14:56Sem auxílio

Até o presente momento não houve manifestação da turma da capa preta do Paraná, ou seja, desembargadores e juízes, muito menos de procuradores e promotores do Ministério Público, para doação do auxilio-moradia referente ao mês de janeiro para os cofres públicos. Parece que ninguém quer seguir o exemplo do governador e dos secretários neste esforço para enfrentar a crise que surgiu assim, de repente, depois das eleições de outubro. Que coisa, não?

14:26Do pedal!

Aos ciclistas de plantão: Carlos Alberto da Veiga Sicupira, o Beto Sicupira, um dos homens mais homem ricos do Brasil, ia de bicicleta de casa para a sede das lojas Americanas, no Rio de Janeiro, para incentivar os funcionários a fazer o mesmo. Só que ele morava perto e tinha um banheiro luxuoso com chuveirão só para ele, onde ficava limpinho, cheiroso e trocava de roupa. Nos finais de semana viajava para Angra ou Buzios de helicóptero, porque ninguém é de ferro. A ninguenzada da Americanas não via isso e achava o máximo o exemplo e tanto desprendimento do chefão. E dá-lhe pedal dentro do inferno carioca!

11:39Sobre dívidas

Ao saber que a dívida a curto prazo do governo do Paraná é de R$ 1,7 bilhão, um venenoso da Boca Maldita deu de ombros. “Isso não é nada. O caixa do governo vai receber mais de R$ 40 bilhões neste ano. Duro é a minha dívida. Começou nos meus mais longínquos antepassados, vai durar minha vida inteira e vou deixá-la como herança para minhas gerações futuras – e sem perspectivas de entrar um puto extra no bolso!”

11:19Vagau

de Wilson Bueno

Os vagais são pouco sisudos – não porque não sejam sérios, mas principalmente porque os anima uma atividade desesperada no coração. O que abre esta reflexão no escuro é o exemplo vivo de como o apego dos vagais às pessoas, mais, muito mais que às coisas, os faz perdidamente ferrados à certeza, de que só eles, estes desarvorados, estejam aptos para vitória. É que um legítimo vagau encara a derrota como um equívoco, um erro, um triunfo.

*Trecho do texto “Diário Vagau”, publicado no livro Bolero’s Bar

10:29O que veio e o que vem por aí

Amigo do blog ficou feliz com o retorno dos ônibus às ruas depois da paralisação de quatro dias. Aí lembrou que vem aí mais um aumento da tarifa, anunciado para fevereiro, mês do esquindô. O que se fala é que a pancada será de 26%. Ele foi à tabela do INPC do período (2013 e 2014) e viu que ela foi respetivamente, 6,7691% (2013) e 5,3850% (2014). Em novembro do ano passado a ninguenzada de Curitiba e região recebeu uma pancada de R$ 0,15 no preço da passagem, que era de R$ 2,70. Agora, a coisa pode chegar a R$ 3,40. Isso porque não se considerou aqui o subsídio que entra para cobrir alegados rombos para as empresas de transporte coletivo que dominam o sistema e sempre choram, mas não largam o osso. O amigo acha que tem muita coisa estranha aí.

 

9:13Apoia! Apoia!

A bancada paranaense no Congresso deveria ser orientada pelo governo para apoiar a indicação da senadora Gleisi Hoffmann (PT) para a presidência da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), aquela que avalia, entre outras coisas, solicitações de empréstimos internacionais de estados e municípios que dependem de aval do governo federal. Assim, o comando do Palácio Iguaçu continuaria com um grande motivo para apontar a responsabilidade do buraco sem fundo que atravanca o progréssio.  

8:56Livro conta a história do goleiro Jairo, o Muralha Negra do Coritiba

Do jeito que veio 

Com destaques na carreira como o recorde de ficar por 12 jogos e 57 minutos sem levar gol no Campeonato Brasileiro, o ex-goleiro Jairo Nascimento é o tema do livro A muralha negra do Coxa-branca que será lançado no Centro Educacional Araucária (CEAR) no próximo dia três de fevereiro às 15h30. A obra foi escrita pelo jornalista Guilherme Mattar contando a trajetória do atleta que passou por diversos clubes nacionais e pela seleção brasileira.

Aposentado do futebol, Jairo faz parte de uma parceria com a Igreja do Evangelho Quadrangular (IEQ) que mantém o CEAR para orientar crianças e adolescentes, incentivando a prática de esportes e a educação. O ex-goleiro participa da escolinha de futebol e o trabalho já foi reconhecido pelo Poder Judiciário como uma maneira de afastar os jovens das ruas e promover a integração social.

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8:48Cadê?

O jornal da família curitibana abriu uma foto gigante na capa da edição impressa de hoje para mostrar o novo patrocinador das camisas da dupla Atletiba. A Tim, aquela, só apareceu nas letrinhas da chamada, que destaca um “fato inédito”. Hummmmm. Quem saiu ganhando com a propaganda grátis foi a Caixa Econômica Federal, que toma conta da frente da camisa. Para ver o logotipo da empresa de telefonia, é preciso colocar uma lupa, pois ele está escondido na parte de cima do número dos jogadores.

8:40JORNAL DO CÍNICO

Do Filósofo do Centro Cínico

Se o salário de janeiro do governador e dos secretários não conseguir resolver o problema financeiro do Paraná, o próximo passo será pedir aos paranaenses que contribuam com o esforço para superar a crise depositando nos cofres públicos suas respectivas remunerações de fevereiro, já que o mês é curto, tem carnaval no meio e tudo é festa.

7:58O guardião e protetor do samba

por Célio Heitor Guimarães

Noite dessas, o jornalista Roberto D’Avila entrevistava para o canal Globo News, o compositor e cantor Paulinho da Viola, uma das glórias da música popular brasileira. Lá pelas tantas, Roberto se referiu à composição de Paulinho “Foi um rio que passou em minha vida”, obra-prima do sambista nos anos 70.

Paulinho, então, indagou a Roberto:

-– Sabe quem foi o responsável pelo sucesso dessa música?

E ante a dúvida do apresentador, respondeu:

-– O Adelzon Alves. Ele fazia questão de tocá-la todas as noites no programa que tinha na Rádio Globo.

Senti-me feliz não apenas pela manifestação de reconhecimento e carinho do grande Paulinho da Viola ao nosso Adelzon Alves, mas por haver me lembrado com doce saudade de um antigo companheiro de rádio – o menino que saiu de Cornélio Procópio, no Norte Velho do Paraná, para conquistar o Brasil.

Conheci Adelzon no início da década de 60, quando trabalhamos juntos na Rádio Cruzeiro do Sul, de Samuel Silveira. E ali começou a minha admiração e estima por aquele jovem idealista, que fazia então as vezes de noticiarista, mas tinha os olhos e coração pregados na cultura popular brasileira.

Em Curitiba, Adelzon atuou ainda na velha Guairacá, “A Voz Nativa da Terra dos Pinheirais”. Mas em 1964 arrumou a mala e embarcou para o Rio de Janeiro. Não demorou a encontrar trabalho na Rádio Globo carioca, como locutor noticiarista de “O Seu Redator-Chefe” e de “O Globo no Ar”, dois campeões de audiência. Fazia também a locução comercial do programa do Chacrinha. Era época da bossa-nova. Mas Adelson admirava mesmo o samba de raiz, a música de Cartola, Candeia, Nelson Cavaquinho, Dona Ivone Lara.

Fora influenciado desde pequeno pelo pai, Antônio Damaceno Alves, grande incentivador das bandas musicais no interior paranaense. Outra influência que o menino Adelzon recebeu foi do tio, irmão de seu pai, um festeiro militante na Folia de Reis, no distrito de Congonhas, município de Cornélio Procópio.

Em 1966, Adelzon passou a ter o seu próprio programa na Rádio Globo, o “Amigo da Madrugada”. Era tudo o que ele sonhara. Fez contato com Cartola, Candeia, Zagaia, Nelson Cavaquinho, Geraldo Babão, Ivone de Lara, Djalma Sabiá, Paulinho da Viola e Martinho da Vila, entre outros grandes nomes da música popular e abriu espaço na emissora para os compositores do morro.

“Amigos da Madrugada” foi um marco no rádio carioca e brasileiro. Por ali passou o melhor que existia na MPB, conduzido pelo talento e pela dedicação do paranaense Adelzon Alves. Lançou nomes como João Nogueira, Roberto Ribeiro, Wilson Moreira e a própria Dona Ivone Lara. Deu oportunidade a compositores sem espaço nas gravadoras e nas demais emissora de rádio. Foi assim com Alcione, com Bezerra da Silva, com Jorge Aragão, com Zeca Pagodinho, com Jovelina Pérola Negra e com tantos outros nomes.

Adelzon reaqueceu também a música regional nordestina, com o renascimento de Jackson do Pandeiro, que permaneceu durante oito anos no programa.

Confessa que gosta de qualquer tipo de música, seja clássica ou popular. Aliás, para ele só há dois tipos de música: a boa e a ruim.

Mas Adelzon não se limitava a transmitir a boa música popular brasileira e os velhos e novos talentos que a valorizavam. Tinha sempre um bom papo com a melhor companhia, contava histórias e animava a madrugada da Cidade Maravilhosa. Havia quem passasse a noite em claro só para ouvi-lo.

O cumprimento inicial de Adelzon aos ouvintes ficou na história: “Benção pra quem é de benção; boa noite pra quem é de boa noite; bom dia pra quem é de bom dia…”. Grande Adelzon!

Esse sucesso todo aproximou Adelzon Alves de Clara Nunes, para quem produziu três elepês. Essa aproximação criou laços que ultrapassaram o terreno profissional. Tornaram-se namorados e juntos viveram um grande amor, que se não foi eterno conferiu aos dois momentos de enorme felicidade.

A intenção de Adelzon – contaria depois – era desenvolver uma carreira para Clara Nunes com base nas tradições afro-brasileiras do samba. Infelizmente, ela faleceria prematuramente em abril de 1983, aos 40 anos de idade.

O programa “Amigos da Madrugada” durou até 1992, da meia-noite às quatro da madrugada. Logo em seguida, Adelzon se transferiria para Rádio MEC, onde apresentou “Fole e Viola”, das cinco às seis horas da manhã, e cuja linha mestra foi a divulgação da música regional autêntica, do norte ao sul do Brasil.
Hoje, o “Amigo da Madrugada” está na Rádio Nacional do Rio de Janeiro AM, 1.130 KHz, defendendo, com o mesmo ardor e o mesmo amor, a música popular brasileira e fazendo o mesmo sucesso dos tempos da Globo.

 

Adelzon mora em Pedra de Guaratiba, onde costuma passear o seu jeitão simples e descomplicado, ao lado dos cachorros que encontra na rua. No dia 05 de setembro, completou 74 anos. Mas continua com alma de um menino.

 

 

 

0:39O naufrágio da dignidade

por Ivan Schmidt

Há exatos 70 anos os primeiros quatro soldados russos chegavam ao campo de concentração de Auschwitz, no interior da Polônia, para iniciar a libertação dos prisioneiros judeus que haviam conseguido sobreviver. Chefes de Estado e sobreviventes se encontraram nesta terça-feira (27) no fatídico local, a fim de lembrar à humanidade o horror e a crueldade inéditos que marcaram de forma indelével os absurdamente chamados tempos modernos.

O sociólogo italiano Giorgio Agamben adicionou à sua vasta obra O que resta de Auschwitz (Boitempo, SP, 2013), cuja leitura é sobremaneira torturante como bem ilustra a autora do prólogo, Jeanne Marie Gagnebin: “Insisto nas dificuldades do título deste livro porque elas ajudam a entender as dificuldades de sua leitura. À primeira vista, parece que temos em mãos mais um livro sobre Auschwitz, não um livro histórico – desde a primeira página, o autor nos adverte que a questão das ‘circunstâncias históricas’ já foi devidamente esclarecida pelos historiadores da Shoah – mas um livro sobre as dificuldades do testemunho”.

O próprio autor diz que o livro não é uma pesquisa histórica, mas sim uma pesquisa sobre ética e testemunho ou ainda mais “uma tentativa de fincar cá e lá algumas estacas que eventualmente poderão orientar os futuros cartógrafos da nova terra ética”, cujo primeiro e maior agrimensor, diz Agamben, continua sendo Primo Levi.

No jargão usado no Lager, como ficou conhecido o ultrajante sistema de campos de concentração do Reich, o prisioneiro típico era identificado como der Muselmann, o muçulmano. Segundo J. Améry, citado por Agamben, este era o preso “que havia abandonado qualquer esperança e que havia sido abandonado pelos companheiros, já não dispunha de um âmbito de conhecimento capaz de lhe permitir discernimento entre bem e mal, entre nobreza e vileza, entre espiritualidade e não espiritualidade”.

O muçulmano do Lager, prossegue Améry, era simplesmente “um cadáver ambulante, um feixe de funções físicas já em agonia. Devemos, por mais dolorosa que nos pareça a escolha, excluí-lo da nossa consideração”.

Sobre a origem da aplicação do termo às vítimas do Holocausto, diz Agamben que “a explicação mais provável remete ao significado literal do termo árabe muslim, que significa quem se submete incondicionalmente à vontade de Deus, e está na origem das lendas sobre o pretenso fatalismo islâmico, bastante difundidas nas culturas europeias desde a Idade Média”.

O pediatra Bruno Bettelheim, que também experimentou o horror em Dachau e Buckenwald até ser libertado graças à intervenção de Eleanora Roosevelt, “tinha visto os muçulmanos com os próprios olhos, e logo se deu conta das inauditas transformações que a situação extrema produzia na personalidade dos internados”. Assim, “o muçulmano converteu-se para ele em paradigma, sobre o qual, mais tarde, tendo emigrado para os Estados Unidos, fundou os seus estudos a respeito da esquizofrenia infantil e a Orthogenic School por ele inaugurada em Chicago para a cura de crianças autistas, uma espécie de contra-campo, em que se ensinava aos muçulmanos a voltarem a ser humanos”.

O sociólogo italiano lembra que Primo Levi teve a oportunidade de descobrir em Auschwitz uma nova matéria ética que realmente não consentia juízos sumários nem distinções e, agradando-lhe ou não, a falta de dignidade lhe devia interessar tanto quanto a dignidade. A explicação é objetiva: “A ética em Auschwitz, aliás, começava – também isso estava ironicamente contido no título retórico É isto um homem? – precisamente no ponto em que o muçulmano, ‘a testemunha integral’, havia eliminado para sempre qualquer possibilidade de distinguir entre o homem e o não-homem”.

Na interpretação de Agamben o Reich gerou com a instalação do Lager uma situação-limite, tendo em vista que os nazistas tinham intuído muito bem o poder secreto inerente a situações extremas, assim como “nunca revogaram o estado de exceção que haviam decretado em fevereiro de 1933, no dia seguinte à tomada do poder, de forma que o Terceiro Reich pôde ser definido justamente como uma noite de São Bartolomeu que durou 12 anos”.

Citando as palavras de um dos historiadores da Shoah (Langbein), Agamben lembra que o estágio do muçulmano era o terror dos internados, pois aquele era candidato certo para as câmaras de gás: “O limite extremo desse não-lugar chama-se, no jargão do campo, Selektion, ou seja, o ato de selecionar os destinados à câmara de gás. Por isso, a preocupação mais insistente do deportado consistia em esconder as suas enfermidades e as suas prostrações, em ocultar incessantemente o muçulmano que ele sentia aflorar em si mesmo por todos os lados. Aliás, toda a população do campo não é senão um imenso turbilhão que gira obsessivamente em torno de um centro sem rosto”.

Para Bettelheim, o muçulmano é alguém que abriu mão da margem irrenunciável de liberdade e, em última análise, “extraviou qualquer traço de vida afetiva e de humanidade”.

Uma das conclusões mais evidentes do livro de Giorgio Agamben é que “talvez nunca, antes de Auschwitz, tenham sido descritos com tanta eficácia o naufrágio da dignidade perante uma figura extrema do humano e a inutilidade do respeito de si perante a absoluta degradação”.

Sobrevivente do Lager, autor de vários livros sobre a experiência vivida no campo de extermínio, Primo Levi recebeu de Agamben a inegável primazia de ter sido o descobridor da fórmula mais justa e, ao mesmo tempo, mais terrível para definir a situação extrema dos selados para as câmaras: “Hesita-se em chamar de morte a sua morte”.

Setenta anos depois homens livres de todas as nacionalidades são chamados a prestar um culto silencioso e reverente às vítimas do racismo, da ignorância e da brutalidade. Uma barbárie que jamais será esquecida.