5:54Do sonho ao medo e do medo ao sonho

por Célio Heitor Guimarães

Todas as noites os noticiários televisivos invadem as nossas casas para colocar-nos a par dos assaltos, agressões, sequestros, tiroteios e assassinatos do dia. A cidade do Rio de Janeiro é apenas o exemplo mais explícito. É uma coisa impressionante, que nem causa mais espanto ou indignação. Só desencanto, desesperança e tristeza profunda. Tornou-se algo banal, corriqueiro. Que país é esse em que passamos a viver? Que futuro podemos esperar para nossos filhos e netos? Esse cenário e essas dúvidas estão sepultando os nossos sonhos. E isso é grave.

Rubem Alves ensinava que é do sonho que nascem a luta e a vitória. Sem sonho, não haverá luta e muito menos vitória, já que os povos e as nações são construídos de sonhos. No entanto, o que mais me preocupa neste trágico momento nem são os sonhos, mas a desesperança.

Não é possível nem justo deixarmos esse legado de violência a nossos filhos e netos sem, ao menos, uma tentativa de reação. Nossa geração (a minha e a de meus contemporâneos) contabiliza o crédito de bons momentos de luta e glória. Vivemos os anos dourados de JK, da bossa-nova e das primeiras conquistas esportivas mundiais, e enfrentamos com bravura os anos de chumbo de uma ditadura militar, que castrou talentos e sufocou a liberdade. Por isso, não podemos passar o bastão aos nossos sucessores com o peso da omissão.

É claro que a solução não será sair todo mundo armado, dando tiros feito loucos por aí, como querem muitos. Perderíamos feio a disputa. Cidadão de bem não sabe manejar artefatos de guerra. E sempre levará a pior no confronto com o inimigo. Isso é coisa que deve (ou deveria) ficar a cargo dos profissionais da defesa pública, das forças do Estado, que são treinadas e pagas para isso.

Só que esses profissionais estão perdendo a guerra. Enlutando as próprias famílias e amedrontando toda a Nação.

“No tempo em que havia pastores” – assinala o meu saudoso Rubem Alves –, “os lobos eram trancados em jaulas e as ovelhas pastavam soltas, mansamente. Agora, sem pastores, as ovelhas se trancam em jaulas e os lobos caminham soltos, tranquilamente. Somos todos ovelhas sem pastor, à mercê dos lobos”.

Crimes e criminosos sempre houve. Mas antes não davam medo desse tamanho. Eram fatos isolados, praticados por marginais catalogados ou em momento de grande emoção. E as autoridades cuidavam deles. Medo a gente tinha de assombrações, de almas do outro mundo. Os criminosos agiam no anonimato, nas sombras da noite. De repente, perderam a compostura. Não tem mais nenhum pejo de mostrar a cara. Pelo contrário, fazem questão de exibi-la, estampa-la com empáfia nos jornais ou na telinha da televisão. E atacam em qualquer lugar, a qualquer hora, a céu aberto, com sol a pino. Nós viramos presas fáceis. Os crimes perderam a lógica e as autoridades perderam a autoridade. Há um Estado funcionando dentro do Estado, sob o comando de marginais albergados dentro de prisões de segurança máxima. As cidades tornaram-se perigosas. E sair às ruas, circular a pé ou motorizado, é um grande risco. Permanecer trancado em casa também não mais garante segurança. Está todo mundo com medo. Medo de moleques de 14 ou 15 anos, cujo sonho maior é virarem bandidos.

O que fazer? Sinceramente, não sei. Mas algo há que ser feito. E dessa ação deve participar, obrigatoriamente, toda a sociedade. Para começar, votando melhor. Escolhendo com seriedade e mais responsabilidade os seus governantes. Exigindo trabalho e fiscalizando de perto e com rigor as suas ações. Basta de ladrões, espertalhões e patifes! De colarinho branco ou chinelo de dedo.

No fundo, ainda resta uma tênue esperança de que os sonhos, na realidade, não tenham morrido. Apenas estejam adormecidos. E um dia acordem. “E o povo” – como pregava Rubem Alves – “possuído pela beleza esquecida, se transforme novamente em guerreiro e se dedique à única tarefa que vale a pena, que é transformar os sonhos em realidade”.

3 ideias sobre “Do sonho ao medo e do medo ao sonho

  1. Carlos D Coimbra

    Dr Célio,
    Excelente forma de começar o dia , ao ler este texto rico e emocionado. Sonharnos com esperança.

  2. Parreiras Rodrigues

    Hora de chamar Charles Bonson, Átila, o dos Hunos, ou mesmo Fernão Dias Paes Leme, Raposo Tavares. Alguém que não deixe pedra sobre pedra, ou onde pisar, nunca mais nasça grama.

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