18:46As coisas

de Jorge Luis Borges

A bengala, as moedas, o chaveiro,
A dócil fechadura, as tardias
Notas que não lerão os poucos dias
Que me restam, os naipes e o tabuleiro.
Um livro e em suas páginas a seca
Violeta, monumento de uma tarde
Sem dúvida inesquecível e já esquecida,
O rubro espelho ocidental em que arde
Uma ilusória aurora. Quantas coisas,
Limas, umbrais, atlas, taças, cravos,
Nos servem como tácitos escravos,
Cegas e estranhamente sigilosas!
Durarão para além de nosso esquecimento;
Nunca saberão que nos fomos num momento.

18:19Dois

Do blog Cabeça de Pedra

No meu reino só cabem duas pessoas – e eu não me suporto. Brigo constantemente porque sempre acho que o outro falhou e ele me diz claramente que a cagadona é minha. Não tenho lembrança de quando descobri esse mala que me atormenta diariamente e muitas vezes  nos meus sonhos. Às vezes entramos num acordo, mas logo há esfaqueamentos mútuos, cuspidas, chutes no saco, etc. Quem inventou isso foi um grande filho da puta – e não me importo se algum de vocês pensar em deus, qualquer que seja. Eu queria ser feliz, mas uma vida inteiramente assim com certeza seria um porre sem a mínima graça. Mas também não queria o tormento, o fio da navalha rondando a retina da alma, o sangue explodindo na cara, a morte sempre na espreita, os outros querendo entender. Caralho! Eu não entendo porque tenho essa outra pessoa aqui dentro – e não há como assassiná-lo. Talvez isso seja vida. Talvez isso seja resultado do vírus nosso dos infernos. Como vou saber? Entendo tiro de calibre doze no céu da boca. Deve ser por isso. 

17:58JORNAL DO CÍNICO

Do Filósofo do Centro Cínico

Um grupo de 22 artistas e intelectuais estrangeiros assinaram carta de apoio à Dilma Rousseff. Levando-se em conta todos os artistas e intelectuais estrangeiros do mundo, é pouco. Mesmo assim, seria bom que alguém fizesse uma pesquisa para saber se eles sabem qual a capital do Brasil. A maioria vai dizer que continua sendo Buenos Aires.

17:53ADMINIMISTÉRIO

de Paulo Leminski

Quando o mistério chegar,
já vai me encontrar dormindo,
metade dando pro sábado,
outra metade, domingo.
Não haja som nem silêncio,
quando o mistério aumentar.
Silêncio é coisa sem senso,
não cesso de observar.
Mistério, algo que, penso,
mais tempo, menos lugar.
Quando o mistério voltar,
meu sono esteja tão solto,
nem haja susto no mundo
que possa me sustentar.

Meia-noite, livro aberto.
Mariposas e mosquitos
pousam no texto incerto.
Seria o branco da folha,
luz que parece objeto?
Quem sabe o cheiro do preto,
que cai ali como um resto?
Ou seria que os insetos
descobriram parentesco
com as letras do alfabeto?

16:25Por média

Do analista dos Planaltos

Enquanto a oposição enxerga um copo meio vazio, no Centro Cívico tem gente olhando com otimismo os números da avaliação do governador Beto Richa. Na visão oficial, a boa notícia é que metade da população de Curitiba considera regular ou boa a administração do homem – e apostando que em pouco tempo ele alcança nota para passar por média.

16:21Frio e quente

Em campanha vale tudo. Uma víbora da esquina da Visconde com a Barão, recorreu à Bíblia para produzir o seguinte:

Fui em busca de explicação para os números do Ibope sobre Gustavo Fruet. Caiu nessa passagem – e que fiquem atentos os marqueteiros do prefeito:

“Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente; quem dera foras frio ou quente! Assim, porque és morno, e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca.”

Apocalipse 3:15,16

15:25Despacha!

Os astrônomos descobriram um planeta, o Proxima Centauri, com as mesmas características da Terra e que poderá, no local para que os habitantes da coisa aqui se mudem para lá. Sugere-se que um teste inicial seja feito enviando os parlamentares do Bananão para lá, a 4,2 anos luz de distância – em nave com capacidade só de ida.

 

15:10JORNAL DO CÍNICO

Do Filósofo do Centro Cínico

Ao saber que a gestão de Beto Richa é desaprovada por 48% da população de Curitiba, Rafael Greca não se apertou. Disse que isso acontece porque seu principal apoiador na campanha para prefeito tem que cuidar também dos 398 outros municípios.

14:47Ele é da província, logo…

Do comentarista esportivo

Se Weverton fosse goleiro de um time grande do Rio ou São Paulo, já teria sido canonizado. Ele, sim, foi o responsável pela conquista da medalha de ouro na Olimpíada. Neymar cumpriu apenas a obrigação de bater e marcar o último pênalti contra a Alemanha – o que é muito, mas muito mas fácil do que defender.

12:38“O Lula ia ganhar de presente”

Do blog O Antagonista

Roberto Requião é um lulista de longa data, mas não conteve a língua, em entrevista a Josias de Souza:

“Veja o Lula com aquele sítio [de Atibaia]. Tem cabimento isso? Ele tinha entrado naquela vigarice de palestras, que foi inventada pelo Fernando Henrique. O Bill Clinton também fazia a mesma coisa. O Lula, com essas palestras, não precisava ganhar de presente… Ele ia ganhar [o sítio] de presente. Eu sei o que é isso.”

Não tem cabimento isso.

11:01Prezado Gustavo Fruet

eleonora

Eleonora Fruet

PARA POUPÁ-LO de continuar a leitura desta carta informo que não votei em você para prefeito. Não por você e seu currículo, que são admiráveis, mas pela aliança com o PT. Também não foi em repúdio a Mirian Gonçalves, sua vice, petista histórica, de quem gosto muito como pessoa e até como militante. Porém, as alianças partidárias são ofensas ao cidadão e ao eleitor: para ganhar votos os candidatos se desconstroem reciprocamente no primeiro turno e se recompõem no segundo. O eleitor, sempre o tolo embevecido, fica solidário à desconstrução num momento e solidário à reconstrução no segundo.

Pensei o seguinte. Gustavo foi ferrenho opositor do PT, investigador dedicado das fraudes de Lula na câmara federal, e agora se alia ao PT! Sim, entendo, os partidos políticos não têm credo, ideologia, princípios e organicidade. Não passam de feudos em que os que controlam expulsam os que querem crescer dentro deles. Assim aconteceu com você, expulso por Beto Richa para não criar obstáculos aos planos dele (eu disse planos?) – que, acabamos por constatar, não eram os melhores, para dizer pouco. Sendo assim, para sobreviver alia-se ao diabo, se necessário. Como Winston Churchill com Stálin e Requião com seu difamado na véspera.

Disse a mim mesmo na urna: Gustavo hoje está com o PT, amanhã estará com Richa, em seguida com Requião. Se o curitibano e o paranaense não têm memória e estômago, os meus estão funcionando bem. Desconfio que você esperou até o último momento o apoio de Greca ou de Requião para sua reeleição. Por que digo isso? Coisa simples: deixou Rafael Greca quatro anos a receber salários do IPPUC enquanto ele se fazia de assessor de Requião no Senado. Quatro anos, todos sabiam, do presidente do IPPUC a Ricardo MacDonald, seu super assessor que entrou na derradeira hora com o processo para anular a aposentadoria de Greca – que você deferiu como prefeito.

Digamos que diante do todo, esse lance da licença foi pecado venial. Beto fez coisas piores e brinca com a memória dos paranaenses e dos curitibanos. Ainda há tempo, mesmo com o resultado humilhante da primeira pesquisa de intenção de voto. Desde que você se mexa, Gustavo. Mesmo que sua grande credencial seja a de lembrar o excelente funcionário que chegou a prefeito promovido por merecimento, isso não basta. Tem que usar as armas dos adversários, no caso Rafael Greca. Sem a ousadia de dar pitaco no seu marqueteiro, sugiro que ponha suas mulheres na campanha. Você está em vantagem, tem três, e poderosas, a mãe, a irmã e a mulher propriamente dita.

Se Greca vem com a ‘minha Margarita’, lance no ringue a sua mãe Ivete, que certa vez expulsou Roberto Requião da porta de sua casa como Cristo aos vendilhões do templo; chame Eleonora, sua irmã, feições com o mistério e a essência das musas renascentistas, cabeça brilhante para os números, presença e o carisma que a genética sonegou de você. E para fechar com brilho, traga Márcia – a sua, a nossa Márcia – inteligente, bela e polaca como Ewelina Hanska, a condessa, musa, namorada e a final mulher de Balzac. Chame a Margarita dele para debater com qualquer uma das suas – ou apenas com a nossa Márcia.

Mexa-se, Gustavo, que até os self made filhos, os filhos que se fizeram filhos e só por isso candidatos, estão com mais espaço na mídia. Desta vez votarei em você. No primeiro turno. Perca ou ganhe, meu voto não credencia ninguém, pois quando não vai para o honesto perdedor vai para o mentiroso vencedor. No segundo turno, se você chegar lá, vamos ver, depende das alianças. Se não gostar delas, voto em você de novo. Para que perca a eleição.

Deste que é seu admirador sincero e obrigado

Rogério Distéfano

10:14O Brasil precisa de oposição

por Elio Gaspari

Começa amanhã o julgamento de Dilma Rousseff. Ela será condenada. Os julgamentos que decidem o destino dos presidentes são políticos. Formalmente, Dilma será deposta pelo desembaraço de sua contabilidade criativa, mas sempre será repetida a frase da senadora Rose de Freitas, líder do governo de Michel Temer no Senado: “Na minha tese, não teve esse negócio de pedalada, o que teve foi um país paralisado, sem direção e sem base nenhuma para administrar”.

Pura verdade, que pode ser contraposta a outro julgamento de impeachment de um presidente, o de Bill Clinton em 1999. Ele era acusado de práticas mais simples, comuns e disseminadas do que as “pedaladas fiscais”. Uma pessoa pode não entender de contabilidade pública, mas entende o que a estagiária Monica Lewinsky fazia com o presidente dos Estados Unidos na Casa Branca. Clinton foi absolvido porque o país não estava paralisado e a renda per capita dos americanos cresceu enquanto a dívida pública encolheu. Com Dilma, aconteceu o contrário. Todo mundo sabia o que Clinton fez e, apesar disso, achou-se que deveria continuar. No caso de Dilma, não se sabe direito o que eram as pedaladas, mas acha-se que ela deve ir embora.

Quando Dilma entregar as chaves do Palácio da Alvorada, estará encerrado um ciclo de 13 anos de poder do Partido dos Trabalhadores. Em 2003, Lula vestiu a faixa e a oposição foi para o poder. Hoje, ninguém haverá de dizer o mesmo. Michel Temer era o vice-presidente de Dilma e seu primeiro escalão ampara-se em figuras que sustentaram o comissariado petista. Henrique Meirelles presidiu o Banco Central de Lula, Eliseu Padilha e Gilberto Kassab foram ministros de Dilma. Mudança imediata, drástica e irrecorrível, só a do garçom Catalão, do Palácio do Planalto, que hoje está no gabinete da senadora Kátia Abreu, ministra de Dilma e adversária do impeachment.

O PT foi apeado do governo e, de uma maneira geral, abriu espaço para quem nunca saiu dele. O tempo dirá quanto custou ao comissariado o inchaço de sua base de apoio e, sobretudo, a expansão de seus interesses pecuniários. Lula e Dilma viveram o engano de um governo com o mínimo possível de oposição. Depostos, Dilma cuidará da vida, Lula tentará se reinventar, mas alguns comissários sabem que suas carreiras estão encerradas. Outros seguem a ordem de batalha do coronel Tamarindo em Canudos: “É tempo de murici, cada um cuide de si”. Astro dessa categoria é Cândido Vaccarezza, líder do PT na Câmara até 2012. Dois anos depois, perdeu a eleição. Deixou o partido e aninhou-se na campanha de Celso Russomanno (PRB) pela Prefeitura de São Paulo.

Cortando aqui e perdendo ali, sobra uma militância cujas raízes estão nos anos 70 do século passado. Defendiam o fim da unicidade sindical, a reforma da CLT, as negociações diretas entre empresas e trabalhadores e tinham horror a empreiteiros. (A recíproca era verdadeira.) Esse era um tempo em que os sindicalistas do PT eram bancários. Com o acesso aos fundos estatais alguns viraram banqueiros e, como João Vaccari Neto, ex-tesoureiro do partido, estão na cadeia.

Oposição, com algumas ideias na cabeça e pouco dinheiro no bolso, é tudo que o Brasil precisa.

*Publicado na Folha de S.Paulo