11:00As vantagens do vazio

por Yuri Vasconcelos Silva

Richard Rogers, um dos arquitetos do inovador e polêmico Centro Georges Pompidou na Paris dos anos setenta, esteve em Curitiba há alguns anos. A convite de Jaime Lerner, alunos, professores e simpatizantes da arquitetura e do urbanismo lotaram o auditório do MON naquela tarde. Todos queriam ouvir o que um os fundadores da arquitetura hi-tech teria a dizer na outrora proclamada cidade modelo.

O carro, que em breve ultrapassará Odete Roitman e Darth Vader como vilão desta história, foi um dos destaques no parlatório de Rogers. Com um elegante sotaque inglês, ele bateu nele até não sobrar nada. Rogers reforçou o conceito de moradia próxima ao local de trabalho e lazer, de modo a eliminar o veículo da equação. Os deslocamentos deveriam ocorrer a pé, bicicleta ou transporte coletivo. Trabalhar em casa seria o estado da perfeição. Mas a realidade é diferente. Ele citou o conceito americano de condomínios nos subúrbios dos centros urbanos como o pesadelo para a mobilidade urbana, pois obriga o estado a gastar com infraestrutura viária e ocupar espaços que são caros. Já o morador é obrigado a ter um ou mais carros, emitir carbono e contribuir um pouco mais para o aquecimento desta imensa bola azul.

No Brasil, a onda de condomínios afastados não é tão onipresente quanto nos Estados Unidos. O termo “subúrbio” aqui tem uma conotação bem diferente. A população mais pobre, empurrada pela especulação imobiliária e gentrificação*, vive nos contornos e além da cidade. Para trabalhar e consumir, usam transporte coletivo, bicicleta ou as pernas. Não por consciência ecológica, mas por necessidade. Nos dois casos, a casa no subúrbio serve apenas para pernoitar.

Sem generalizar, Richard Rogers sabe que existe outra categoria de suburbanos. Aqueles que passaram boa parte da vida dentro do caldeirão da metrópole e, cansados de tantos ruídos, odores e palavrões, buscaram refúgio fora. Mas não longe. Viver no campo pode trazer benefícios transformadores para seus moradores. O silêncio é um deles. Ouvir os próprios pensamentos é sempre recomendado. Morar sobre uma academia, por exemplo, não permite tal exercício. O campo oferece a ausência necessária ao espírito humano. Ter espaço para o olhar e avistar longe o horizonte. Ter o céu desobstruído. Sentir a umidade do mato em flores. O som natural, no volume perfeito, de grilos, borboletas e frutos maduros sobre folhas secas. A ausência de gente também faz bem. Este vazio não pode ser encontrado na cidade.

A ausência é capaz de treinar os olhos e os sentimentos também. A cidade brutaliza os sentidos. Talvez por isso as pessoas se fecham e não enxergam a beleza distribuída por aí. Tampouco o sofrimento. Quem vive no campo, ao avistar uma pessoa largada ao chão, se preocupa de imediato. A miséria ou a dor não é uma constante e, por isso, chama a atenção. Na cidade, vários corpos no chão, maltrapilhos, são invisíveis aos olhos dos passantes.

Concentrar na cidade o viver, morar e lazer é uma boa solução para a mobilidade. Mas uma temporada no campo sempre faz bem ao espírito.

*Gentrificação – processo que altera as características e a dinâmica de um bairro ou região, devido à introdução de novos pontos comerciais, empreendimentos imobiliários, corporativos e revitalização urbana. Valoriza e aumenta os custos da região afetada, impossibilitando a permanência dos antigos moradores. 

*Yuri Vasconcelos Silva é arquiteto

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