14:37Cultura iliberal, caudilhesca e tribal

De João Pereira Coutinho no artigo ‘Thomas Mann e o Brasil’, publicado na Folha de S.Paulo:

… As ameaças recentes do presidente Jair Bolsonaro contra este jornal não são apenas mera retórica circense. Elas participam de um espírito autoritário que também faz parte da cultura iliberal, caudilhista e tribal da América Latina.

É uma cultura que, tal como os zumbis, nunca morre; ela emerge sempre da escuridão do tempo para devorar a mera possibilidade de uma sociedade livre, pluralista e civilizada.

Por incrível que pareça a muitos conservadores brasileiros, é possível amar o Brasil, a sua cultura, a sua língua, o seu povo, sem amar a sua face mais violenta e grotesca.

De igual forma, é perfeitamente legítimo recusar o revanchismo da esquerda sem abraçar o revanchismo gêmeo da direita.

… a história sempre foi mais sábia do que os fanáticos que agem em seu nome.

Thomas Mann e o Brasil

A cultura iliberal, caudilhista e tribal da América Latina é como os zumbis: nunca morre

Conheço bem o Thomas Mann romancista. Conhecia mal o Thomas Mann ensaísta. E, agora que o li, talvez não haja autor mais importante, no sentido político da palavra, para compreender e reagir à lenta decadência democrática dos nossos tempos. O Brasil não é exceção.

O livro, na edição portuguesa, dá pelo nome de “Um Percurso Político” (ed. Bertrand, 205 págs.). Reúne seis dos ensaios mais importantes de Mann —da Primeira Guerra Mundial ao fim da Segunda.

Ou, resumindo o espírito da odisseia, da loucura nacionalista do escritor até o mea culpa de um verdadeiro patriota —alguém que é capaz de amar o seu país sem esconder as suas monstruosidades.

Os textos da Primeira Guerra são os mais difíceis de engolir. Que Mann defendesse a Alemanha durante o conflito, nada de original.

Mas a defesa explícita de que os alemães, povo de “cultura” mas não de “civilização” (Nietzsche “dixit”), jamais seriam capazes de abraçar a democracia e o parlamentarismo, preferindo sempre formas despóticas de governo, é de um fatalismo avassalador —e confrangedor.

A derrota chega em 1918, ao contrário do que Mann previra com delirante confiança. A República de Weimar também. E os extremismos comunista e nazista começam a rondar a jovem democracia do pós-guerra.

Mann opõe-se a ambos e defende a república democrática. Mais ainda: defende a república como conservador que é, ou seja, como alguém que aprendeu com a experiência do passado e que olha agora para os seus próprios entusiasmos nacionalistas e autoritários com tristeza e náusea.

Uma vez mais, Thomas Mann sai derrotado. A república perde. Hitler chega ao poder em 1933. Seis anos depois, nas vésperas de uma nova guerra e já no exílio americano, Thomas Mann olha para o Führer e publica “Irmão Hitler”. É título enganador: o “irmão” não é tratamento afetivo; refere-se apenas a alguém que, embora seja parte da mesma família, a atraiçoa profundamente.

A cultura alemã, nas palavras de Mann, valoriza a dignidade do saber e do espírito; o nacional-socialismo, com os seus transes histéricos e apocalípticos, é uma deformação desse espírito.

Com a derrota do Terceiro Reich e a longa lista de crimes cometidos pelo regime, Thomas Mann abandona  qualquer ilusão de que é possível separar a boa Alemanha da má Alemanha.

Só existe uma: a Alemanha que nos deu a grande música, a grande poesia, a grande metafísica é exatamente a mesma que, desde Lutero, desde a Reforma, sempre cultivou uma forma perigosa de antipolítica.

A arte da política é a arte do compromisso, da imperfeição, do possível. Para o espírito germânico, o compromisso é sempre uma revelação de fraqueza.

Entre a fraqueza e a barbárie, a famosa “interioridade” alemã opta pela barbárie como forma de não ceder às tentações fáusticas do compromisso.

O patriota de 1914 continua a ser um patriota em 1945. Mas é agora um patriota lúcido, realista, desencantado, capaz de olhar para as coisas como elas são.

Os ensaios de Thomas Mann merecem leitura urgente. Sobretudo por uma parte da direita brasileira que parece incapaz de olhar para as coisas como elas são.

As ameaças recentes do presidente Jair Bolsonaro contra este jornal não são apenas mera retórica circense. Elas participam de um espírito autoritário que também faz parte da cultura iliberal, caudilhista e tribal da América Latina.

É uma cultura que, tal como os zumbis, nunca morre; ela emerge sempre da escuridão do tempo para devorar a mera possibilidade de uma sociedade livre, pluralista e civilizada.

Por incrível que pareça a muitos conservadores brasileiros, é possível amar o Brasil, a sua cultura, a sua língua, o seu povo, sem amar a sua face mais violenta e grotesca.

De igual forma, é perfeitamente legítimo recusar o revanchismo da esquerda sem abraçar o revanchismo gêmeo da direita.

Durante a República de Weimar, Thomas Mann enfrentou esse dilema: para combater os revolucionários bolcheviques era inevitável aplaudir os revolucionários das cervejarias de Munique?

Ou a experiência histórica, o respeito pela racionalidade, pela ética e até pela estética impunham a recusa dos extremos —e a defesa da legalidade e da democracia?

Thomas Mann perdeu todas as batalhas políticas momentâneas. Mas a vitória final foi dele. Eis a última lição dos seus ensaios para o Brasil de 2019: a história sempre foi mais sábia do que os fanáticos que agem em seu nome.

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