12:06Multidão

por Nelson Rodrigues

- Eu era uma das quase 200 mil pessoas presentes. Aconteceu, então, que perdi qualquer sentimento da minha própria identidade. Tornei-me também multidão. Se, de repente, o povo começasse a virar cambalhotas, e a equilibrar laranjas, e a ventar fogo, eu faria exatamente como os demais. E, então, senti que a multidão não só é desumana, como desumaniza.

- Como entender as multidões se elas não falam, não pensam, não sabe e vivem da pura e irresponsável euforia numérica?

- Aí está o milagre da multidão, ainda que seja pequena. Há um fulminante nivelamento intelectual por baixo. O sujeito que se mete no meio de trezentos idiotas será um deles.

11:49O nó da Baixada

Quem entende do nó que há com a dívida das obras do estádio Joaquim Américo para a realização dos jogos da Copa do Mundo resume a coisa em brasileiro:

O problema é divisão do valor cheio pelo acordo tripartite. A Prefeitura de Curitiba segue dizendo que havia um limite. O Atlético Paranaense o Estado do Paraná cravam que o valor cheio da dívida deve ser dividido em três.

8:32Uma mala e a nova técnica de Bolsonaro

Renato Terra estreou hoje na Folha de S.Paulo. Para citar apenas uma de suas “obras”, escreveu o “Diário da Dilma” na revista piauí. Seguem duas notas e, na sequência, o texto principal da coluna. 

- A declaração de Fernando Segovia, novo diretor da Polícia Federal, pode ter efeito retroativo. Segovia disse que uma única mala talvez não fosse suficiente para incriminar Michel Temer. Fernando Collor entrou com recurso alegando que “um único Fiat Elba” não provoca um impeachment. E Geddel Vieira Lima pediu para Segovia ser mais específico: afinal, quantas malas de dinheiro são suficientes para incriminar alguém? Caixa de papelão conta como mala?

- Cansado de ser confrontado com questões importantes que não tem ideia de como responder, Jair Bolsonaro vai adotar uma nova técnica. Em vez da já tradicional “eu consultaria meus economistas”, o deputado vai retrucar o interlocutor com a frase “pergunta no Posto Ipiranga”.

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8:14Espuma adocicada

por Yuri Vasconcelos Silva

Estava ele nu com dezenas de fios finos e fortes em água esquentando seu rosto. Olhos fechados, cabeça empinada para o alto. Turbilhão em redemoinhos no canal auditivo fazia ele ouvir mais o interior que todo o resto. O som do ar deslizando em pulmões, da jugular bombeando, da saliva descendo engolida. A paranóia costumeira surge. A regra de, estando vulnerável e despido, jamais fechar os olhos para um possível ataque neste box branco. Então arregala a visão e o que acha? Um pernilongo pousado sobre uma sobra de sabonete. Ele aproxima o olhar no inseto e descobre um mundo. O bichinho está sugando o que poderia ser a doce seiva do sabão de macadâmia. Ele fica um bom tempo a observar aquela estrutura tão frágil se encher de espuma adocicada. Há felicidade nas menores criaturas? Ali sim.
Que coisa fantástica é a felicidade e o sofrimento. Basta ser vivo para estar no céu ou no inferno.

8:01JORNAL DO CÍNICO

Do Filósofo do Centro Cínico

O controle da presença com ponto eletrônico nas repartições públicas do estado vai promover uma evolução tecnológica: aquele funcionário cujo paletó na cadeira indica sua presença o ano inteiro, vai inventar, patentear e ficar rico com a geringonça que o faz comparecer ao local sem sair da cama.

7:51E pro Sul… nada!

Do analista dos Planaltos

A Região Sul do Brasil, ao o lado do rico Sudeste brasileiro, não possui linhas de financiamentos próprios pois existe dinheiro farto para o Nordeste, Norte e Centro-Oeste. No relatório do uso dos mais de 10 bilhões de reais do Fundo do Centro Oeste (FCO) (ler no link abaixo) existem áreas com recursos para irrigação, parques tecnológicos, micro e pequenas empresas, além de estímulo ao plantio da sulista erva-mate. Para quem vê o declínio da produção de erva-mate no Paraná e o esforço de plantio de seringueira no noroeste paranaense, é interessante ver dinheiro federal ir para Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, enquanto por aqui falta[ – e muito. Não é discriminação?

7:26Revolução de Outubro, 100 anos

Por Ivan Schmidt 

O artigo final da série “Revolução de Outubro 100 anos” será publicado na penúltima sexta-feira de dezembro, encerrando as considerações históricas sobre um dos marcantes acontecimentos do século 20, no ensejo do transcurso de seu primeiro centenário.

Foi uma colaboração propositiva com os frequentadores do espaço, pelo menos na avaliação do autor, que ao mesmo tempo sente-se gratificado por tentar trazer à luz uma discussão – ou fragmentos dela – envolvendo fatos ocorridos no período de um século.

Com a morte de Stalin em março de 1953, o império vermelho perdeu aquele que mais que um chefe hierático – segundo o historiador francês François Furet – havia implantado uma espécie de sacerdócio adorado pelas massas em contínuo movimento.

A morte do líder inconteste encerrou uma época, ninguém discute, embora tivesse erigido o paradoxo “de um sistema pretensamente inscrito nas leis do desenvolvimento social e no qual tudo depende de tal maneira de um único homem, e, uma vez desaparecido esse homem, o sistema perdeu algo que lhe era essencial”, sublinhou.

O historiador traçou um paralelo entre as mortes de Stalin e Hitler reiterando que não há nada que possa aproximá-las: “O ditador alemão – que se inventou a si mesmo e, ao mesmo tempo, ao seu regime – suicidou-se uma vez vencido, deixando atrás de si apenas ruínas. Stalin, porém, era um herdeiro, um vencedor, um fundador de império; morreu mais poderoso do que jamais fora, alguns anos depois de ser festejado, em seu 70º aniversário, como um gênio universal”.

Sucessor de Lenin, Stalin empalmou a posição mesmo não sendo o único dos pretendentes, utilizando todos os recursos assistidos pela astúcia ou pela força, quase sempre necessária, eclipsando os rivais pelo uso de férreo poder “antes de reduzi-los pelo assassínio e pelo exílio, ou os dois juntos, como no caso de Trotski”.

Como peças distintas do arcabouço construído por Lenin, o novo ditador passou a manipular como cordéis que direcionavam as ações para a consecução do poder absoluto, as ferramentas facilitadoras representadas pelo partido único, a ideologia bolchevique, o terror e a polícia política.

Diga-se de passagem, elementos concretos que sustentaram durante décadas o exercício do poder e forjaram uma das ditaduras mais cruéis e vingativas da era moderna.

Furet diz que o georgiano se apropriou dessas vantagens e “as uniu num sistema de governo ‘asiático’, que coroa com o extermínio do campesinato como ‘burguês’: assim, ele pode tanto quanto qualquer outro reivindicar a ideia original. Tanto, e talvez melhor: pois seu trunfo principal é ter feito durar esse regime tão pouco propício a durar; ter prolongado, e até mesmo relançado, a ilusão revolucionária, ao mesmo tempo em que a constituía como uma cadeia de autoridade primitiva, mas obedecida”.

O historiador lembra que Trotski, “letrado demais para o que tinha de terrorista, quase certamente teria fracassado”, e o “gentil Bukharin teria dilapidado o tesouro familiar num retorno bem temperado ao capitalismo”.

Com a vitória na Segunda Guerra, Stalin transformou a União Soviética num império e numa superpotência, agregando à ideia comunista um prestígio jamais imaginado.

Nas palavras do autor de O passado de uma ilusão (Editora Siciliano, SP, 1995) “o Estado soviético encontrou uma base mais regular. Não que ele seja menos arbitrário ou menos despótico, não que a repressão de massa tenha cessado, já que pelo contrário, ela recomeçou; mas a tribuna do Kremlin mostra os mesmos dirigentes a cada aniversário de Outubro, e a máquina burocrática possuiu um verniz ‘moderno’ que um partido todo-poderoso e, contudo, submetido a uma dizimação sistemática conduzida por um grupo variável de comparsas ao redor de um chefe de bando imprevisível, não tinha antes da guerra”. Continue lendo

18:00ZÉ DA SILVA

Eu queria ver o mar. De qualquer forma. Na semana da excursão, o corpo todo pipocou – e tudo coçava. Não pode ir, sentenciaram. Fiquei mais doente. Quero! O não estava entranhado na alma – e doía muito quando ele era futucado de fora. Talvez pelo fato de ter sido tirado à fórceps da barriga da mãe… vai saber. Fui. Desci do ônibus e saí correndo ver o espetáculo das ondas. Fiquei ali na beira, onde só a espuma suave lambia os meus pés. Olhei tanto que me veio a ideia de que aquela força que criava as ondas era como a dos meus sentimentos trancados desde que me entendi por gente. Não desconfiei que os que me levaram tinham me deixado só – e sob o sol. Tudo queimava, mas eu não sentia. Quando me dei conta não via mais os pés – e as pernas estavam enterradas até os joelhos; mas não me incomodei. De repente não havia mais ondas, mas vagalhões – e meus sentimentos não tinham nada a ver com aquilo. Fui espancado por aquela brutalidade e encoberto pela água salgada. Mas… estranho… não estava me afogando. Só não sabia o que fazer. Imóvel e quieto permaneci. Um peixinho colorido mordeu meu lábio inferior. O corpo nu não tinha mais sinais da doença. Fiquei ali. Estou aqui. Esperando a maré baixar.

17:45JORNAL DO CÍNICO

Do Filósofo do Centro Cínico

Uma foto de Cida Borghetti dando entrevista para trocentos repórteres, depois do encontro dos governadores com Michel Temer, fez muita gente achar que ela deveria se candidatar ao principal cargo do Executivo lá mesmo, em Brasília.