19:25Para Silvio Lohmann

A mãe disse que ele sempre foi anjo. Concordo e acrescento que até duas semanas atrás era também menino a caminhar sereno e tranquilo na estrada. Até o dia que disse com voz contida que o pai estava no hospital. Como um caminhoneiro que passou a vida cruzando este país maluco pode ficar doente? No leito do hospital o senhor de barba por fazer, magro, com sonda, também era meu pai de alguns anos atrás. Depois disso houve um intervalo em que um pedaço da natureza paradisíaca deste país lindo e absurdo permitiu o isolamento no oceano. No retorno, de novo a voz contida ao telefone. Saiu e voltou do hospital. Ontem à noite o início do descanso foi interrompido pelo som estridente de um celular que trouxe a notícia de uma forma estranha. O menino não encontrou palavras para dizer – e saiu lá um “teve problemas”. Foi o que conseguiu dizer para informar sobre a solução definitiva da passagem para o desconhecido. E de lá até há pouco, quando meu amigo completou uma eternidade ao lado do pai vivo e corpo morto, seu rosto se transformou e não era mais de um menino, apesar de continuar sendo anjo. De repente era um homem marcado pela dor da perda, que é eterna, mas também de grande aprendizado. Ele agora era o pai, não só das duas filhas adolescentes, mas como o pai dele, de nome Arno Arlindo Lohmann, o caminhoneiro que no leito do hospital sorria ao contar que dirigiu Scania sem nariz e muitos outros gigantes das estradas. Silvio Lohmann, na verdade, sempre soube dirigir a própria vida. Desde quando o conheci como teletipista da sucursal da Editora Abril até trilhar o aprendizado de um grande jornalista. Não mudou um nada na maneira de ser. Vai continuar assim, anjo, como garante a mãe, também menino, porque é, mas agora um homem que enche de orgulho quem tem o prazer de conhecê-lo.

18:19A CBF e a ferida incurável

A CBF quer apagar os 7 a 1 da Copa do Mundo, como se o massacre e o vexame sofrido diante da Alemanha fosse algo a ser esquecido com meia dúzia de jogos da seleção brasileira disputados em várias capitais brasileiras, principalmente os das Eliminatórias para o Mundial de 2018. A CBF continua em outros mundos, porque aquela ferida jamais sairá da alma dos brasileiros que amam o futebol. A única coisa “boa” que a goleada fez foi amenizar o trauma da final de 1950 quando o Brasil perdeu a decisão da Copa do Mundo para o Uruguai dentro do Maracanã – um resultado agora considerado normal.

 

18:01Itália devolve mensaleiro a país que não extraditou ex-terrorista

por Ricardo Noblat

Perdoem o lugar comum, mas o governo da Itália deu “um tapa com luva de pelica” no rosto do governo do Brasil ao autorizar a extradição de Henrique Pizzolato, cidadão italiano, ex-diretor de marketing do Banco do Brasil, condenado a 12 anos e sete meses de prisão pelos crimes de corrupção passiva, peculato e lavagem de dinheiro no processo do mensalão – o pagamento de propinas a deputados e partidos para que votassem na Câmara em 2005 como mandava o governo do então presidente Lula.

Cesare Battisti é um escritor e um ex-terrorista italiano, antigo membro dos Proletários Armados pelo Comunismo (PAC), grupo de extrema esquerda ativo na Itália no fim dos anos 1970. Em 1987, ele foi condenado por terrorismo à prisão perpétua pela autoria direta ou indireta dos quatro homicídios atribuídos ao PAC. Escapou de ser preso porque fugiu para a França. E, para não ser extraditado, de lá para o Brasil. 

Em 2007, o governo da Itália pediu a extradição dele, autorizada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em 2009.

Ocorre que pela primeira vez, o STF decidiu que a última palavra caberia ao presidente da República. E Lula, no último dia do seu segundo mandato, pressionado pela esquerda do PT, negou a extradição. Baseou-se em um parecer da Advocacia Geral da União que alegava que se Battisti fosse extraditado correria risco de morte devido às condições precárias das penitenciárias italianas. De mais a mais, como preso político, ele também correria riscos, segundo Tarso Genro, então ministro da Justiça.

Políticos italianos de todas as tendências condenaram a decisão de Lula. Por meses, o Brasil foi alvo de pesadas críticas nos meios de comunicação da Itália. Como dizer que as penitenciárias italianas não oferecem condições dignas de vida? Como afirmar que Battisti correria risco de morte por ser um preso político? Na Itália, ele não é considerado um preso político, mas um terrorista ou ex-terrorista. A Itália é um país democrático que garante a vida dos seus cidadãos. O Brasil pisou feio na bola.

A defesa de Pizzolato argumentou com as péssimas condições dos presídios brasileiros para tentar evitar a extradição dele. O governo brasileiro se comprometeu a manter Pizzolato na Penitenciária da Papuda, em Brasília, elogiada pelos mensaleiros que cumprem pena. O governo italiano acreditou na palavra do nosso. Quatro agentes federais irão buscar Pizzolato na próxima semana.

17:58É proibido proibir

Na Boca Maldita a piada do dia informa que, já que não vai poder invadir novamente a Assembleia Legislativa, o sindicato dos professores vai protestar dentro do prédio do Tribunal de Justiça contra a ordem judicial que impede o sapateado em cima das mesas dos deputados estaduais.

17:39O dinheiro e a maconha

Pepe Mujica, ex-presidente do Uruguai, disse que quem gosta muito de dinheiro não deveria entrar na política. Imediatamente no Brasil todos os salafrários que metem a mão no jarro público como quem bebe um copo de água começaram a espalhar que a frase é resultado da maconha que Mujica fuma diariamente há meio século.

 

14:23Filmes para comer

por Ruy Castro

Na tela, James Stewart e Kim Novak se abraçam e se beijam desesperadamente. As ondas explodem nos rochedos ao compasso da música de Bernard Herrmann e criam uma atmosfera de espuma e mistério. Ele já se apaixonou por ela. Ela não quer, mas está se apaixonando também. O filme, claro, é “Um Corpo que Cai” (1958), de Hitchcock. De repente, vem da minha esquerda um cheiro de chulé. Por coincidência, alguém abrira por ali um Cheetos de queijo. Achei que Stewart e Kim iriam fazer bleargh e desistir do beijo.

Se há um filme de que sou íntimo é “Um Corpo que Cai”. Vi-o três vezes em seu lançamento no Brasil, há uns 400 anos. Revi-o numa gloriosa noite de 1966, quando os cinéfilos do Rio foram ao Cine Paissandu para se despedir dele (a última cópia então existente no país seria incinerada, como mandava a lei). E voltei a vê-lo em 1984, num festival de filmes de Hitchcock com a presença do próprio James Stewart, a quem entrevistei para a Folha (Kim Novak, eu já entrevistara para o “Correio da Manhã” em 1967). E não sei quantas vezes, nos últimos 30 anos, passei-o para mim mesmo, em VHS, laser disc e DVD. Só pode ser amor.

Há dias fui assisti-lo em sessão especial numa tela de cinema. Não há nada igual. Só ela faz justiça à beleza da cenografia e da fotografia e à combinação de música e montagem –Herrmann compôs a música em cima do filme já montado. E também porque estamos numa sala com centenas de pessoas. O cinema exige essa emoção coletiva.

Até que o cheiro do queijo empesteou as filas e as vidas ao redor. Foi quando percebi um incômodo ruminar na vizinhança –eram as pessoas mastigando pipoca. Temi que isso perturbasse a concentração de Stewart e Kim para dizer os diálogos.

A qualquer hora dessas, um personagem vai descer da tela e mandar a plateia ir comer lá fora.

*Publicado na Folha de S.Paulo

11:52O pequeno príncipe no reino de Bruzudunga

por Mané Galo, da Ilha do Chapéu, na Baía de Guaratuba

O livro “infantil” mais famoso do mundo, O Pequeno Príncipe,  é o mais lido e citado pelas candidatas em concurso de beleza.

- Gosta de ler, senhorita? -

-Sim.

-E qual o último livro que leu?

- O Pequeno Príncipe.

Isso já foi ouvido centenas de vezes nas transmissões desses concursos. Nesse livro, o Príncipe chega a um planeta onde reina um sujeito que acha que manda em tudo: no povo, nas matas, nos rios etc. Quando o Príncipe pede que ele faça aparecer o por do sol, que tanto gosta de ver, o Rei se manca e afirma que isso não dá pra fazer. “Se eu pedisse que um general meu voasse como borboleta, quem estaria errado: eu ou ele? Eu, é claro. A gente só deve pedir a alguém o que esse alguém pode nos dar.” Essa última frase deveria ser a balizadora das ações do governo que a todo instante está inventando alguma coisa para pedir mais ao povo brasileiro. Pagamos caro pela gasolina, pela comida, pelos juros bancários e eles ainda pensam em outras formas de tirar mais de quem já nada tem para ser tirado.

11:46Justiça autoriza proteção policial à Assembleia e estabelece multa diária e reintegração de posse caso haja invasão

A Assembleia Legislativa do Paraná conseguiu liminar na Justiça que autoriza a proteção policial contra as anunciadas manifestações por conta da votação do “Pacote” de medidas do governo Estadual que deverão ser votadas na segunda-feira (27). No despacho, o juiz Eduardo Lourenço Bana estabelece que caso haja perturbação da ordem e invasão do prédio do Legislativo, como aconteceu recentemente, a APP-Sindicato pagará multa diária de 100 mil reais. No despacho fica determinado também a reintegração de posse, caso se repita a ocupação do prédio. O pedido foi feito pela Mesa Diretora da Alep porque o sindicato anunciou greve e manifestação para acompanhar a votação que inclui mudança na ParanaPrevidência. Confiram: Assembleia liminar

8:18O inferno no 11º Distrito Policial

A OAB/PR informa:

11º DP de Curitiba é o pior estabelecimento prisional do país, diz comissão nacional da OAB

Ambiente úmido, insalubre, infestado de ratos, sem qualquer condição de higiene e saúde, superlotação das celas e total desamparo jurídico. Esse foi o quadro encontrado durante a vistoria realizada pela OAB

Os membros da Coordenadoria Nacional de Acompanhamento do Sistema Carcerário (Coasc) do Conselho Federal da OAB classificaram o 11º Distrito Policial, na Cidade Industrial de Curitiba, como o pior estabelecimento prisional do país. A avaliação foi feita depois que os representantes do Conselho Federal e os membros da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos da OAB Paraná deixaram aquela carceragem, na manhã desta sexta-feira (24).

Ambiente úmido, insalubre, infestado de ratos, sem qualquer condição de higiene e saúde, superlotação das celas e total desamparo jurídico. Esse foi o quadro encontrado durante a vistoria – uma condição que chocou os representantes da OAB de outros estados. “Eu esperava encontrar no Paraná uma situação diferente. Foi uma grande decepção. Esse lugar é o pior entre os piores já vistoriados pela comissão em vários estados”, disse o coordenador nacional Adilson Geraldo Rocha.

Para o coordenador, essa situação expõe o estado do Paraná ao vexame. “Não existe defensoria pública. Como o Estado prende pessoas e não dá assistência mínima. Encontramos pessoas presas, sem sentença condenatória há mais de 4 anos. Vimos inúmeras pessoas presas porque não tiveram condição de pagar fiança de 200, 300 reais.  Isso é absolutamente inadmissível e já não acontece em vários estados da federação. Saímos altamente decepcionados com a situação jurídica dos presos daqui”, afirmou. Continue lendo

8:09Cercado para votar

O Centro Cívico será cercado por forças policiais para que os deputados estaduais aprovem a segunda parte do pacote onde estão incluídas as mudanças na ParanaPrevidência, segundo revela o jornal Gazeta do Povo. A intenção é evitar manifestações e invasões comandados pelo sindicato dos professores da rede estadual de ensino à Assembleia Legislativa, como ocorreu recentemente. Juntando lé com cré temos que nenhuma das partes exercitou naquela ocasião o direito democrático, cada vez mais sambado. Deu no camburão recheado de parlamentares, um vexame que entrou para a história, e, agora, se for confirmada a informação, no isolamento da sede do Legislativo que, por causa disso, só pode ser chamada de Casa do Povo de forma irônica.

7:30Aprendizado de vida

por Sergio Brandão

A sala fica no andar de baixo. Como se fosse um porão de uma casa, embora seja nova, de construção apropriada para receber os seus assíduos frequentadores. Mas é esta parte da casa que escolheram para receber um público bem seleto. Provavelmente porque precisa ser um espaço reservado, que mantenha o isolamento de quem quer sossego naquele momento tão doído, de colocar o cateter, de achar a veia, de fazer uma terapia longa, que debilita e que às vezes cansa.

Várias poltronas confortáveis, uma ao lado da outra, têm também um banquinho que serve de apoio aos parentes que acompanham os pacientes em tratamento da quimioterapia.

Na minha frente, um senhor reclama de dor ao filho que segura sua mão. O rapaz ouve o lamento do pai concordando, balançando a cabeça afirmativamente. Sinal de quem sabe o tamanho da dor que sente. Demostra sentir a mesma coisa em seu coração. Percebo que às vezes morde os lábios para não chorar na frente do pai.

A porta se abre, o filho corre em direção à médica que acaba de chegar. Ela ouve o apelo em nome do pai. Os dois – médica e filho – vão para um canto da sala, onde não possam ser vistos pelo senhor que reclama de dor.

O rapaz parece fazer um relato à doutora. Seguem na conversa por uns cinco minutos. Assim que terminam, a médica sai em atendimento a outros afazeres pela clínica em conversas que me parecem ordens à equipe de enfermagem.

Só depois segue até o paciente que reclama de dores. O filho observa de longe. Aproveita e solta o choro que segurava, um choro só de lágrimas, que não faz barulho. A doutora segura a mão do paciente e juntos negociam a internação dele. Ela apalpa a barriga do paciente onde imagino esteja doendo. A fala dele é mansa, cansada. A médica diz que vai aumentar a dose do remédio que ele recebe pela veia, mas que se a dor persistir, à noite vai precisar ser internado mais uma vez. O filho ainda chora num canto, agora consolado por uma mulher.

Logo chega uma nova enfermeira que ainda não tinha visto por ali. É a terceira vez que vou lá. Ela cumprimenta a todos e passa de um por um, como quem examina se o procedimento da terapia está correto. Educadamente conversa amenidades com cada um. Me olha e também sorri, me chamando pelo nome. Acho estranho, ainda não tínhamos sido apresentados. Demoro pra perceber que na verdade a figura estranha ali sou eu, com um procedimento fora do padrão, por isso ela sabia quem eu sou e que a minha aplicação é a única fora de todo aquele contexto, naquela tarde.

Ela me diz mais tarde que normalmente o ambiente é mais alegre, às vezes até parece encontro de velhos amigos que se encontram para um dia de conversa na clínica. Naquele dia, especialmente por conta do senhor, que sentia dores, junto com seu filho, que também tinha dores no coração, passavam pelo primeiro grande teste em determinada fase do tratamento. O silêncio dos demais era de respeito. Se eu fosse mais atento, teria percebido antes que o ambiente tinha mesmo ares que conspiravam a favor da vida.

No meio da minha aplicação – uma injeção – a enfermeira me pergunta se está doendo e se está tudo bem comigo. Antes de responder, lembrei de cada um dos pacientes que passavam por mais uma etapa do tratamento de quimioterapia na sala ao lado. A injeção que ela me aplicava estava doendo, mas tive vergonha de reclamar, como estou com vergonha de reclamar que ainda dói. Minhas dores não são aquelas, nem de perto.

Este aprendizado é a maior de todas as minhas maratonas. Fico atento, tentando aprender com cada uma destas histórias. Cada uma delas conta um pedaço de vida importante para alguém.
Viva a vida!