enfiar o maior número de verdinhas no bolso possível para garantir o futuro da prole acabei caindo e agora estou aqui na cela com um vaso ao meu lado e um pé de couve só então lembrei do codinome aquela tropa de desmiolados acertaram alguma coisa.

18:50PARA JAMAIS ESQUECER MARIO CRAVO NETO

por Vicente Sampaio

Para Mario, criar era sinônimo de viver, ou melhor, viver e criar eram a mesma coisa. Mario não gostava de nadar, dar braçadas de um ponto a outro, mas mergulhava; nunca foi um atleta, mas a força de vontade vencia as barreiras, mergulhava nas águas e nas profundezas de si mesmo.

Havia nesse viver-mergulho um forte impulso de criação que ocupava tudo, uma disposição caótica, selvagem, algo improdutiva, mas solene, apaixonada e bruta à espera de uma lapidação, uma louca compulsão progressiva sem separação do banal de todos os dias. Isso quase o levou a um final trágico e prematuro cujo saldo foram as pernas gravemente fraturadas que o incomodaram pelo resto da vida.

Ele vivia num contínuo desafio dos limites. No carro, estava sempre em alta velocidade, como se desafiasse e competisse com si mesmo. Andávamos muito juntos pelas estradas e ruas da Bahia e, pelo estado do carro, não teria sobrevivido se estivesse ao lado dele quando aconteceu o acidente.

Potencializávamos tudo isso com um arsenal de estimulantes, naturais e químicos, possíveis na época. Mario nunca se queixava de nada, a não ser de sua desorganização material. Faltava serenidade, que acabou chegando abruptamente com a lata de sua Brasília abraçando um poste de concreto a 120 por hora, a uma e meia da madrugada, numa curva fechada da orla, em 1975. Reflexos comprometidos pela mistura de anestésico odontológico, uísque e sono.

No hospital, no dia seguinte ao acidente, fiz uma foto dele na cama com as pernas engessadas e ligadas por uma barra de ferro como um enorme A. Ele queria que eu arranjasse uma escada para fotografá-lo de cima, com os braços abertos como um crucifixo. A ideia obviamente não vingou.

Houve dois Marios, um antes e outro depois desse acidente.

Saímos cedinho e pegamos o sol nascendo sobre o mar de Arembepe. Tenho uma lembrança cinematográfica dessa manhã, desse dia. Flutuávamos velozmente no tapete voador que era sua Brasília.Uma semana antes, resolvemos sair direto de uma sessão de ampliações que havia durado toda a noite para uma excursão fotográfica a Arembepe, naqueles dias uma aldeia mítica de pescadores e hippies. Como desjejum, tomamos um chá verde, espumante, quase leitoso, da mais pura manga-rosa dos sertões alagoanos e um quarto de ácido cada um. Ainda paramos para uma batida de gengibre na barraca do velho Agostinho, um negro sorridente que vendia carvão na beira de uma avenida.

As imagens surgiam como águas em cataratas e o limite das 36 poses causava uma angustiazinha diante de tanta beleza. Não ouso imaginar como aquilo seria com a inesgotável metralhadora digital. Quando o sol se fazia mais alto, vinham as horas da luz vertical, dura e implacável. Continue lendo