9:55Um trapalhão no Palácio do Planalto

por Célio Heitor Guimarães 

Os primeiros setenta dias do (des)governo de Jair Messias Bolsonaro, sobretudo as mais recentes falas e atitudes de s. exª., comprovam aquilo que boa parte da população eleitora brasileira, aquela medianamente informada, com um mínimo de bom senso e preocupação com o país, sabia: o capitão não tem a menor condição de presidir o Brasil. Ou, como resume, com simplicidade e precisão, frase contida no editorial do último número da revista Veja: “Trata-se de uma dolorosa evidência de que Bolsonaro não faz ideia do tamanho, da dignidade e do decoro do cargo que ocupa”.

Podem os bolsonaristas embevecidos, com a visão e a mente obliteradas pela paixão, rosnar e repetir que a publicação perdeu a respeitabilidade e que cambaleia à beira da falência, mas não há como negar que o editorialista foi de uma exatidão irretocável.

O capitão Messias, ainda que egresso da Academia das Agulhas Negras, nunca exibiu currículo ou estampa para vestir a faixa presidencial. E nesse quesito perde até para Luiz Inácio, que chegou de Pernambuco na carroceria de um caminhão e não teve grande chance de lustrar os bancos escolares. Mas supunha-se que tivesse adquirido algum conteúdo quando envergou a farda ou sentou praça na Câmara dos Deputados. Pura ilusão. Ganhou a eleição sem fazer campanha, sem mostrar programa de governo, sem dar entrevistas e sem participar de debates públicos, graças àquele ainda não suficientemente explicado incidente de Juiz de Fora. E subiu a rampa do Planalto. Para semear asneiras pelas redes sociais.

Pouco nos importa se ele desfila pelos jardins do Alvorada de shorts, de calça de agasalho, de camiseta falsificada do Palmeiras e de chinelos de dedo. Gosto não se discute e se a Michelle está de acordo, paciência. Mas chamar de mentiroso um ministro de Estado que foi companheiro de primeira hora, quando quem estava mentindo era ele próprio; eleger como ministra-padrão dona Damares, aquela do menino veste azul e menina rosa; creditar aos militares a democracia e a liberdade existentes no Brasil; e – absurdo dos absurdos – postar no Twitter imagens obscenas colhidas durante o Carnaval, alegando ter a postagem fins pedagógicos, constituem posturas não só reprováveis como degradantes. Um vexame internacional.

Tirante essas presepadas, que vêm desde quando Messias nem havia ganho o pleito e assumido o poder, o governo ainda nem começou a governar. As mazelas nacionais continuam e se agravam, o futuro da economia é incerto, a saúde pública agoniza, a violência e a falta de segurança crescem. A reforma da previdência, tida como a joia da coroa, está em marcha lenta, carece de credibilidade e destina-se ao fracasso, sobretudo pela ausência de liderança e pelas infaustas intervenções presidenciais.

A preocupação é geral. Os palacianos, especialmente os generais que compõem o governo e que, volta e meia, são obrigados a explicar ou desmentir o chefe; o empresariado, os políticos, a comunidade nacional e até os eleitores que elegeram Bolsonaro estão assustados, com medo do porvir.

A cada dia é um novo desarranjo verbal, ninguém segura a língua e o raciocínio enviesado do homem. Até quando pretende ser engraçado é um desastre. Aquela do ministério igualitário em gênero: dos vinte ministros, dezoito são homens e duas mulheres, “mas cada uma delas equivale (sic) por dez…” – foi de doer.

Renato Aragão, Dedé Santana, Mussum e Zacarias, os trapalhões originais da TV e do cinema, faziam rir; as trapalhadas do atual ocupante do trono presidencial provocam sobressaltos e, quando não fazem chorar, envergonham o país.

P.S. – Dois atiradores deixaram ontem pelo menos sete mortos e vários feridos e depois se mataram em uma escola de Suzano (SP). Qual era mesmo o motivo para armar a população, eminentes capitão-presidente e ministro Moro? Ah, sim, para oferecer mais segurança às pessoas…

11 ideias sobre “Um trapalhão no Palácio do Planalto

  1. julio zaruch

    Brumadinho, Ninho do Urubu, acidente que matou o Boechat, dilúvios, inundações, os crimes de Suzano: cheguei a conclusão que o capitão é pé frio: da azar ao Brasil.

  2. jorge

    As armas dos assassinos não eram legalizadas. As pessoas de bem estão desarmadas, sem poderem se defender de assassinos. Os mais de 64.000 assassinatos por ano mostram que a lei do desarmamento só favoreceu assassinos.

  3. Ironico

    Esse seu “P.S.” é a observação mais imbecil que podiam fazer sobre o ocorrido.
    Você esquece que:
    1 A mesma coisa ocorreu em 2011 e em outras epocas.
    2. Os dois portavam arma de fogo o que é diferente de posse.
    3. Portavam uma besta, machado, coquetel molotov…
    4. Com 25 e 17 anos foram forjados numa sociedade violenta com 60 mil homicídios por ano, acostumados a ver o descaso pela vida.

  4. Ironico

    E soh para lembrar.. se o rapaz de 17 anos não cometesse o suicídio, antes do final do ano estaria livre de qualquer medida

  5. Parreiras Rodrigues

    De início, a citação de linha da Veja – tornada desacreditada pois a boca do cofre federal estreitou-se, não recomenda nem o resto da leitura. A Veja, a Folha, o Estadão, dentre os mais significativos informativos, deveriam ter como logomarca aquele cachorrinho ao lado dum gramofone que lembra uma extinta gravadora – a tal da Voz do Dono.
    Lula, aquele que inventava viagens internacionais – sem retorno algum, só para comer opulenta asSEXOssora em hotéis de metrópoles capitalistas, tinha sim ideia do tamanho, da dignidade e do decoro do cargo que ocupa.
    A grande maioria dos blogues petistas, como o o raso e risível Esmael, mais o 247, Forum, sei lá, não abrem espaço para comentários.
    Quanto a nos envergonhar no cenário nacional, o mundo inteiro sabe que o Brasil foi governado por uma tal de Dilma Rosseff durante mais de seis anos. Pronto, falei!

  6. SERGIO SILVESTRE

    Pois é,a jumentice do Bozo é o de menos,o que se desenha para o futuro dele é outra coisa mais grave,seus vizinhos amigos de pão com leite condensado.
    Eu acredito que ouve no Brasil um golpe perfeito,mas com tiro saindo pela culatra,tiraram a Dilma daquela forma esquisita,aquele golpe sem -vergonha,o bando da republica de Curitiba deu o toque final,atropelando processos,numa velocidade nunca vista de um TRF4 onde um “desembargador”leu 250 mil paginas em poucos dias e validou o descalabro do agora politico MORO.
    Ai veio a parte mais grotesca da coisa,a facada,o atentado em Juiz de Fora e sua remoção para o Albert Einstein.
    Durante todo processo da cirurgia do Bozo,eu não ouvi de nenhum médico um boletim,nenhum médico deu entrevista,portanto eu não acredito em Bruxas,mas acredito em conspiração.
    Tudo indica que também seguraram para depois das eleições essa prisão do vizinho do Bolsonaro,para que esse caso não o tirasse sua liderança nas pesquisas para presidente.
    Nós que tiramos água de pedra,quando vejo o semblante de um construtos é um desanimo só.Mas quando o assunto é Lula,ele enche os pulmões e diz até bravo,vale o sofrimento para tirar aquele como dizia o racista Moro o “nine”o Lula e toda sua turma.

  7. juca

    Já temos no mínimo 3 candidatos a presidência em 2022, Distefano, Célio Heitor ( nome bonito) e o Iluminado de Londrina Silvestre,
    Três gênios da literatura e da redação, com gramática perfeita e interpretação do Brasil acima da média de nós mortais.
    Acho que será uma briga tipo “urubufobia” entre eles , espero que se comam literalmente.
    Ah ! Esse se comam não é de troca troca tá bem ?

  8. Jose

    “Somos defensores da unidade nacional, da construção de um projeto de desenvolvimento para todos e para todas. E isso implica, neste momento, ir para as ruas entrincheirados, com armas nas mãos, se tentarem derrubar a presidenta” Vagner Freitas, presidente da CUT, agosto de 2015.

    “Para prender o Lula, vai ter que prender muita gente, mas, mais do que isso, vai ter que matar gente. Aí, vai ter que matar” Gleisi Hoffman, janeiro de 2018.

    “Quem sabe faz a hora e faz a luta; e a minha (sic) bíblia está escrito que sem derramamento de sangue, não haverá redenção. Vou à luta, e vamos à luta, com qualquer que seja as nossas armas”. Benedita da Silva, junho de 2018.

     

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