19:03O primeiro

por Jamur Junior

Jornais anunciam Maju Coutinho como a primeira mulher negra a apresentar o Jornal Nacional. Vale lembrar que o primeiro apresentador negro no jornalismo televisivo foi Narciso Assumpção, que encontrei na redação da Tribuna do Paraná e levei para apresentar o primeiro telejornal, às sete da manha (em 1975) com o nome de Café com Leite. Narciso era ator, jornalista e o rei da simpatia. Revelou-se ótimo apresentador – e melhor repórter com uma câmera na mão. Certa ocasião, vestiu-se de mendigo e ficou na porta de uma igreja o dia inteiro recebendo “esmolas” e estudando o comportamento do povo diante da miséria alheia. Fez sucesso no telejornal cujo nome foi dado por Renato Schaitza,um dos melhores jornalistas da TV em todos os tempos. Ele dedicou um pouco de seu talento para a organização do novo programa jornalistico exibido na TV-Paraná-Canal 6 nos primeiros dias da administração de José Carlos Martinez. Lembro ainda que o repórter policial que abastecia o Café com Leite de noticias do setor era Alagací Túlio, que nesse programa fez sua estéria na TV. Ufa, ficou longo, más é história, não é?

 

18:58A linguiça e os bolsoviques

De Rogério Distéfano, no blog O Insulto Diário

A atualidade exige que se fale dos assuntos atuais, com perdão pela redundância. E por atualidade entenda-se o capitão Bolsonaro e seus miquinhos amestrados – que, como os três mosqueteiros, têm mais um, Leonardo de Jesus, sobrinho do presidente e olheiro-informante-fofoqueiro do filho Carlos, instalado por este no quarto andar do Palácio do Planalto, sem cargo, sem salário, mas com o crachá de livre movimentação no gabinete do tio e adjacências.

O Capitão (a letra capital isolada tem sentido no Brasil de hoje) desafia os espectadores e analistas da atualidade. Bolsonaro é aquele tipo de pessoa que desacontece, como diz uma leitora do Insulto sobre sua digníssima progenitora: ela nega hoje o que disse e fez ontem. É o desacontecer, negar o que foi feito, atribuindo a autoria a outra pessoa, não raro àquela que lembra e cobra o acontecido. O Capitão quase chega ao requinte do desacontecer.

Assim, confiram o noticiário de hoje, ninguém se aventura além do condicional: Bolsonaro teria já assinado a demissão do ministro Gustavo Bebianno. Os bolsoviques, estalinistas de direita, têm explicação: estratégia do Capitão para confundir a imprensa; um “golaço”, como li na semana – Bolsonaro fez que ia demitir Bebianno, deixou os jornais, a Rede Globo principalmente, anunciarem e, fechadas as edições, avisou que iria demiti-lo. Quem sabe aconteça, ninguém garante.

Os bolsoviques não revelam qual a utilidade, o ganho, a vantagem da estratégia brilhante, o “golaço” de retardar o anúncio da demissão. Sem experiência, como os bolcheviques originais, não atinam para a explicação – na realidade, a desculpa – para um possível recuo do Capitão, induzido pelos generais que o cercam ou pelo risco à aprovação das reformas. Portanto, isto aqui é mera encheção de linguiça. Porque amanhã tudo pode mudar.

17:44Falou, mas não faz

Do Analista dos Planaltos

Ao nomear o filho de Rubens Bueno para o escritório do governo em Brasília, Ratinho Júnior mostra que seu discurso é muito diferente de suas ações. Ele nomeia filhos de políticos,  ex- vereadores, ex-prefeitos. O pragmatismo é o mesmo, mas o problema não é fazer isso, mas sim ter dito que não faria! Tudo igual na República do Paraná! Por isso tem gente com muita saudades do Requião!

17:31Delator de Beto Richa diz que propina pagou hotel e comida na campanha

O Antagonista

Em depoimento à Lava Jato, Nelson Leal Júnior, ex-diretor do DER do Paraná, descreveu três pedidos de propina, em um total de R$ 220 mil, em 2014 e 2015, ao então presidente da Econorte, Helio Ogama, registra o Estadão.

Segundo o delator, a propina pagou hotel, gasolina e até comida da campanha de Beto Richa.

“José Richa Filho orientou o colaborador a procurar alguma empresa que tivesse contrato com o DER para que ela arcasse com as despesas inerentes ao deslocamento e realização da campanha. O colaborador procurou o então presidente da Econorte, Helio Ogama, e solicitou a este o valor de R$ 80 mil”, disse.

9:15Nos EUA, mexe-se na ‘bosta seca’

por Elio Gaspari

Oito em cada dez magistrados brasileiros querem importar o instituto saxônico do “plea bargain” sem que exista sequer tradução consolidada dessas palavras para o português. O ministro Sergio Moro fala em “solução negociada”. Trata-se de aceitar que um réu reconheça sua culpa, negocie um acordo com o Ministério Público e obtenha alguma leniência do juiz.

Muito bonito na teoria, mas a prática será outra. O Brasil importou o mecanismo da delação premiada e criou o monstrinho da doutrina da “bosta seca”. Em 2015, quando o doleiro Alberto Youssef disse numa audiência em Curitiba que um outro réu mentira em sua delação e ofereceu-se para uma acareação, um procurador disse que “esse é o tipo de coisa que quanto mais mexeu, pior fica.” Em seguida, ouviu-se: “É igual a bosta seca: mexeu, fede”.

Os pacotes de bosta foram remetidos às instâncias superiores, e poucas delações foram anuladas por mentirosas. O direito saxônico funciona melhor que o brasileiro, mas a pirataria de mecanismos obrigará orquestras de frevos a tocar rock.

Na semana passada, a juíza americana Amy Jackson, que está com um dos processos que infernizam a vida de Donald Trump, mostrou como as coisas funcionam por lá. Em junho, ela mandou para a cadeia Paul Manafort, o poderoso chefe da campanha eleitoral do presidente. Em setembro, ele se declarou culpado e fez um acordo de colaboração. Em novembro, o procurador Robert Mueller Jr. informou à juíza que Manafort mentiu em diversos pontos de sua confissão.

A juíza estudou o caso, entendeu que ele mentiu e desobrigou-se de tratá-lo com leniência. Manafort, de 69 anos, está com a saúde em pandarecos. A sentença virá em março e ela pode lhe dar até dez anos de prisão. Manafort, um dos homens mais poderosos de Washington, dificilmente sairá vivo da cadeia.

A PRIVACIDADE DE MORO

Em Brasília, o ministro Sergio Moro foi do noviciado ao folclore em menos de dois meses.

Quando lhe perguntaram se, dias antes da edição do decreto que facilitou a posse de armas, encontrou-se com hierarcas da indústria Taurus, deu a seguinte resposta: “O direito à privacidade, no sentido estrito, conduz à pretensão do indivíduo de não ser foco de observação de terceiros, de não ter os seus assuntos, informações pessoais e características expostas a terceiros ou ao público em geral”.

Madame Natasha intrigou-se com a vontade de Moro de ficar fora das vistas do “público em geral”. Mandava melhor Armando Falcão, seu antecessor de 1974 a 1979, com o famoso bordão “nada a declarar”.

Faltou sorte a Moro. Na mesma semana, a Alta Corte do Reino Unido julgou o caso dos endinheirados proprietários de um prédio vizinho ao museu Tate que reclamavam porque binóculos colocados no terraço devassavam suas casas. O juiz Anthony Mann mandou-os passear e sugeriu que fechassem as cortinas ou baixassem as persianas.

*Publicado na Folha de S.Paulo

7:19Maju

Ao ler a manchete da FSP afirmando que a jornalista Maju Coutinho “se torna a primeira mulher negra a apresentar o Jornal Nacional”, um amigo do blog corrigiu: “Maju Coutinho é mais uma mulher bonita e competente a apresentar o JN”.

7:14Permissão para matar

De Rogério Distéfano, no blog O Insulto Diário

Jair Bolsonaro tem cinco filhos, de três casamentos. Aos filhos carinhosamente chama por números, adotando, como no quartel, a ordem numeral de precedência. Carlos, por exemplo, é o 02.

O pai apelidou Carlos de pitbull, que lhe cai como luva depois que mordeu o vice-presidente Hamilton Mourão e pôs para correr o carteiro da Rede Globo e o ministro Gustavo Bebianno.

Enquanto Carlos morde, os demais Bolsonaros zeros só latem. Se o presidente produzir mais dois zeros, chegaremos ao 07, que será o único com permissão para matar.

7:10Mais uma!

Homero Barbosa Neto, ex-prefeito de Londrina cassado, perdeu na Justiça mais uma vez. Suas contas de campanha para deputado federal foram rejeitadas e ele terá de devolver ao Tesouro Nacional R$ 175 mil, corrigidos. Foi o que recebeu do dinheiro do fundo partidário de campanha do PDT.

7:02O erro para sempre

Do ombudsman

Um dos problemas da imprensa escrita e publicada no papel é que um erro fica para sempre. Na Gazetona do final de semana a manchete da capa é “2019: o ano que vai reeguer o mercado imobiliário?” Um ‘r’ foi comido para a eternidade. Acontece nas melhores publicações. Se fosse na internet, era só alguém da própria redação se ligar ou um leitor atento alertar para a correção ser feita. Neste blog aqui, por exemplo, já aconteceu várias vezes. Nesta semana mesmo, segundo o titular, um leitor apontou várias pisadas de bola num mesmo dia. Em um deles a Copel virou Cipel – e ficou assim durante um tempo até ele acordar.

6:01Material usado

por Ruy Castro

Abro um exemplar da revista The New Yorker, de que sou assinante. É de dezembro último. Displicente, eu a jogara na cesta de revistas sem ler. Abrindo-a de trás para frente, como todo velho revisteiro, deparo com um artigo de Hannah Arendt, a escritora alemã, sobre o poeta W. H. Auden. A primeira frase já é uma beleza: “Conheci Auden muito tarde para ele e para mim —numa idade em que não é fácil formar uma amizade mais íntima, porque já não nos resta muito tempo para estar juntos”. Estranhei: ué, Hannah Arendt morreu em 1975 —de onde a New Yorker tirou esse artigo dela?

Antes que pudesse responder, passo pela seção de ficção e vejo um conto de John Updike, também morto (em 2009), “Neve em Greenwich Village”. O que está acontecendo? Mais algumas páginas, e surge uma longa reflexão de James Baldwin sobre o que Deus representava para um jovem negro e gay no Harlem dos anos 30. A extraordinária foto de Baldwin que ilustra a matéria é de Richard Avedon. Mas Baldwin também morreu, em 1987, assim como Avedon, em 2004. E só então me dei conta de que estava me deliciando com cartuns de Peter Arno, Otto Soglow e Saul Steinberg, três dos grandes que desenhavam para a New Yorker no passado e que já se foram há muito.

E não só isto, mas a revista continha poemas por Elizabeth Bishop e Marianne Moore, uma resenha de Nora Ephron sobre livros de culinária e uma página dupla com capas antigas, uma delas, por Carl Fornaro, com data de 21 de março de 1925, dias depois de fundada a revista —e todas tendo Nova York como motivo.

Voltei a folhear página por página e só aí descobri o óbvio: era um “número de arquivo” da revista, todo ele usando material já publicado —e todo sobre Nova York.

Pensei no grosso da nossa imprensa, que só quer saber de material inédito, e admirei mais a New Yorker, que não se envergonha de requentar grande material usado.

*Publicado na Folha de S.Paulo

21:02Odes maiores ao pai – I

de Hilda Hilst

Uns ventos te guardaram. Outros guardam-me a mim. E aparentemente separados
Guardamo-nos os dois, enquanto os homens no tempo se devoram.
Será lícito guardarmo-nos assim?
Pai, este é um tempo de espera. Ouço que é preciso esperar
Uns nítidos dragões de primavera, mas à minha porta eles viveram sempre,
Claros gigantes, líquida semente no meu pouco de terra.

Este é um tempo de silêncio. Tocam-te apenas. E no gesto
Te empobrecem de afeto. No gesto te consomem.

Tocaram-te nas tardes, assim como tocaste
Adolescente, a superfície parada de umas águas? Tens ainda nas mãos
A pequena raiz, a fibra delicada que a si se construía em solidão?
Pai, assim somos tocados sempre.
Este é um tempo de cegueira. Os homens não se veem. Sob as vestes
Um suor invisível toma corpo e na morte nosso corpo de medo
É que floresce.

Mortos nos vemos. Mortos amamos. E de olhos fechados
Uns espaços de luz rompem a treva. Meu pai: Este é um tempo de treva.