15:01PARA JAMAIS ESQUECER

joão bosco e aldir blanc

 João Bosco e Aldir Blanc

 

O Brasil tem jeito, sim. O Brasil brasileiro cuja alma multifacetada foi sentida, estudada e retratada por Darci Ribeiro, Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Glauber Rocha, Ariano Suassuna, Lima Barreto, João Cabral de Melo Neto, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, Jorge Amado, Manoel de Barros, Machado de Assis, João Ubaldo Ribeiro, Nelson Rodrigues, João Antonio, por aí. O Brasil tem jeito porque aqui na terra da farofa João Bosco e Aldir Blanc voltaram a se encontrar, a tomar cangibrina, a compor, a gravar, a mostrar em som e letra com quantos paus de faz uma canoa para navegar acima da merdança generalizada. Essa é a melhor notícia dos últimos anos. O disco está nas lojas e leva o nome que é a cara deles: “Não Vou pro Céu, Mas já Não Vivo no Chão” . Tem quatro músicas destes monstros sagrados: “Navalha”, “Mentiras de Verdade”, “Plural Singular” e “Sonho de Caramujo”. Quatro músicas onde o violão do João, tão bom quanto o do outro João, se casa com a letra de um dos maiores poetas do Brasil, porque Aldir é band-aid no calcanhar, rabo de tatu, linguiça e paio, escadas da Penha, acreditar na existência dourada do sol, linha de passe, tiro de misericórdia, enfim. Um dia jogaram Galos de Briga dentro de um Fusca branco que trafegava por ruas de terra diante do Atlântico no Norte  do litoral de São Paulo. Eles entraram dentro da alma do piá de cabelo de milico junto com a fumaça fedida. A fumaça se foi há tempos, os dois ficaram para sempre e foi muito triste acompanhar todos estes anos  da separação. Bosco tateou, segurou a marimba com sua voz, seu som, fez uma parceria excepcional com Wally Salomão e Antonio Cícero. Aldir ficou lá, escrevendo sobre o simpatia só amor, compondo, tomando, gravando raros discos onde dá para cortar com gilete o ar do cabaré que ainda existe numa quebrada do centro velho do Rio de Janeiro. Ele, Aldir, se juntou a outro monstro, Guinga, e nos enfiou dentro do Catavento e Girassol do sumidouro do espelho. De mansinho, contudo, se reaproximaram, e ninguém quer saber porque brigaram, porque isso não interessa. Bosco cantou no último do Aldir. Agora reaparecem no disco, em quatro inéditas. Amém. Saravá. O Brasil tem jeito!

 

*Texto publicado em 18 de julho de 2009

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