13:04VIRGULINO

por Graciliano Ramos

Há dias surgiu por aí um telegrama a anunciar que o meu vizinho Virgulino Ferreira Lampião tinha encerrado a sua carreira, gasto pela tuberculose, deitado numa cama, no interior de Sergipe. Mas a notícia não se confirmou — e a polícia do Nordeste continuará a perseguir o bandido, provavelmente o agarrará de surpresa e mostrará nos jornais a cabeça dele separada do corpo. Seria de fato bem triste que a punição dum indivíduo tão nocivo fosse realizada por uma doença. Ficam, pois, sem efeito os ligeiros comentários inoportunos e apressados, que ilustraram o canard.

Não é a primeira vez que Lampião tem morrido. E sempre que isto se dá as notas com que se estira o acontecimento deturpam a figura do bruto e manifestam a ingênua certeza de que tudo vai melhorar no sertão. O zarolho se romantiza, enfeita-se com algumas qualidades que se atribuíam aos cangaceiros antigos, torna-se generoso, desmancha injustiças, castiga ou recompensa, enfim aparece inteiramente modificado.

Esperamos e desejamos longos anos essa morte — e ao termos conhecimento dela soltamos um suspiro de alívio a que se junta uma espécie de gratidão. Teria sido melhor, sem dúvida, que o malfeitor houvesse acabado nas unhas da polícia. Não acabou assim, desgraçadamente, mas de qualquer forma o Nordeste se livrou dum pesadelo.

Repousamos algum tempo nesse engano, até que Lampião ressurge e prossegue nas suas façanhas. Inútil agredi-lo ou emprestar-lhe virtudes que ele não entende, ajudá-lo, fazê-lo combater os grandes, proteger os pequenos, casar donzelas comprometidas. Lampião não se corrigirá por isso: permanecerá mau de todo, insensível às balas, ao clamor público e aos elogios, uma das raras coisas completas que existem neste país.

Tudo aqui é meio-termo, pouco mais ou menos, somos uma gente de transigências, avanços e recuos. Hoje aqui, amanhã ali — depois de amanhã nem sabemos onde haveremos de ficar, como haveremos de estar. Abastardamo-nos tanto que já nem compreendemos esse patife de caráter e inadvertidamente lhe penduramos na alma sentimentos cavalheirescos que foram utilizados como atributos de outros malfeitores.

Deixemos isso, apresentemos o bandoleiro nordestino como é realmente, uma besta-fera. Há pouco mais de um ano, em condições bem desagradáveis, travei conhecimento com um discípulo dele, um sujeito imensamente forte, alourado, vermelhaço, de olho mau. Esse personagem me declarou que todas as vezes que praticava um homicídio abria a carótida da vítima e bebia um pouco de sangue. Anda por aí espalhada a longa série das barbaridades cometidas pelo terrível salteador, mas essa confissão voluntária dum companheiro dele surpreendeu-me.

Isso prejudica bastante o velho culto do herói, do homem que lisonjeamos para que ele não nos faça mal.

Lampião se conservará ruim. E não morrerá tão cedo. A vida no Nordeste se tornou demasiado áspera, em vão esperaremos o desaparecimento das monstruosidades resumidas nele.

Finaram-se os patriarcas sertanejos que vestiam algodão e couro cru, moravam em casas negras sem reboco, tinham necessidades reduzidas e soletravam mal. No pátio da fazenda uns cangaceiros bonachões preguiçavam. E nos arredores grupos esquivos rondavam, escondendo-se dos volantes. De longe em longe um emissário chegava à propriedade e recebia do senhor uma contribuição módica.

Tudo agora mudou. O sertão povoou-se e continua pobre, o trabalho é precário e rudimentar, as secas fazem estragos imensos. Os bandos de criminosos, que no princípio do século se compunham de oito ou dez pessoas, cresceram e multiplicaram-se, já alguns chegaram a ter duzentos homens. A luta se agravou, as relações entre fazendeiros e bandidos não poderiam ser hoje fáceis e amáveis como eram.

Jesuíno Brilhante é uma figura lendária e remota, o próprio Antônio Silvino envelheceu muito.

Resta-nos Lampião, que viverá longos anos e provavelmente vai ficar pior. De quando em quando noticia-se a morte dele com espalhafato. Como se se noticiasse a morte da seca e da miséria. Ingenuidade.

*Publicado no jornal A Tarde, do Rio de Janeiro, em 27 janeiro de 1938

10:02TICIANA VASCONCELOS SILVA

A lua é aquela tigela que fica no fundo do olho
Ela não quebra nem gela, mas tem a casca sutil de um ovo
Quem a vê, sabe que ela vale mais do que cem mil contos
Não troca, não vende o sentimento que ficou oco
Porque a lua não se toca. Ela não sabe que vale ouro.

9:32MANÉ GALO

Nada contra, nem a favor, mas… vamos a um fato. Partido politico vai ao STF pedir que sejam cortadas as mordomias de Eduardo Cunha, como casa, comida, transporte e roupa lavada. Comentaristas na Globo News entraram de sola nesse tema repercutindo a iniciativa desse partido. Mas ninguém falou sobre a situação de Dilma Russef, que é idêntica a de Eduardo Cunha. A afastada (como Cunha) também recebe uma montanha de mordomias e nenhum partido, defensor do correto, da moral e dos bons costumes, entrou no STF pedindo para acabar com a farra no Palácio Alvorada. Por que?

9:29O novo homem-bomba

por Bernardo Mello Franco

Sérgio Machado, o novo delator da praça, é um exemplar típico do “homo brasiliensis”. Filho de político, dono de uma emissora de TV, não teve dificuldade para comprar a entrada no Congresso.

Começou no PMDB, elegeu-se deputado e senador pelo PSDB e voltou ao partido de origem para disputar o governo do Ceará, em 2002. Derrotado nas urnas, recorreu à proteção de amigos para continuar no poder.

Assim que o PT chegou ao Planalto, o senador Renan Calheiros o indicou para presidir a Transpetro, a subsidiária de transportes da Petrobras. Machado chefiou a estatal por 12 anos. Só caiu em fevereiro de 2015, depois de sucessivas licenças para tentar escapar do foco da Lava Jato.

A tática da submersão não deu certo. Os procuradores continuaram a cercá-lo, acumulando indícios de corrupção. Quando a prisão se tornou iminente, o peemedebista resolveu virar delator. Pôs um gravador no bolso e saiu à caça de frases que comprometessem os padrinhos.

Sua primeira gravação derrubou o senador Romero Jucá do Ministério do Planejamento. Nesta quarta (25), surgiram novas fitas envolvendo Renan e o ex-presidente José Sarney. Investigadores dizem que é só o começo. Machado teria produzido mais provas contra políticos de diferentes partidos.

Embora o principal alvo seja o PMDB de Michel Temer, PSDB e PT não têm muito o que comemorar. Na conversa com Jucá, Machado afirma que o tucano Aécio Neves será “o primeiro a ser comido” pela Lava Jato.

Em outra gravação entregue ao Ministério Público, Sarney diz ao ex-presidente da Transpetro que Dilma Rousseff estaria “envolvida diretamente” num pedido de doações à Odebrecht. Não é possível saber a que campanha ele se refere.

O novo homem-bomba conhece os segredos de mais gente em Brasília. O ex-senador Delcídio do Amaral disse que sua delação vai “parecer a Disney” perto do que Machado ainda tem a revelar. Pelo clima de tensão na capital, ele pode estar certo.

*Publicado na Folha de S.Paulo

9:01Combinou?

Barack Obama, em fim de mandato, vai defender o fim das armas nucleares em visita que fará a Hiroshima, aquela destruída por bomba atômica na carnificina protagonizada pelos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial. O presidente dos norte-americanos faz lembrar o gênio Garrincha e sua célebre frase depois que Vicente Feola, técnico da seleção brasileira, deu todas as coordenadas para vencer o adversário na Copa de 1958: “E o senhor já combinou com os russos?”

8:07Por que eu?

Todos os políticos bandalhos que foram expostos ultimamente como bandalhos pelas falcatruas que sempre cometeram, acordaram hoje com uma interrogação na mente suja: “Se todo mundo é ladrão, por que me pegaram para Cristo?”

7:29Onde estou? É tudo tão estranho…

Aloprados de esquerda e direita estão mais perdidos do que cego em tiroteio, como se dizia no tempo do Amigo da Onça. “Onde estou? É tudo tão estranho…” O personagem do inesquecível Ronald Golias sempre fez sentido no Bananão. Agora mais do que nunca. Mudaram os personagens do comando do país e, como era esperado, há bombas explodindo diariamente no colo de quem saiu e de quem entrou. Petardos de denúncias da podridão escondida por muito tempo dentro da fossa da política. Quem bateu panela, guardou-as nos armários, porque a gerentona está recolhida. Quem reclamou do “golpe” dizendo que “a luta continua”, acha que o mordomo de filme de terror armou um time de bandidos que vai devolver o poder a quem afundou o país. É o retrato perfeito do Bananão consagrado por Ivan Lessa, que nunca teve um mínimo de esperança na coisa, porque é assim mesmo. No que isso tudo vai dar? Em nada. A única diferença é que, por um motivo ou por outro, agora confia-se numa parcela ínfima do Ministério Público e da Justiça Federal – o que já é muita coisa em 516 anos de baderna.

7:09O ANARQUISTA

mark

MARK TWAIN

Em questões de Estado, cuide das formalidades e pode esquecer as moralidades.

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A agenda do caixeiro-viajante

O Instituto Lula informa que a agenda internacional de Lula terá “prejuízo” com José Serra no ministério das Relações Exteriores, que implicará mudança na diplomacia esquerdista do PT. Serra resgatou a diplomacia de resultados e arquivou a ideológica.

Prejuízo na agenda ou no cachê? Sem BNDES financiando empreiteiras, sem a tropa do petróleo, sem o jatinho da Odebrecht, que “agenda internacional” que nada. Lula caixeiro-viajante não é louco de aguentar xingamento de coxinhas em avião de carreira.

Prisão de luxo

Com a redução da criminalidade, a Holanda transforma em abrigos algumas prisões. O Brasil, que funciona ao contrário, ainda transforma o Congresso Nacional em prisão: aumentou muito a criminalidade lá dentro.

O crime que não compensa

André Moura (PSC/SE) foi imposto a Michel Temer como líder do governo na câmara dos deputados. Ele responde a três processos criminais, um deles tentativa de homicídio.

O senador Romero Jucá foi obrigado a deixar o ministério do Planejamento e voltar ao Senado por muito menos, a inconfidência gravada em conversa com ex-colega.

A moral da história: político pode matar, mas não pode ser gravado. Conversa de político ainda se torna crime hediondo. Aos ouvidos pelo menos é hedionda.

Parlamentarismo de extorsão

O “parlamentarismo de extorsão” continua inabalável, imbatível, indiferente à opinião pública. O título, perfeito, vem de Marcelo Freixo, deputado estadual socialista no Rio, ao modelo político brasileiro, em que o Executivo é refém do Legislativo.

Tivemos prova disso na votação do ajuste fiscal no Congresso, dia 24. A sessão ficou sem quórum porque o do líder do PMDB, Eunício de Oliveira, ali presente, saiu sem votar. Michel Temer é presidente licenciado do PMDB.

Primeiro Comando do Congresso

Na reunião do dia 24 com ministros e líderes do Congresso, André Moura e Romero Jucá presentes, Michel Temer negou que seja presidente fraco: “Fui secretário de Segurança três vezes em São Paulo e tratava com bandidos”.

Em São Paulo era o pessoal do PCC, o primeiro comando da capital. Em Brasília é outro PCC, o primeiro comando do congresso, mais especializado, ramificado e perigoso. Em Brasília o buraco fica mais em baixo.

Boca e boquinha

Lula pediu ao Supremo para ser reconhecido ministro da Casa Civil de Dilma, mesmo sem ter tido posse. “Com os efeitos jurídicos” respectivos. Um deles seria o abuso na sua condução coercitiva pela Lava Jato. O outro, que não diz, seriam os dois meses de salário de ministro. A boquinha, como o cachimbo, deixa a boca torta.

Ironia do destino

Taiguara Rodrigues dos Santos, sobrinho e suposto laranja de Lula, comprou um apartamento no litoral de São Paulo. O número é o mesmo do artigo para o estelionato no código penal: 171.

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(ROGÉRIO DISTÉFANO)

7:04Serpieri: de Drunna a Tex

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por Célio Heitor Guimarães

O veneziano Paolo Eleuteri Serpieri notabilizou-se no mundo dos quadrinhos pelas curvas que deu à Druuna, a gostosa nº 1 dos gibis. Morena saudável, de longos cabelos negros e corpo espetacular, Drunna nasceu em 1985 para encantar o universo masculino.

Ainda que as mulheres sempre tenham merecido especial carinho de Serpieri, inicialmente, ele pretendia dar um tom caricatural à personagem. Até o dia em que estava numa praia em Ostia, nas proximidades de Roma, então completamente deserta.

– De repente – conta o autor -, uma mulher nua saiu das águas. Seu corpo, perfeito e radiante, reluzia com as inúmeras gotas que o molhavam e refletiam a luz do sol.

Ali nascia a exuberante Drunna, figura de um futuro apocalíptico, onde os seres humanos foram sido atingidos por terríveis mutações. À vaporoso heroína cabe encontrar uma salvação para o planeta. Nem que para isso seja obrigada a fazer aquilo que mais lhe agrada: sexo.

Pois Serpieri acaba de dar uma guinada de 180 graus e arredou-se da supergata, que continua incendiando as páginas de álbuns ilustrados, para uma volta ao Velho Oeste norte-americano. E nessa empreitada não poderia ter sido mais feliz na escolha do herói retratado: Tex Willer, criação da casa editora Bonelli e o mais longevo caubói dos quadrinhos em atividade.

Não se pode dizer que o tema seja estranho a Paolo Eleuteri. No início de sua carreira de desenhista e criador de quadrinhos, ele se dizia influenciado por artistas como José Luis Salinas, o consagrado criador das tiras de Cisco Kid. Em seguida, chegou a participar da equipe que elaborou a História do Oeste Norte-Americano, um pretensioso projeto com mais de mil páginas. Por isso, o seu encontro com o mocinho de Gianluigi Bonelli e Aurélio Gallepini, é uma espécie de retorno à origem.

O resultado é um belíssimo álbum, que acaba de ser editado no Brasil por Dorival Vitor Lopes, da Mythos Editora, com tradução do curitibano Júlio Schneider: O Herói e a Lenda, argumento, desenhos e cores de Serpieri. A história se passa no início do século passado, na cidade de Nova York, onde um suposto Kit Carson, idoso e hóspede de um asilo e hospital psiquiátrico, narra a um insistente repórter italiano a história do seu inseparável companheiro de aventuras, o ranger Tex Willer ou Águia da Noite, o chefe branco dos índios navajos. A história expõe uma ambiguidade: teria o herói sido realmente um bravo soldado da lei e da ordem, caçador de ladrões de gado, comancheiros e malfeitores de toda ordem ou tudo não passou de uma lenda, tal qual tantas outras presentes no imaginário popular?

Como adverte Mauro Boselli, um dos atuais (e principais) argumentistas das aventuras de Tex e que assina o prefácio da edição, Serpieri tomou certas liberdades cronológicas em sua trama. Mas nem por isso prejudicou a história. Ao contrário, possibilita a integração do leitor ao relato e até – quem sabe? – a reversão de algumas convicções. É um trabalho instigante e merecedor de atenção.

O Tex de Paolo Eleuteri Serpieri é um Tex jovem, impetuoso, violento, com um destemor que beira a irresponsabilidade. Mas sabe o que faz e, sob a condução de Eleuteri, protagoniza um eletrizante episódio da vida na fronteira norte-americana, nos idos de 1855.

Como fecho, o autor ainda oferece, no quadrinho final, uma significativa surpresa ao leitor.

À obra, pois, texianos!

20:23Guarda-roupa no tempo

Do blog Cabeça de Pedra

Ele nunca comprou fiado. Nunca teve conta em banco. Nunca teve teve telefone ou carro. Mesmo sem saber, talvez seu maior tesouro, além dos filhos, era o primeiro guarda-roupa. Operário, juntou o dinheirinho que sobrava do salário. Isso durou meses. Comprou o tal que olhou um dia na loja de móveis do bairro – e decidiu. É bonito o três portas com espelho e três gavetas. Suas linhas são arredondadas, os pegadores têm estilo, a madeira maciça resistente. Este móvel guarda os segredos do quarto do dono com a sua única companheira durante anos. Só saiu do lugar duas vezes. A primeira para ir da meia-água dos fundos, alugada, para a casa própria. A segunda para dali  viajar milhares de quilômetros no retorno dos dois à cidade de origem. Eles morreram faz tempo. O guarda-roupa continua lá, depois de sessenta anos. Dentro, algumas roupas do casal, que um dos filhos não quis se desfazer. Mas o móvel está morrendo. Comido. Logo será destruído, queimado. Durou muito, serviu muito bem a quem o comprou e, no fim, ainda alimentou gerações de cupins.