21:19ZÉ DA SILVA

Não tive alternativa. Estava desempregado há anos, culpa de mim mesmo e da ineficiência diante de crises e mais crises. Aceitei o emprego porque para mim era fácil. Sou uma espécie de alternativa para estes passeadores de cachorros que os bacanas da cidade pagam. Tinha pensado nisso há algum tempo, mas não gosto deste animais porque eles cagam em qualquer lugar – e o passeador tem que recolher a merda deles e ficar carregando num saquinho. A ideia veio de um amigo. Ele achava que as madames que não fazem nada na vida iriam adorar. Porque aliviam a culpa ao se mostrarem compreensivas com os merdunchos, os miseráveis, os fudidos da vida – e promovem  almoços, jantares, desfiles beneficentes. Saem em coluna social e nem precisam ir à missa para apagar os pecados. Sou passeador de morador de rua. Meia duzia de ricaços, incentivados pelas compreensivas companheiras, se reuniu. Decidiram que seria uma boa para aqueles fedidos, bêbados, fornicadores epárias se exercitarem um pouco. Como já passei meu período na rua da amargura, sabia como convencê-los: no papo e com a promessa de um gole. Não preciso utilizar coleiras e guias, como foi sugerido. Isso daria notícia no Fantástico e prisão pra mim. Caminho com meus amigos nos horários onde os magnatas querem sair de seus apartamentos com piscina aquecida e cômodos para guardar louças e pratarias e se irritam ao ver aquela escória largada na calçada. Me deram até um celular para marcar a hora. Eu vou. Até agora tem dado certo. Dou várias voltas nas quadras entrando no papo dos bêbados e noiados. Sei como é. Depois eles voltam para o lugar onde se acham confortáveis. Não sei até quando vai durar isso. No mínimo estou sendo precursor de uma profissão. Ou não?

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