Uma ideia sobre “A VIDA COMO ELA É

  1. Parreiras Rodrigues

    PARECE O TOCO.

    Um casal de pardal fez um ninho num cano do pandominio, onde moro. Apesar do barulho, nasceu um par. O gato da vizinha logo se assanhou. Eu cobri de papel a grade da janela que dava acesso ao ninho e lambuzei de graxa o cano, para lhe dificultar o ataque. Um dêles, caia no piso. Eu, da janela do meu bat-escritório a lhe cuidar. Ele começou com vôos de metro e meio, foi pros três, quatro e logo ganhou os céus – tudo sob a vigilância paterna e minha. Os pais, sempre por perto. Eu, em riba. O outro, caiu do ninho, eu o recoloquei. Caia de novo, cambaleava, se esforçava para decolar. Tava muito devagar. Requereu minha maior atenção e eu a deferi. No terceiro dia, observei-o melhor. Lhe faltavam penas no rabo. Passei a chamá-lo de Toco. Como demorava muito para alçar vôo (alçar vôo é porreta, né ZéBeTo?), levei-o para o jardim. Coloquei lá, no meio da grama, uma tigela com água e de tempo em tempo, banana, mamão, alpiste que faziam a festa também da faúna aérea da vizinhança toda. No começo, ele se escondia e por causa das suas cores cinzentas, dizia que se camuflava. Era um-pássaro camaleão. Quando o via no pátio de cimento, desprotegido, eu o enxotava para o gramado, para o meio das plantas, para protegê-lo dalgum felino. Mas o enxotava carinhosamente: Vamos, Toco, vai Toco, voa Toco. Semana depois, viu em mim um amigo, um aliado e já nem se escondia mais. E me olhava quando lhe levava fatia de mamão com semente e tudo. E se deixou fotografar. E sorria prá mim. A mãe, do galho dum abacateiro do vizinho pensava: Amigo do meu filho é amigo meu também – e de lá assistia a feitura duma amizade.
    Os vizinhos bípedes mas implumes do prédio, sabiam da assistência e me perguntavam dos progressos. Disse prá prof.a Dulcélia, do 5: Amanhã ou depois ele já voa…
    No amanhã, eu ví Toco, morto.
    Tinha sido esmagado.
    Faz mês, mas chorei, como estou chorando agora escrevendo essa porra.
    Não quero saber quem esmagou Toco.
    Prefiro me enganar pensando ter sido o gato da vizinha do 14.

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