6:51É preciso manter a luz

por Célio Heitor Guimarães

Dos autores nacionais, o que me dá mais prazer reler é ainda o velho Erico. O Veríssimo, pai de Luís Fernando. Que, entre outras obras, deixou-nos “O Tempo e o Vento”, “Incidente em Antares” e “Solo de Clarineta”. Como escritor e ser humano, esse gaúcho de Cruz Alta foi e continua sendo um dos meus tipos favoritos. Um brasileiro que faz muita falta à literatura e ao Brasil.

Além de romancista de mão-cheia, consagrado internacionalmente – ou contador de histórias, como preferia designar-se, “fascinado pelas pessoas e pelos problemas humanos” –, lido e aclamado em vários idiomas, Erico Veríssimo era um homem de posições definidas e corajosas (sem que coragem, no caso, se confundisse com valentia, tão própria dos pampas riograndenses), consciente e participante, cuja voz – como anotou o professor Sérgio Gonzaga –, “independente dos livros que escrevia, ecoava por toda a Nação”. E, numa época que ainda existia esquerda e direita, ousou atacar as duas. Em defesa da democracia e da liberdade de expressão. Exatamente quando essas duas instituições eram palavras malditas, abominadas pelo poder dominante e banidas do vocabulário brasileiro – os anos de chumbo da ditadura militar.

Contava Erico que esse negócio de liberdade fazia-lhe lembrar sempre de um episódio de sua infância, na terra natal: “Quando menino, fui chamado a segurar uma lâmpada, enquanto um soldado operava um pobre-diabo que tinha sido ‘carneado’ pela polícia municipal. Ele estava horrivelmente ferido, apareciam-lhe os intestinos e tinha o rosto todo retalhado. Eu sentia medo e náusea, mas não larguei a lâmpada. Acho que a nossa tarefa, como escritor, é esta: com medo ou não, segurar a lâmpada acesa para deixar que apareçam as injustiças do mundo”.

E acentuava: “Se não tivermos um lâmpada elétrica, acendamos o nosso toco de vela ou, no último caso, risquemos fósforos repetidamente, como um sinal de que não desertamos de nosso posto”.

Esse era Erico.

Assim também deveriam ser os nossos jornalistas. Com náusea ou com medo, sustentar acesa a luz que desnuda aos olhos da população os vendilhões da pátria, os falsos defensores do povo, os corruptos e os corruptores do dinheiro público. É o que tem feito, nesta Curitiba de todas as gentes, o jovem James Alberti e sua equipe, da RPC/Gazeta do Povo, Prêmio Esso de Jornalismo em 2010. Não os conheço pessoalmente, mas aprendi a respeitar o trabalho deles. Volta e meia, depois de um exaustivo trabalho investigativo e antecipando-se, até, ao trabalho da polícia e do Ministério Público, James e seus companheiros têm colocado a nu autoridades públicas que melhor estariam acomodadas atrás das grades. Essa é a imprensa dos nossos sonhos.

Modestamente, tenho procurado fazer a minha parte, gastando os meus palitos de fósforo como me tem sido possível. Sem medo, mas com muita náusea, confesso.

Por isso, sempre tive Erico Veríssimo como um exemplo. De competência profissional, de dignidade, de integridade e de coragem pessoal, além, sobretudo, de coerência: um destemido soldado na defesa dos direitos humanos e da liberdade de pensamento e da ação, com acentuado sentimento de justiça e repugnância pela violência e por qualquer tipo de tirania ou totalitarismo.

Ele, aliás, tinha apenas um receio confessado: de perder a capacidade de indignação e cair na resignada aceitação.

“Não quero ser indiferente” – frisava, acrescentando: “Dentro de mim ouço sempre o meu grito de indignação. Quando choro pelo outro, sei que estou chorando por mim. Quando tenho receio pelo outro, tenho-o também por mim. Não sou santo, sou apenas um homem”.

Sim, apenas um homem, mas um homem que era fascinado pela capacidade humana de sobreviver e para quem o grande herói deste País sempre foi e sempre será o povo, o ser comum, que, se continua vivo, é de teimoso.

Até porque, como também dizia Erico, “no Brasil, infelizmente, o governo não é exercido por estadistas, mas por homens de negócio”.

Isto foi dito há algum tempo, mas, como se sabe, as coisas não mudaram muito desde então.

3 ideias sobre “É preciso manter a luz

  1. wilson portes

    Grande Célio!!! Como sempre, acertou na mosca …
    A precisão na abordagem da personalidade maiúscula de um dos maiores literatos de nosso tempo demonstra que, também em nossa época de Ipod’s, Smartphones e quejandos, surgem vozes como a sua, que não deixam a lâmpada se apagar, ainda que seja necessário sufocar a náusea pelo espetáculo deprimente que se agiganta aos nossos olhos.
    Mantenha sempre acesa essa chama que ilumina as mentes não embotadas pelo triste espetáculo deste momento na vida brasileira.

    Jornalista Wilson Portes

  2. James Alberti

    Caro Célio Guimarães,
    como você mesmo disse, não o conheço, nem tenho seus contatos.
    Li com alegria a citação que você fez a mim e aos meus colegas da RPC… Ela nos comove e nos orgulha!
    Faço aqui meu agradecimento publicamente. Em meu nome e em nome dos meus colegas, muitíssimo obrigado pela gentileza e por esse reconhecimento.
    Um forte abraço,
    James Alberti.

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