21:24TICIANA VASCONCELOS SILVA

No peito arde a mais inglória dor
Sangrando palavras mórbidas
Corroendo os dentes imóveis
Sussurrando sombras e mistérios

No peito vive a mais espantosa flor
Como se de mantos velhos se cobrisse
Como se abrisse e sumisse
Como se na primavera se abrumasse

Espantos do dia, luzes da noite
Solenes curvas que sobrecarregam o que ainda está por vir
Porvir sem constatações
Cantos sem objeções

No sangue a matéria inconstante
Permanecendo vítima do ritmo moribundo do mundo
Sonhos estranhos
Tamanho o desassossego
Desenho raso de um mar sem cor

O verbo rasgado e usado
Sem dar movimento, estagnado
Urso hibernando
Poema sem vigor

E na pele amaldiçoada
A cinza esparramada
Os olhos trêmulos
O gesto do desamor

19:59Eva Todor, adeus

Do G1

Morre aos 98 anos a atriz Eva Todor, no Rio

Morreu em casa às 8h50 deste domingo (10) a atriz Eva Todor, aos 98 anos. A causa da morte foi pneumonia. A atriz será cremada, e o velório será realizado na segunda-feira (11), das 9h às 11h, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro.

Com mais de 80 anos de carreira no teatro e na TV, Eva sofria de Mal de Parkinson e Alzheimer, além de problemas cardíacos, e vivia reclusa em sua casa, na Zona Sul do Rio. Seu último trabalho na TV foi na novela “Salve Jorge”, de 2012.

Eva estava em internação domiciliar (home care) desde o dia 9 de setembro deste ano. Antes, a atriz havia sido internada na Casa de Saúde São José, na Zona Sul do Rio. Ela era viúva e não tinha filhos.

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12:02ZÉ LIMEIRA

A virgem Maria estava
Brigando com São José:
Você vendeu a jumenta
Me deixou andando a pé
Desta maneira eu termino
Voltando pra Nazaré!

Nisso gritou São José
Maria, deixa de asneira!
Vou comprar outra jumenta
Do jeitinho da primeira,
Quando ouviram uma zuada
No descer duma ladeira
Era um caminhão de feira
Que vinha da Galileia.
São José disse eu vou ver
Se tem canto na boleia
Que possa levar nós três
Até perto da Judeia!

São José deu com a mão,
O motorista parou.
Tem três canto pra nós três?
Jesus foi quem perguntou.
Disse o motorista tem,
Jesus respondeu eu vou!

E foram subindo os três.
Disse o motorista: pára!
A gasolina subiu
A passagem é muito cara.
Vocês estarão pensando
Que meu carro é pau-de-arara?

São José puxou da faca
Pra furar os pneus.

Jesus já muito amarelo
Disse assim quando desceu:
Valha-me Nossa Senhora,
Que diabo fizemos eu?!

11:25Este Brasil

por Janio de Freitas

Ninguém, parece mesmo que ninguém, tenta pensar o Brasil em seu pleno sentido e em seus possíveis amanhãs. É um país sem estratégia, sem ideia do que é e conviria vir a ser no mundo. Na grande tecitura internacional, não vive do que faça para uma inserção desejada, mas do que cada dia lhe traz. Segue adiante porque os dias se sucedem. Condicionado integralmente pelo mundo exterior, perplexo, lerdo, segue.

Com uma gama invejável de minérios, tantos outros recursos e grandes necessidades de consumo, nunca teve uma política industrial. País de latifundiários e fazendeiros, suas políticas agropecuaristas são mera distribuição discricionária de dinheiro e privilégios, de uso à vontade. E nem isso, para uma ciência coordenada com objetivos nacionais e contingências externas.

É difícil pensar um país assim. É difícil pensar mesmo o Brasil atual, o país de hoje. Já a partir do mais grotesco e rudimentar na situação imediata: como explicar, por exemplo, o convívio familiar entre a empolgação generalizada com os êxitos contra a corrupção e, de outra parte, a tolerância indiferente com a Presidência da República ocupada e usada por um político acusado de corrupção, formação de quadrilha, obstrução de justiça, e salvo de processos mediante a corrupção de deputados com cargos e verbas do Orçamento?

Presidência povoada por notórios como Moreira Franco, marginais como Geddel Vieira Lima, acusados como Eliseu Padilha, e deputados, senadores e ministros com lastros semelhantes na polícia e na Justiça?

É difícil pensar um país assim, capaz de contradição tão corrosiva.

Mas esse país é o da contradição em que militares americanófilos e a classe dominante deram um golpe em nome da democracia e por 21 anos aprisionaram a nação na ditadura. Muitos dos artífices dessa contradição ali completavam uma outra, de que foram parte quando em 1945 derrubaram o Getúlio para o qual deram um golpe e impuseram uma ditadura.

Convertidos à democracia, como diziam, em sua pequena convivência com oficiais americanos na Itália da Segunda Guerra, os derrubadores de Getúlio ajudaram a entrega do poder, por via de “eleição democrática”, ao general que sustentou a ditadura até a queda. A vasta fraude que contribuiu para o resultado eleitoral, movida pelos “coronéis” do interior, foi silenciada a pretexto de não se desmoralizar a primeira eleição da “democracia”.

Contradição em cima de contradição. O normal no país em que os primeiros bafejos de democracia vieram de uma ditadura, com a legislação social de Getúlio –inclusive as Leis Trabalhistas agora estupradas.

É difícil desenvolver a compreensão desse Brasil, tão inculto, tão controvertido, tão amalucado. Esse Brasil exultante com as ações contra a corrupção e indiferente à ocupação de sua Presidência por uma declarada quadrilha de corruptos.

O Brasil é você. O Brasil somos nós.

*Publicado na Folha de S.Paulo

9:34JORNAL DO CÍNICO

Do Filósofo do Centro Cínico

Se for comprovado que o PT recebeu grana do Khadaffi, o partido acaba. Quem quiser continuar na política vai se filiar a quem ganhar a eleição presidencial no ano que vem – o PSDB, por exemplo.

9:29O apoio

Do comentarista esportivo

Nos bastidores do Coritiba se comenta que a eleição ganha por Samir Namur era certa, mas tudo ficou mais fácil quando o ex-presidente Vilson Ribeiro de Andrade gravou um vídeo pedindo apoio para o candidato Pedro De Castro, que ficou em último lugar. Os ex-presidentes Giovani Gionedis e Joel Malicelli estavam com João Carlos Vialle, que ficou em segundo lugar.

8:53Meus heróis morreram de… velhice

Meus heróis não morreram apenas de overdose – eles estão morrendo de velhice – e alguns em situação como a de Luiz Carlos Maciel, pedindo emprego nas redes sociais e encalacrado na penúria financeira. A flor do mal… a flor do mal. Meus exemplares do semanário que ele fez nascer no início dos anos 70 a partir do grande Pasquim, onde escrevia sobre a contracultura, underground, essas coisas que mexerem com nossos hormônios, nossas cabeças incultas, pobres e suburbanas do país que não tem e não vai ter jeito, meus cinco exemplares de uma experiência fora da curva, fora da linha, para fundir a cuca e repensar a vida, o visual impresso, a alma carente, ah, eu carreguei-os como pude, nas mudanças de casas, junto com os panos de bunda, procurando o que não é encontrável, porque a busca é que vale. Até o dia em que fiz o correto: doei-os à Biblioteca Pública, junto com os números da primeira Rolling Stone editada no Brasil, também dirigida pelo Maciel, e, todos os exemplares do Pasquim bebidos desde o número da entrevista com Leila Diniz, quando aqueles senhores da República de Ipanema mostraram o que sabíamos: todo mundo fala palavrão, mas ninguém escrevia – pior, eram capados. Os asteriscos saídos da boca linda da musa abriram caminho para muita coisa. Meus heróis… Millôr Fernandes, Ivan Lessa, Paulo Francis, Fausto Wolff… eles foram embora antes do Maciel, flor do bem que, educado, respondeu a emails disparados quando da notícia de sua procura por trabalho. Ele filósofo, escritor, roteirista da Globo durante anos, homem lindo, como descreveu Caetano Veloso no seu pranto pelo encantamento do grande gaúcho, carioca e baiano, protagonista do primeiro filme de Glauber Rocha, outro brasileiro doido e dínamo capaz de produzir um mundo de ideias para sacudir pasmaceiras como esta de agora dos radicais babacas de um lado e do outro da burrice que revela que país é este. Gabriel Garcia Marques se junta a Armando Nogueira porque é preciso ter história pra contar e, melhor, com a possibilidade maravilhosa de se poder editar o passado. Para quem acha que o futuro chegou porque sabe escrever qualquer baboseira com os dois dedões no teclado digital das maquininhas viciantes, os meus heróis morreram de overdose e também de velhice, mas eram privilegiados porque tinham a essência: o talento – e cuidaram dele.

20:55JAMIL SNEGE

Para onde vai o canto,
depois que os
lábios se fecham?
Para onde vai a prece,
depois que
o coração silencia?
E os rostos que amamos
para onde vão, Senhor?
depois que nossas
pupilas se transformam
em gotas de lama?
Ontem vi uma andorinha
que devia ter uns
cinco milhões de anos.
Será que eu também
sobreviverei
ao que restar de mim?

20:35Luiz Carlos Maciel, adeus

Do jornal O Globo

Morre, aos 79 anos, o escritor e filósofo Luiz Carlos Maciel

Autor foi uma das figuras-chaves do movimento underground nos anos 1970 e 1980

Morreu na manhã deste sábado, aos 79 anos, em decorrência de uma falência múltipla de órgãos, o filósofo, escritor, diretor teatral, dramaturgo e jornalista Luiz Carlos Maciel. A informação é da sua filha, Lucia Maciel.

Nascido em 1938, em Porto Alegre, Maciel foi uma figura-chave da contracultura no Brasil. Colaborador do semanário “O Pasquim” e diretor de redação da versão nacional da revista “Rolling Stone”, é autor de 12 livros, como “Geração em transe, memórias do tempo do tropicalismo” (1996), em que aborda diferentes momentos e obras da contracultura brasileira.

Em 1959, depois de ganhar uma bolsa da Universidade da Bahia, conheceu Glauber Rocha, de quem se tornaria amigo, e atuou no primeiro curta-metragem do diretor, “A cruz na praça”. Graças a uma bolsa da Fundação Rockefeller no ano seguinte, estudou direção teatral no Carnegie Institute of Technology, em Pittsburgh, Estados Unidos.

De volta ao Brasil ganhou fama com a coluna “Underground”, no “Pasquim”, em que tratava de temas da contracultura. Lá, ganhou o apelido de “papa do underground”. No semanário, ficou próximo de Paulo Francis, Ziraldo e Millôr Fernandes. Em 1970, chegou a ficar dois meses preso pela ditadura militar. Atuou ainda em veículos como “Jornal do Brasil”, “Última Hora” e “Veja”, entre outros, escrevendo colunas e críticas teatrais.

A partir dos anos 1960, Maciel colaborou em importantes espetáculos teatrais. Em 1967, participou do processo de criação da linguagem da montagem de “O rei da vela”, de Oswald de Andrade, pelo Teatro Oficina. É dele a direção da primeira peça de Plinio Marcos, “Barrela”, censurada já na sua estreia, em 1968. Também dirigiu os espetáculos “Boca molhada de paixão calada” (1991) e “Brida” (1991), “Fantoches” (1995), “Jango, uma tragédia” (1996), entre outros.

Formado em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Maciel escreveu, em 1969, “Sartre, vida e obra”, uma biografia do filósofo e escritor francês.

Durante vinte anos, trabalhou como roteirista da Rede Globo. Em 1968, escreveu o roteiro de “O homem que comprou o mundo”, dirigido por Eduardo Coutinho. Em 2003, Maciel publicou um livro reunindo seus conhecimentos na área, “O poder do clímax — Fundamentos do roteiro de cinema e TV”, relançado este ano.

Em entrevista ao GLOBO em março deste ano, Maciel brincou com sua fama de “polímato” (pessoa que detém conhecimentos em áreas completamente distintas).

— Alguns polímatos se transformam no Leonardo Da Vinci, fazendo tudo com perfeição. Outros se transformam em mim, que é isso que vocês estão vendo — disse.

Apesar das múltiplas competências, Maciel usou seu perfil de Facebook, em 2015, para publicar um desabafo sobre a falta de oportunidades profissionais nos últimos anos. Sem emprego e com a saúde debilitada, ele vinha sofrendo dificuldades financeiras. Continue lendo

19:01Soldado que pensa

O general Antonio Hamilton Mourão foi apeado da secretaria de Economia e Finanças do Exército depois que abriu a boca para repetir coisas como intervenção militar no país e também criticar o presidente Temer, que é seu chefe maior. A nova patuscada aconteceu no meio da semana e, registre-se, foi revelada graças a um furo nacional da Gazeta do Povo. Mourão, que se aposenta em março de 2018, foi transferido para o cargo de adido da Secretaria-Geral do Exército. Em ocasiões como essa nunca é demais lembrar uma das grandes frases de George Bernard Shaw a respeito: “Nunca espero nada de um soldado que pensa.”