8:32Vem aí um conclave inesquecível

por Elio Gaspari

Tudo o que se pode esperar da escolha do sucessor de Bento 16 é o fim de um Vaticano eurocêntrico. Desde que Karol Wojtyla tornou-se João Paulo 2º a Europa é o centro das atenções da Cúria.

O papa polonês cumpriu uma fenomenal missão histórica ajudando a desmontar décadas de tolerância com as ditaduras comunistas. Seu sucessor teve um pontificado medíocre enrolado pela tolerância com escândalos sexuais e financeiros de sacerdotes.

Um deles passou de raspão pelo Brasil, num trambique do namorado da atriz Anne Hathaway, sócio do sobrinho do atual decano do Colégio de Cardeais, o poderoso ex-secretário de Estado Angelo Sodano. A moça micou em US$ 135 mil e o rapaz foi preso nos Estados Unidos.

As dificuldades do Vaticano com suas finanças são antigas. Foi Pio 9º quem avisou: “Posso ser infalível, mas estou falido.” Já os desempenhos sexuais de alguns sacerdotes, mesmo sendo coisa antiga, tornaram-se uma encrenca recente, com a qual João Paulo 2º e Bento 16 nunca conseguiram lidar direito, envenenando a missão pastoral de dioceses europeias e americanas.

O eurocentrismo da Cúria Romana refletiu-se no Brasil. Durante o pontificado de Paulo 6º, Pindorama passou de dois para oito cardeais. Hoje tem cinco. Bento 16 deixou sem o barrete cardinalício as arquidioceses de Rio e Brasília. Porto Alegre teve cardeal e está sem.

Recife, a primeira sé cardinalícia do país, está na segunda divisão desde os anos 60, quando a ditadura hostilizava d. Helder Câmara e não queria vê-lo cardeal. Se foi econômico com os barretes brasileiros, Bento 16 foi generoso aspergindo-os pela Europa. Elevou a diocese de Valência (800 mil habitantes), na Espanha, mas não confirmou o barrete de Porto Alegre (1,4 milhão de habitantes).

Quem especular o nome do sucessor de Ratzinger pode jogar cara ou coroa. Nos seis últimos conclaves elegeram-se três favoritos (Ratzinger, Paulo 6º e Pio 12) e três azarões (João Paulo 2º, João Paulo 1º e João 23, um gorducho que mal cabia nas vestes preparadas pelos alfaiates que trabalharam no conclave).

Pode-se esperar que depois de um papa saído da academia de teólogos e da burocracia de Roma, venha um pastor, como os dois João Paulo e João 23. Um administrador de diocese do Terceiro Mundo uniria o útil ao agradável. É assim que entra nas listas, com um sopro romano, o cardeal de São Paulo, d. Odilo Scherer, pastor de uma das maiores arquidioceses do mundo. Aos 63 anos, teria um longo pontificado.

Ele tem uma característica anfíbia. É brasileiro, mas, como quatro outros cardeais brasileiros (Cláudio Hummes, Paulo Evaristo Arns, Aloísio Lorscheider e Vicente Scherer, seu parente distante), descende da imigração alemã. A mola mestra da eleição dos dois últimos papas foi a capacidade de articulação da hierarquia alemã.

D. Odilo lidera a facção conservadora do clero brasileiro, derrotada na última eleição da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) e nas eleições gerais em que se meteu. Para consumo mundial, preenche o requisito de um papa do Terceiro Mundo, condição só superável pela escolha de um africano como Francis Arinze, de Lagos, na Nigéria.

Mais que africano, Arinze tem 80 anos e passou 25 em Roma. Seria um papa de transição. Com uma eleição marcada para o fim de março e um papa vivo, vem aí um conclave inesquecível.

*Publicado na Folha de São Paulo

4 ideias sobre “Vem aí um conclave inesquecível

  1. marcelo santana

    Se nem o papa manda na igreja ele é apenas uma figura decorativa e promoter, afinal quem manda de fato na igreja e nunca aparece.

  2. Trabalhador

    O Élio Gaspare é um jornalista de 1ª linha, escreve para “O Globo. A reportagem é boa, bem escrita, interessante, uma pena que ele a jogou no lixo por escrever esse comentário: “um gorducho que mal cabia nas vestes preparadas pelos alfaiates que trabalharam durante o conclave”. Sorte dele quo o Papa João XXIII já morreu e não poderá processá-lo por, digamos, “gordofobia”. Prezado jornalista, João XXIII foi um grande refomador da igreja católica, além de renovar a igreja escreveu 8 incíclicas, entre elas a “Pacem in Terris” (sobre a Paz de todos os povos na base da Verdade, Justiça, Caridade e Liberdade). Então esse “gorducho” simplesmente é um dos maiores papas que já tivemos e uma das grandes figuras do século XX. Acredito que utilizou muito mal o termo em seu artigo, acredito que os grandes jornalistas não necessitam baixar o nível. Que tal o seu editor fazer uma reforma em “O Globo” e meter-lhe um pé nas nadegas?

  3. Didi Mocó

    Os políticos paranenses preparam-se para lançar um papa verba, um papa gafanhoto, um papa cargo, um papa comissão, um papa gabinete, um papa secretária, um papa vaga no TC, um papa diária, vamos esperar pra ver que será !!!!!

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