9:25HORÓSCOPO

por Zé da Silva

Capricórnio

A barata voou assim que ele abriu o armário do banheiro onde o espelho mostrava uma cara amarrotada pela vida. Ele não se assustou. Ficou esperando ela pousar e se esgueirar no chão junto à parede coberta de ladrilhos. Ele não atacou. Ficou olhando aquele bicho que vai sobreviver quando a raça humana de auto-aniquilar. Era das grandes, talvez mãe ou pai de filhos. Por que chamavam os que têm medo de sangue de barata? Ele era um, com certeza, mas não tinha medo de se matar lentamente. Não gostava de ratos, mas começava a se afeiçoar daquela barata imóvel. O telefone tocou e ele jura ter visto uma das antenas dela se mexer. Será que queria atender? Será que a ligação era para ela? Será que tinha compromisso naquele final de semana tedioso? Veio então a raiva e ele esmagou a tal com a sola da sandália. Depois pegou um pedaço de papel higiênico, envolveu-a, jogou no vaso sanitário e deu a descarga. Não sentiu remorso. Foi escovar os dentes. No instante em que ele assassinou o bicho, um político teve um ataque fulminante e morreu.

8:46Palavras de Laurentino

Entrevista a José Carlos Fernandes publicada no jornal Gazeta do Povo

O jornalista José Laurentino Gomes, 58 anos, era ainda um “foca” – jargão destinado aos repórteres em cueiros – quando achou que sua carreira tinha naufragado antes de mesmo de engrenar. Empregado no hoje extinto Correio de Notícias, em Curitiba, ficou pasmo ao descobrir que uma matéria sua tinha sido modificada pelo publisher, sem pudores, de modo a favorecer um político.

Não deixou barato. Prendeu a versão impressa no mural da redação e, ao lado, uma cópia – em carbono – do que havia escrito. O sururu pegaria mal hoje. Em plena ditadura militar equivalia a uma declaração de guerrilha. Laurentino foi demitido, e por justa causa. Mas ao contrário do que imaginou, não só conseguiu um novo emprego – no jornal O Estado do Paraná – como firmou seu nome entre os mais importantes jornalistas de sua geração. Apenas na Editora Abril foram mais de duas décadas de serviços prestados, para desdém de quem o demitiu.

E era só o começo. Em 2007, o ao lançar o livro 1808 – Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil sua trajetória deu mais uma cambalhota. A aceitação do público foi tamanha que dessa vez Laurentino é quem se demitiu. “Meu Deus, que dificuldade”, lembra ele, diante da escolha de Sofia – manter-se nas redações ou se entregar à pesquisa histórica. Ficou com a segunda opção.

Passados sete anos – e 1,7 milhão de livros vendidos – acha que fez a coisa certa: vê-se como um jornalista que escreve história. Com vantagens sobre quem o antecedeu no posto. Historiadores não escondem suas reservas com a presença dos jornalistas em sua seara. O gaúcho Eduardo Bueno, que antecedeu o paranaense no posto, que o diga. Mas não é seu caso. Lilia Schwarcz – autora do magnífico As barbas do imperador – é uma das sumidades que se renderam à prosa de Laurentino. A Academia Brasileira de Letras, igualmente.

Esta semana, o historiador e jornalista esteve em Curitiba para o Seminário Ler e Pensar, promovido pelo Instituto GRPCom. Emocionou-se ao falar para o público de quase 2 mil pessoas que lotaram o Grande Auditório Teatro Guaíra, no melhor do estilo à casa torna. “Não imaginava que um dia estaria nesse local, me dirigindo para tantos professores. Meu obrigado”, reconheceu, ao se despedir da plateia que o aplaudia. As razões estão nas páginas de 1808, 1822 e 1889 – os três livros com os quais o autor falou ao ouvido do Brasil. Confira trechos da entrevista.

Por que José Laurentino e não Antônio, João ou Pedro? Esse nome tem história?

[risos] Não sei de onde minha mãe tirou Laurentino. José vem do lado católico da família. Foi uma negociação: precisava ter o nome de um santo. Laurentino é do latim, algo como “uma coroa de louros na cabeça”. Quando o soldado voltava da guerra, entrava em Roma pela Via Laurentina. No Fórum, recebia uma láurea. É um nome meio perigoso. Atrai vaidade e orgulho. José serve de contraponto – por ser símbolo da humildade, um quase anônimo. Procuro transitar entre os dois. Nem tanto ao José nem tanto ao Laurentino.

Pelos cálculos, o menino Laurentino descobriu a leitura nas páginas da coleção Grandes vultos da nossa história, fascículos da Editora Abril… Correto?

Não… Nasci na roça. Meu pai era pequeno cafeicultor no distrito de Paiçandu, próximo a Maringá. Estudou muito pouco e vivia numa região isolada, sem livrarias, mas curiosamente valorizava a educação. Lia muito. Os livros eram emprestados pelo pároco. Uma das minhas lembranças mais remotas é de levar marmita para ele na lavoura de café. Ali, contava o que tinha lido. Sabia histórias do imperador Nero. Ouvi-lo narrando era um absoluto encantamento. Acredito que essa experiência me levou ao jornalismo e depois à História do Brasil.

Continue lendo

7:09JORNAL DO CÍNICO

Do Filósofo do Centro Cínico

O presidente do TJ de São Paulo disse que o auxilio-moradia ajuda na compra de ternos em Miami e também para combater a depressão de desembargadores e juízes. Nos Estados Unidos, no tempo em que mandou e desmandou no FBI, J.Edgar Hoover usava a verba de representação para comprar calcinhas que vestia em casa à noite. Mas isso é outra história.

6:58O Petrolão na Repar

Da Gazeta do Povo, em reportagem de Amanda Audi e Heliberton Cesca

Youssef e Costa confirmam propina com verba da Repar

Investigados afirmaram que o esquema investigado na refinaria pernambucana foi replicado em obras da unidade de Araucária

Em depoimento à Justiça Fe­­deral, o doleiro Alberto Yous­­sef e o ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa confirmaram que o esquema de propina para políticos investigado na operação Lava Jato na refinaria Abreu e Li­­ma, em Pernambuco, foi re­­plica­­­­do nas obras da refinaria Presidente Getúlio Vargas (Repar) em Araucária, na Re­­gião Metropolitana de Curitiba.

Youssef e Costa afirmam que o esquema ocorria em várias obras da estatal. A Repar, em específico, foi citada por Youssef quando perguntado sobre supostos pagamentos de propina recebidos por Paulo Roberto Costa da construtora Camargo Corrêa. O doleiro teria intermediado as transações. “Olha, a Camargo Corrêa tinha várias obras dentro da Petrobras, na Repar, na Rnest, se não me engano do alcooduto. Os valores se somavam”, afirma.

Segundo o esquema de corrupção relatado pelos dois, grandes empreiteiras teriam combinado a divisão das maiores obras no país, inclusive as da Petrobras. Essas empresas estariam cientes de que deveriam repassar parte do valor das obras para partidos políticos. No caso da Petrobras, cada diretoria seria ligada a um ou a dois partidos políticos. No Abastecimento, PP e PT supostamente receberiam 3% do valor dos contratos, sendo 1% ao PP e 2% ao PT, segundo Costa.

Nas diretorias de Serviços, Gás e Energia e Exploração e Produção, o PT seria beneficiado. E na Internacional, os recursos seriam divididos entre PMDB e PT. “Eu não operei em outra diretoria [a não ser a de Abastecimento], mas sei que existia nos mesmos moldes em outras diretorias. Eu sei por conta dos próprios empreiteiros e dos próprios operadores”, disse Youssef no depoimento prestado no último dia 8.

A Gazeta do Povo revelou, ontem, documentos juntados pela Polícia Federal (PF) de contratos fictícios e supostos pagamentos de propina de R$ 35,8 milhões ligados às obras da Repar. Os documentos foram apreendidos na casa de Alberto Youssef e teriam ligação apenas com o PP, levando em conta as informações dos depoimentos de Costa e Youssef. Como a reforma da Repar seria ligada à diretoria de Abastecimento, a investigação da PF e do MPF irá apurar se houve repasses de suposta propina também para o PT.

Continue lendo

6:49Sinal dos tempos

De um amigo do blog que, nos anos de chumbo, combateu a ditadura militar com as armas de que dispunha, ou seja, a inteligência e a indignação: “Duro mesmo é hoje ter de concordar com algumas coisas que o Reinaldo Azevedo escreve”.

20:28Aos que vierem depois de nós

de Bertold Brecht 

Realmente, vivemos muito sombrios!
A inocência é loucura. Uma fronte sem rugas
denota insensibilidade. Aquele que ri
ainda não recebeu a terrível notícia
que está para chegar.

Que tempos são estes, em que
é quase um delito
falar de coisas inocentes.
Pois implica silenciar tantos horrores!
Esse que cruza tranqüilamente a rua
não poderá jamais ser encontrado
pelos amigos que precisam de ajuda?

É certo: ganho o meu pão ainda,
Mas acreditai-me: é pura casualidade.
Nada do que faço justifica
que eu possa comer até fartar-me.
Por enquanto as coisas me correm bem
(se a sorte me abandonar estou perdido).
E dizem-me: “Bebe, come! Alegra-te, pois tens o quê!”

Mas como posso comer e beber,
se ao faminto arrebato o que como,
se o copo de água falta ao sedento?
E todavia continuo comendo e bebendo.

Também gostaria de ser um sábio.
Os livros antigos nos falam da sabedoria:
é quedar-se afastado das lutas do mundo
e, sem temores,
deixar correr o breve tempo. Mas
evitar a violência,
retribuir o mal com o bem,
não satisfazer os desejos, antes esquecê-los
é o que chamam sabedoria.
E eu não posso fazê-lo. Realmente,
vivemos tempos sombrios.

Para as cidades vim em tempos de desordem,
quando reinava a fome.
Misturei-me aos homens em tempos turbulentos
e indignei-me com eles.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

Comi o meu pão em meio às batalhas.
Deitei-me para dormir entre os assassinos.
Do amor me ocupei descuidadamente
e não tive paciência com a Natureza.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

No meu tempo as ruas conduziam aos atoleiros.
A palavra traiu-me ante o verdugo.
Era muito pouco o que eu podia. Mas os governantes
Se sentiam, sem mim, mais seguros, — espero.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

As forças eram escassas. E a meta
achava-se muito distante.
Pude divisá-la claramente,
ainda quando parecia, para mim, inatingível.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

Vós, que surgireis da maré
em que perecemos,
lembrai-vos também,
quando falardes das nossas fraquezas,
lembrai-vos dos tempos sombrios
de que pudestes escapar.

Íamos, com efeito,
mudando mais freqüentemente de país
do que de sapatos,
através das lutas de classes,
desesperados,
quando havia só injustiça e nenhuma indignação.

E, contudo, sabemos
que também o ódio contra a baixeza
endurece a voz. Ah, os que quisemos
preparar terreno para a bondade
não pudemos ser bons.
Vós, porém, quando chegar o momento
em que o homem seja bom para o homem,
lembrai-vos de nós
com indulgência.

19:19Um auxílio para comprar terno!

O jornalista Rogerio Galindo, do blog Caixa Zero, da Gazeta do Povo, captou a seguinte mensagem no Jornal da Cultura quando, questionado sobre o pagamento do auxilio-moradia, o desembargador José Roberto Nalini, presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo, defendeu a coisa da forma esclarecedora que se segue:

“Esse auxílio-moradia na verdade disfarça um aumento do subsídio que está defasado há muito tempo. Hoje, aparentemente o juiz brasileiro ganha bem, mas ele tem 27% de desconto de Imposto de Renda, ele tem que pagar plano de saúde, ele tem que comprar terno, não dá para ir toda hora a Miami comprar terno, que cada dia da semana ele tem que usar um terno diferente, ele tem que usar uma camisa razoável, um sapato decente, ele tem que ter um carro.

Espera-se que a Justiça, que personifica uma expressão da soberania, tem que estar apresentável. E há muito tempo não há o reajuste do subsídio. Então o auxílio-moradia foi um disfarce para aumentar um pouquinho. E até para fazer com que o juiz fique um pouquinho mais animado, não tenha tanta depressão, tanta síndrome de pânico, tanto AVC etc

Então a população tem que entender isso. No momento que a população perceber o quanto o juiz trabalha, eles vão ver que não é a remuneração do juiz que vai fazer falta. Se a Justiça funcionar, vale a pena pagar bem o juiz.”

18:30Papai Noel para capa preta

A turma da capa preta já escreveu a cartinha para Papai Noel. A ministra do Rosa Weber, do STF, deu a ordem para que a Presidência da República inclua no projeto de Orçamento de 2015, enviado do Planalto ao Congresso, as propostas de aumento salarial de juízes, promotores e servidores. Os pedidos tinham sido cortados. Os ministros do STF querem aumentar os próprios salários de R$ 29,4 mil para R$# 35,9 mil. O aumento previsto é para R$ 30,9 mil. O Ministério do Planejamento informou que, se o reajuste reivindicado for sacramentado, o efeito cascata pode um impacto de R$ 16,9 bilhões no orçamento de 2015. Você se incomodou? Eles, os da capa, não. A bolsa da viúva é grande. 

17:01O Bolsa e os votos

Para o debate, segue o levantamento publicado pelo jornalista Reinaldo Azevedo em sua coluna na Folha de S.Paulo (o texto na íntegra segue abaixo):

…. Vejam os 15 Estados em que Dilma venceu no segundo turno, o seu percentual de votos (primeiro número) e o percentual de famílias atendidas pelo Bolsa Família (segundo número). Os dados são do TSE (desprezei os algarismos depois da vírgula) e do Ministério do Desenvolvimento Social (setembro de 2014). Maranhão (78-58), Piauí (78-54), Ceará (76-47), Bahia (70-47), Pernambuco (70-47), Rio Grande do Norte (69-40), Sergipe (67-49), Paraíba (64-50), Amazonas (64-43), Alagoas (63-53), Amapá (61-33), Tocantins (59-38), Pará (57-46), Rio de Janeiro (54-17) e Minas (52-21).

Agora seguem os Estados em que Dilma perdeu, com os mesmos dados: Santa Catarina (35-07), São Paulo (35-11), Acre (36-42), Distrito Federal (38-12), Paraná (39-13), Goiás (42-19), Mato Grosso do Sul (43-21), Rondônia (45-26), Mato Grosso (45-22), Rio Grande do Sul (46-13), Espírito Santo (46-19) e Roraima (42-47).

Continue lendo