6:57A dinâmica da aniquilação

por Ivan Schmidt 

A maior parte dos muçulmanos não é composta de fundamentalistas e a maior parte desses não é terrorista, mas a maior parte dos terroristas atuais é muçulmana e tem orgulho de se identificar como tal. A opinião é de Bernard Lewis, um dos maiores especialistas em estudos orientais da atualidade, professor emérito da Universidade de Princeton (EUA), no livro A crise do Islã (Jorge Zahar Editor, RJ, 2004), e ainda inteiramente válida para iluminar o contexto em que a maioria das ações terroristas cometidas em nome do Islã é reivindicada pelo autoproclamado Estado Islâmico. E mais recentemente por “lobos solitários”, que agem pretensamente sob a dominação e controle ideológico de “superiores” escondidos em partes dos territórios da Síria, do Iraque e da Líbia.

Lewis ampliou o ensaio originalmente escrito para a importante revista semanal The New Yorker, transformando-o no livro publicado mais tarde no Brasil, obviamente sem fazer menção ao desembarque do Estado Islâmico no cenário extremamente conturbado do Oriente Médio, hoje uma realidade que chama a atenção de nove entre dez estudiosos das relações políticas de uma região caracterizada pelo potencial explosivo.

Uma das observações de Lewis é elucidativa ao tratar da queixa comum de muçulmanos que “compreensivelmente” reclamam que a mídia fala de movimentos e ações terroristas como “islâmicos”: “A queixa muçulmana é razoável, mas deveria ser dirigida àqueles que se fazem matéria de notícias, e não aos que noticiam. Osama Bin Laden e seus seguidores da Al-Qaeda podem não representar o Islã, e muitas de suas declarações e ações contradizem diretamente princípios e ensinamentos islâmicos básicos, mas eles surgem de dentro da civilização muçulmana, tal como Hitler e os nazistas surgiram de dentro da cristandade, e também têm de ser situados em seu próprio contexto cultural, religioso e histórico”.

As formas clássicas do extremismo islâmico – Hamas, Al-Qaeda, o fundamentalismo preventivo saudita e a revolução institucionalizada da hierarquia governante iraniana – todas em certo sentido de origem islâmica, posto que em muito afastadas de suas raízes, acabaram sendo suplantadas pela ação do EI, que por decisão de um só homem fez renascer a ideia do califado.

Revendo a história, Bernard Lewis diz que o soberano otomano era não apenas um sultão, o dirigente de um Estado específico, mas era também “amplamente reconhecido como o califa, o chefe de todo o Islã sunita e o último de uma linhagem de governantes cuja origem remontava a 632 d.C. – ano da morte do profeta Maomé e da indicação de um sucessor para ocupar seu lugar, não como chefe espiritual, mas sim como chefe religioso e político do Estado muçulmano e de sua comunidade. Após uma breve experiência com um califa distinto, os turcos aboliram também o califado em março de 1924”.

O califado permaneceu por 13 longos séculos como símbolo da unidade muçulmana e de sua identidade, sendo que seu desaparecimento “sob o duplo assalto de imperialistas estrangeiros e modernistas domésticos, foi sentido em todo o mundo muçulmano”, segundo Lewis. Diz ele que “vários monarcas e líderes muçulmanos ensaiaram algumas débeis tentativas de reclamar o título vago, mas nenhum deles encontrou grande apoio. Muitos muçulmanos ainda percebem de forma dolorosa esse vazio, e comenta-se que o próprio Osama Bin Laden tinha – o tem – aspirações ao califado”. Obviamente a observação do historiador é anterior à morte do líder máximo da Al Qaeda.

A expressão califa é derivada do árabe khalifa, que, com alguma ambiguidade oportuna, combina os sentidos de “sucessor” e “substituto”. Dessa forma, o chefe da comunidade islâmica era “o Khalifa do Profeta de Deus”, encurtando-se o título para “o Khalifa de Deus”.

Tal designação, lembrou Lewis e, sobretudo, a “pretensão à autoridade espiritual foi calorosamente contestada e, por fim, abandonada, embora um título expressando algo similar, de forma mais branda, ‘a Sombra de Deus na terra’, tenha sido amplamente usado por governantes muçulmanos”.

Durante o governo dos califas, a comunidade de Medina, onde havia governado o Profeta, transformou-se num vasto império em pouco menos de um século, e o islamismo tornou-se uma religião universal. A religião e o poder político sempre estiveram intimamente associados. Certa vez o aiatolá Khomeini declarou que o “Islã é política ou não é nada”.

Mesmo que nem todos os islâmicos concordassem com a ideia, “a maior parte deles concordaria que Deus preocupa-se com a política, e essa crença é confirmada e sustentada pela sharia, a Lei Sagrada, que lida extensivamente com a aquisição e o exercício do poder, a natureza da legitimidade e da autoridade, as obrigações dos governantes e súditos; em poucas palavras, com aquilo que, no Ocidente, chamaríamos direito constitucional e filosofia política”.

O Profeta legou aos muçulmanos a jihad, que basicamente significa empenho ou esforço, com um sentido bastante próximo de batalha, ou luta, a ponto de alguns muçulmanos modernos, especialmente os que se dirigem ao mundo exterior, aplicarem a obrigação da jihad num sentido espiritual e moral. Contudo, Lewis adverte que “a esmagadora maioria das autoridades mais antigas, citando as passagens relevantes do Alcorão, os comentários e as tradições do Profeta, discute jihad em termos militares. Segundo a lei islâmica, está de acordo com as escrituras fazer guerra contra quatro tipos de inimigos: infiéis, apóstatas, rebeldes e bandidos”. Portanto, a jihad é interpretada como uma obrigação religiosa, tendo em vista igualmente a “presunção é que a obrigação da jihad continuará, interrompida apenas por tréguas, até que o mundo todo adote a fé muçulmana ou se submeta ao mando muçulmano. Aqueles que lutam na jihad qualificam-se para recompensas nos dois mundos, butim nesse, paraíso no próximo”.

O movimento chamado pan-islamismo, uma nova fase da mobilização religiosa, teve início nas décadas de 1860 e 1870 dando origem a um grupo de diferentes nacionalidades no mundo árabe, que se tornaria conhecido como os Irmãos Muçulmanos, logo envolvidos na guerra santa.

Tanto na derrota como na vitória, os terroristas religiosos adotaram e aperfeiçoaram os métodos introduzidos de forma pioneira pelos nacionalistas do século XX, em particular a falta de consideração pela matança de circunstantes inocentes. Para Bernard Lewis “essa despreocupação alcançou novas proporções na campanha de terror desencadeada por Osama Bin Laden no início da década de 1990. O primeiro exemplo importante foi a explosão de duas embaixadas norte-americanas na África Ocidental em 1998. Para matar 12 diplomatas norte-americanos, os terroristas dispuseram-se a trucidar mais de 200 africanos, muitos deles muçulmanos, que estavam nas proximidades”.

A mesma falta de consideração pela vida humana, numa escala imensamente mais ampla, subjaz às ações em Nova York e Washington em 11 de setembro de 2001.

Talvez a versão mais abominável dessa opção pelo massacre de inocentes tenha sido materializada nos recentes ataques a Paris, Bruxelas, Nice e Istambul, onde centenas de pessoas foram mortas em nome de uma causa esdrúxula e sem a menor racionalidade.

Proclamado em junho de 2014 pelo “califa” Abu Bakr al Bagdadi, que se declara o descendente mais próximo de Maomé, o Estado Islâmico se propõe a levar a jihad às últimas consequências, com base na crença de muitos muçulmanos radicais de que a jihad tem o mesmo significado histórico das cruzadas nos Lugares Santos.

O EI conquistou territórios localizados na Síria, Iraque e Líbia, nos quais localizou sua militância armada, embora tenha sofrido duros golpes pela retaliação da força aérea da coalizão ocidental.

Esse fato levou os ideólogos do movimento a recrutar terroristas suicidas em países considerados inimigos e, que por essa condição calcada numa espécie de lei de Talião unilateral (como foi a condenação a morte do romancista Salman Rushdie pelo aitolá Khomeini), devem ser atacados e desmoralizados tanto quanto for possível.

Não foi sem motivo que o filósofo francês contemporâneo, André Gluksmann, diante do horrendo espetáculo do terrorismo foi levado a escrever em O discurso do ódio (Difel, RJ, 2007): “Uma bomba humana funciona movida a ódio. Essa fantástica energia destrutiva arranca o pretendente das normas da vida cotidiana para desencadear uma dinâmica de aniquilação do outro que incita ao próprio o sacrifício de si. Nada é mais comum, nada é mais doutamente admitido do que classificar essa decisão suicida como parte integrante do arquivo das alienações mentais. O retrato-robô do assassino islâmico corrobora esse juízo antecipado: o homem-bomba seria uma espécie de desequilibrado mental. Conjugaria fanatismo ideológico e simplicidade de espírito, pois apenas um louco, um paranoico, um esquizofrênico, um drogado, sei lá, pode pretender acabar com o mundo e consigo mesmo”.

Uma ideia sobre “A dinâmica da aniquilação

  1. Zé Povinho

    Que explicação mais fácil esta do filósofo francês, todo terrorista é um desequilibrado mental, um fanático religioso, só faltou acrescentar que o cara é um mal amado, feio, desempregado, dono de muito baixa autoestima e ruim de cama. Deixei escapar alguma coisa? É assim que franceses, belgas e alemães tratam o terrorismo, estão bem nesta parada, bem mal.

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