6:57Pátria corruptora

por Célio Heitor Guimarães

Você pode não ser e certamente não é, prezado leitor. Eu também ainda não tive o privilégio de sentir essa emoção. No meu caso, por pura falta de competência, porque por falta de oportunidade não foi. Mas que neste país tem corrupto saindo pelo “ladrão” (o trocadilho é proposital), tem. Sob o comando ou conivência de autoridades públicas.

E a conclusão não é minha. Tampouco da “oposição derrotista e da imprensa marronzista”, como diria o saudoso Odorico Paraguaçu. É da conceituada ONG Transparência Internacional, cuja avaliação, de âmbito mundial e pelo processo de votação, acaba de elevar o Brasil no ranking da bandalheira pública. Do 69º lugar, em 2014, pulamos no ano passado para o 76º, em termos de decência. Quer dizer: em apenas um ano, subimos sete degraus na escala da desonestidade – maior índice de uma nação em comparação ao ano anterior.

Há um “consolo”: na olimpíada da patifaria, dividimos a 76ª posição com “atletas” do nível da Bósnia Herzegovina, Burkina Faso (alguém sabe onde fica isso?), Índia, Tailândia, Tunísia e Zâmbia. E é melhor ficarmos por aqui para não piorarmos ainda mais a coisa.

Isso me faz lembrar de um episódio vivido pelo jornalista curitibano Altair Carlos Pimpão, que fez história no rádio e jornal catarinenses, e que foi narrado por ele próprio em “Crônicas de Blumenau” (Letra Viva, 1996).

Conta o nosso Pimpão que, logo que chegou ao Vale do Itajaí, na flor de seus 19 anos, “disposto a revolucionar e consertar o mundo”, soube que estava havendo mutreta no serviço de extração de areia do rio Itajaí-Açu, levado a efeito pela própria municipalidade de Blumenau. Para cada dois caminhões de areia que eram retirados, marcava-se apenas um. Quer dizer: a Prefeitura recebia o preço pago por um caminhão de areia, enquanto o dinheiro do outro era embolsado pelos próprios funcionários municipais que desenvolviam aquela atividade.

Pimpão não se conteve. Escreveu um violento comentário e mandou-o para o ar, pelas ondas da Rádio Difusora, em pleno horário nobre do rádio da época, entre as 12 e 13 horas.

Quando retornou do almoço, disseram-lhe que o prefeito estava à sua procura. Orgulhoso, estufou o peito e correu ao Paço Municipal. Ali foi recebido com toda a amabilidade, ganhou um cafezinho e os cumprimentos pessoais do prefeito.

O alcaide, Frederico Guilherme Busch Jr., era um sujeito tão experimentado e respeitado quanto pragmático. Afirmou que Pimpão tinha toda a razão, lamentou o fato denunciado e indagou o que o jovem repórter sugeria que se fizesse para acabar com o furto da areia.

— Ora, prefeito! É só colocar lá um fiscal! – respondeu de pronto o nosso justiceiro, com todo o entusiasmo juvenil.

Pois o prefeito Busch Jr., que trazia na boca vistosa piteira, soltou uma demorada baforada e ofereceu, ali mesmo, uma inesquecível lição político-administrativa ao paranaense Altair Pimpão.

— Só que se eu colocar lá um fiscal, aí vão tirar três caminhões de areia e marcar apenas um – replicou, sem dar condições para tréplica.

Eis aí um retrato da realidade pública brasileira. Colhido no final da década de 50. De lá para cá, as coisas evoluíram, tornaram-se mais sofisticadas e diversificaram-se. Já não se furta mais meros punhados de areia de rio, mas sim milhões de reais de recursos públicos, que, surrupiados através da maior empresa pública deste país, vão engrossar contas de bandidos em bancos suíços, caribenhos e do principado monegasco. E os agentes da gatunagem – os patifes, oportunistas e maus-caracteres – não são mais simples funcionários municipais, mas estreladas figuras da vida pública nacional, agindo na penumbra do poder e muitas vezes abrigadas até em palácios governamentais sob as asas protetoras de reis e rainhas.

Não tem jeito, leitor! Não dá para contestar. Chore comigo: estamos no pódio e este troféu, desgraçadamente, é nosso! E como é antevéspera de Carnaval, cabe evocar aqui o grande Zé Kety:

“Quanto riso, oh, quanta alegria! / Mais de mil palhaços no salão…”

2 ideias sobre “Pátria corruptora

  1. Sergio Silvestre

    Depois de ler o texto acima do Guilherme Boulos,posso dizer categoricamente que somos 200 milhões de palhaços rindo do que meia duzia de barões da mídia nos oferece como circo e informação.

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