7:30Aprendizado de vida

por Sergio Brandão

A sala fica no andar de baixo. Como se fosse um porão de uma casa, embora seja nova, de construção apropriada para receber os seus assíduos frequentadores. Mas é esta parte da casa que escolheram para receber um público bem seleto. Provavelmente porque precisa ser um espaço reservado, que mantenha o isolamento de quem quer sossego naquele momento tão doído, de colocar o cateter, de achar a veia, de fazer uma terapia longa, que debilita e que às vezes cansa.

Várias poltronas confortáveis, uma ao lado da outra, têm também um banquinho que serve de apoio aos parentes que acompanham os pacientes em tratamento da quimioterapia.

Na minha frente, um senhor reclama de dor ao filho que segura sua mão. O rapaz ouve o lamento do pai concordando, balançando a cabeça afirmativamente. Sinal de quem sabe o tamanho da dor que sente. Demostra sentir a mesma coisa em seu coração. Percebo que às vezes morde os lábios para não chorar na frente do pai.

A porta se abre, o filho corre em direção à médica que acaba de chegar. Ela ouve o apelo em nome do pai. Os dois – médica e filho – vão para um canto da sala, onde não possam ser vistos pelo senhor que reclama de dor.

O rapaz parece fazer um relato à doutora. Seguem na conversa por uns cinco minutos. Assim que terminam, a médica sai em atendimento a outros afazeres pela clínica em conversas que me parecem ordens à equipe de enfermagem.

Só depois segue até o paciente que reclama de dores. O filho observa de longe. Aproveita e solta o choro que segurava, um choro só de lágrimas, que não faz barulho. A doutora segura a mão do paciente e juntos negociam a internação dele. Ela apalpa a barriga do paciente onde imagino esteja doendo. A fala dele é mansa, cansada. A médica diz que vai aumentar a dose do remédio que ele recebe pela veia, mas que se a dor persistir, à noite vai precisar ser internado mais uma vez. O filho ainda chora num canto, agora consolado por uma mulher.

Logo chega uma nova enfermeira que ainda não tinha visto por ali. É a terceira vez que vou lá. Ela cumprimenta a todos e passa de um por um, como quem examina se o procedimento da terapia está correto. Educadamente conversa amenidades com cada um. Me olha e também sorri, me chamando pelo nome. Acho estranho, ainda não tínhamos sido apresentados. Demoro pra perceber que na verdade a figura estranha ali sou eu, com um procedimento fora do padrão, por isso ela sabia quem eu sou e que a minha aplicação é a única fora de todo aquele contexto, naquela tarde.

Ela me diz mais tarde que normalmente o ambiente é mais alegre, às vezes até parece encontro de velhos amigos que se encontram para um dia de conversa na clínica. Naquele dia, especialmente por conta do senhor, que sentia dores, junto com seu filho, que também tinha dores no coração, passavam pelo primeiro grande teste em determinada fase do tratamento. O silêncio dos demais era de respeito. Se eu fosse mais atento, teria percebido antes que o ambiente tinha mesmo ares que conspiravam a favor da vida.

No meio da minha aplicação – uma injeção – a enfermeira me pergunta se está doendo e se está tudo bem comigo. Antes de responder, lembrei de cada um dos pacientes que passavam por mais uma etapa do tratamento de quimioterapia na sala ao lado. A injeção que ela me aplicava estava doendo, mas tive vergonha de reclamar, como estou com vergonha de reclamar que ainda dói. Minhas dores não são aquelas, nem de perto.

Este aprendizado é a maior de todas as minhas maratonas. Fico atento, tentando aprender com cada uma destas histórias. Cada uma delas conta um pedaço de vida importante para alguém.
Viva a vida!

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