9:38Revolução de Outubro 100 anos (final)

Por Ivan Schmidt 

Nos estertores do czarismo sucessivas crises políticas que marcaram o início do século 20 na antiga Rússia, determinaram a chegada de Lenin à chefia do governo instituído pela chamada revolução proletária, também responsável pelo surgimento da União Soviética, a potência política e econômica dominada pelo socialismo que rivalizou durante décadas com o capitalismo dos países ocidentais.

Nesse longo período da história contemporânea o mundo viu o surgimento do nazifascismo, assim como a eclosão da Segunda Guerra Mundial, da Revolução Chinesa, das guerras da Coreia e do Vietnã, das ditaduras militares em países da América Latina, da Guerra Fria e do Muro de Berlim – entre outros episódios – grande parte deles notoriamente influenciados direta ou indiretamente pela Revolução de Outubro e seus desdobramentos.

Numa série de artigos publicados nesse blog o autor procurou – nem sempre com sucesso – dar uma visão tanto quanto possível próxima da realidade dos fatos, com base em pesquisas desenvolvidas por historiadores, cientistas políticos e sociólogos sobre o largo espectro de 100 anos da revolução.

Decidi em determinado momento da série, terminá-la com o desfecho dado ao regime monárquico russo pelos revolucionários, já em 1917, quando Kerensky (chefe do governo provisório) ordenou a remoção da família imperial para a vila de Tobolsk, na Sibéria. Os Romanov foram levados a habitar a mansão que havia pertencido ao ex-governador da região.

Segundo o professor e historiador Marcel Novaes no livro Do czarismo ao comunismo (Três Estrelas, SP, 2017), a situação da família imperial sofreu uma mudança vertiginosa com a chegada dos bolcheviques ao poder. O novo governo retirou da propriedade a maioria dos serventes, damas de companhia e seguranças reduzindo a alimentação dos banidos à ração concedida aos soldados.

Em abril de 1918 parte da família (Nicolau, Alexandra e a filha Maria) foi transferida para a cidade de Iekaterimburgo, também na Sibéria, ao passo que as crianças Alexei, Olga, Tatiana e Anastácia, permaneceram em Tobolsk até o mês de maio quando foram levadas para junto dos pais. No novo local do banimento a família ficou sob custódia do soviete regional dos Montes Urais, recebendo a atenção de um médico, além da assistência de uma camareira, dois cozinheiros, um secretário, dois serventes e três cachorros.

Novaes descreve o local assinalando que a casa “era cercada por alta paliçada e seu perímetro era patrulhado continuamente por soldados. Uma metralhadora montada na torre do sino da catedral da cidade ficava apontada para a casa. As janelas foram pintadas de branco para impedir a visão do exterior”.

Os guardas tinham acesso a todos os aposentos da casa, as refeições eram modestas e os habitantes eram chamados pelo primeiro nome. O ex-czar era tratado como “cidadão Nicolau”.

Trotski era favorável ao julgamento público do czar, supondo que o veredito seria a condenação à morte, embora Lenin manifestasse dúvidas em relação ao recente acordo de paz com a Alemanha “já que tanto Nicolau quanto Alexandra eram parentes do kaiser”, anotou Novaes.

Com o advento da guerra civil tropas do Exército Branco se aproximaram de Iekaterimburgo (que seria de fato tomada em 25 de julho), forçando os bolcheviques a optar por uma ação preventiva conforme relata o historiador: “Os bolcheviques não podiam permitir que a oposição resgatasse a família real, o que fortaleceria o movimento de restauração da monarquia e aumentaria a possibilidade de criação de uma autoridade nacional que rivalizasse com a de Moscou”.

O destino da família de Nicolau foi decidido em reunião realizada no início de julho, com a participação dos principais chefes do governo soviético – Lenin entre eles — e a sentença unânime foi a execução. O emissário do governo regional levou a mensagem em 12 de julho, e o governo somente divulgaria a morte do czar, mantendo em segredo o destino do restante da família com o objetivo de evitar represálias originárias do exterior.

Novaes escreveu que Nicolau e seus familiares foram tirados da cama na madrugada de 17 de julho e conduzidos ao porão da casa. A Cheka (polícia secreta regional dos Montes Urais) estava representada pelo oficial Yakov Yurovsky, que leu para a família imperial o rápido comunicado sobre a decisão última da Rússia Soviética: o fuzilamento.

O esquadrão abriu fogo a queima-roupa e mesmo depois do tiroteio intenso nem todas as vítimas tinham morrido: “Os soldados, nervosos em meio à fumaça produzida pelos disparos, haviam atingido principalmente a barriga e as pernas das vítimas. Além disso, as cinco crianças tinham inúmeras pedras preciosas costuradas nas roupas, o que as protegeu parcialmente. Todas elas foram então esfaqueadas e atingidas por vários tiros na cabeça. A camareira também só morreu depois de ser esfaqueada repetidamente”, escreveu Novaes para concluir que “o que deveria ter sido uma execução rápida se transformara em um banho de sangue grotesco”.

Os corpos foram retirados da casa e lançados numa mina abandonada, seguindo-se uma série de descalabros na intenção de apagar todas as evidências do abominável assassinato. Os corpos foram corrompidos com a utilização de ácido sulfúrico e querosene em chamas. Granadas foram detonadas a fim de fazer com que o vigamento da mina desabasse soterrando os cadáveres cruelmente mutilados, mas a estrutura resistiu.

Os anos passaram e a intensa pesquisa sobre o extermínio da família Romanov foi revelando os detalhes que possibilitaram o amplo esclarecimento do horrendo crime. Em 1981 a Igreja Ortodoxa Russa canonizou a família imperial como Portadores da Paixão (a designação dada os que tiveram morte similar a do Cristo), sendo que uma igreja foi inaugurada em 2003 no local de sua derradeira morada.

Finalmente o governo Gorbatchov exumou os corpos posteriormente identificados por exames de DNA. Em julho de 1998 os restos mortais e Nicolau II e parte de sua família (somente em 2007 seria encontrada a cova menor, contendo os restos de Maria e Alexei), foram sepultados na Catedral de São Pedro e São Paulo, em São Petersburgo.

Presente à cerimônia o então presidente Boris Iéltsin, disse em resumo que a nação russa tentava se redimir de “um crime horrível e um assassinato sem sentido”.

No longo catálogo de crimes contra a humanidade perpetrado pelo império vermelho, assinalado por interminável procissão de cruzes, o martírio da família imperial russa é mais uma prova da extensão da estupidez humana quando subjugada pelo fanatismo e desprezo à vida.

PS – Darei uma folga merecida aos leitores desse espaço até meados de janeiro. Obrigado pela atenção e sinceros votos de Feliz Natal e Ano Novo repleto de boas realizações. Até breve.

6 ideias sobre “Revolução de Outubro 100 anos (final)

  1. jose maria

    Ótimo texto do mestre Ivan, extraordinária capacidade de síntese ao expor de forma suscinta p fato histórico tão complexo
    Abcs José MariaCorreia

  2. marcio

    Não entendi quanto ao tiro de misericórdia. Está se referindo aos genocídios e massacres promovidos pelos comunistas mundo afora?

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