7:12Muitas palavras e pouca conversa

por Ivan Schmidt

Morreu em São Paulo o poeta concretista, artista gráfico e professor de comunicação, Décio Pignatari, ao completar 85 anos. Quando o caixão desceu ao túmulo os presentes cantaram (era um pedido de Décio) a música “Peixe vivo”. Não sei se ele apreciava o jazz, mas imagino que este teria sido um momento adequado para tocar aquela composição típica dos enterros em New Orleans, cujo título é (em tradução livre) “Quando os santos vão marchando”.

Pignatari foi, sem a menor dúvida, um dos “santos” da cultura brasileira e, embora já estivesse em silêncio há alguns anos, atingido pela doença, continuará a fazer uma falta imensurável.

Homem de pouca conversa, apesar de ter escrito muito, Pignatari morou vários anos em Curitiba, nas proximidades do Bosque João Paulo II, onde caminhava e se exercitava todas as manhãs. Foi lá que o conheci e puxei papo algumas vezes (poucas), porque logo percebi não ser fácil a aproximação. Aos domingos, invariavelmente, ele ia a uma banca de jornais na esquina da rua onde morava com a Marechal Hermes, à qual eu também frequentava. E, no local, tivemos algumas conversas fortuitas.

Num desses papos contei a ele que havia acabado de ler o livro Cultura pós-nacionalista, editado pela Imago em 1998 (estávamos em 2000) e a resposta me surpreendeu pela sinceridade. Foi mais ou menos assim: “Esse foi um dos livros em que mais acreditei, mas infelizmente nada aconteceu”. Certamente o poeta estava se referindo à venda reduzida do mesmo ou, provavelmente, ao silêncio da crítica.

Na verdade, trata-se de um livro de ensaios, muitos deles publicados anteriormente em jornais e revistas, com aquela prosa característica, pesada, profunda e autêntica pedreira para o leitor impaciente e sem o devido preparo para enfrentar um terreno árido quanto o desbravado pelo pensador em questão.

Para marcar posição na abordagem do que chamou cultura pós-nacionalista, Pignatari escreveu que “de todos os fatores que contribuem para a formação e o desenvolvimento da identidade nacional, aquele que é, ao mesmo tempo, superestrutural e qualitativo, e que eu chamaria de ‘biosfera cultural’, responsável pela própria consciência que se tem de uma cultura nacional, justamente é o de mais difícil detecção e configuração”.

Pignatari admitia ser a unidade linguística observada no país um motivo de orgulho, salientando que a inexistência de dialetos facilitava (e ainda facilita) que todos se entendam “do Oiapoque ao Chuí”. Contudo, supôs que Euclides da Cunha, “o homem que com Os sertões, levou a efeito a interpretação dos sonhos brasileiros”, não compreendesse muito bem o que falava o povo de Canudos, e “muito menos que dois chefes xavantes aculturados, despejados na cidade de São Paulo, estejam em condições de decodificar mais do que 30% do que lhes possam dizer os brancos”. O raciocínio rendeu um comentário sobre o método Paulo Freire, denominado “como instância importantíssima de análise” por ter implicado num esquema de produção de significados rurais e nacionais, “para não dizer nacionalistas, pioneiro exemplar da assunção, pela Igreja, de atividades sociopolíticas explícitas”.

A meu ver, o inegável significado atribuído pelo poeta à língua portuguesa foi qualificá-la como “multinacional ideológica”, com a predominância de vocábulos originados direta ou indiretamente do latim (80%), lamentando, porém, “o baixo teor percentual de palavras de origem tupi, que, no entanto, batizou toponimicamente/tupinimicamente 80% do território brasileiro”. Para logo desabrochar numa constatação das mais melancólicas: “Em muitas universidades brasileiras não há sequer disciplina de tupi, assim como já não se ensinam grego e latim. Sim, talvez devamos começar a falar de novo em ‘raízes do Brasil’… E eu que mal suporto ouvir falar em raíces de América!”.

Em comunicado ao Congresso de Escritores Latino-Americanos, realizado em Lima (1985), Pignatari revelava que esta literatura estava se tornando menos e menos literária, ao passo que “mais e mais cultural, em sentido multimídia”. Não descartava, contudo, a premonição de que “a palavra escrita tem um longo futuro democrático na América Latina”, ao vaticinar que a superação de nacionalismos estreitos, sem perder as raízes profundas, faria surgir uma cultura latino-americana, assim entendida: “Rica e contraditória. Ela vem justamente conquistada – mas que já não está algemada. Resgata-se um povo pela escritura, resgata-se a escritura por um povo – que, afinal, é o criador de nossas línguas, embora nem sempre de nossas linguagens ou de nossas escrituras, dada a miséria a que está submetido pelos demagogos das mais variadas naturezas”.

Menos de três décadas depois, quiseram as luzes que um escritor latino-americano, Mario Vargas Llosa, casualmente peruano, mesmo vivendo na Espanha há muito tempo, fosse distinguido com o Premio Nobel de Literatura.

Nos meados de 1990, Décio Pignatari escreveu um ensaio para a revista da USP, no qual apresentou sua visão de lince sobre ideologia, política e cultura. Suas palavras são como uma verruma: “Enquanto o mundo se abre, o Brasil se fecha, em mais um lamentável episódio das fardas contra os casacas: é a longa noite do Brasil Grande. Embrulhada entre ambas, a cultura brasileira sai choramingando e gritando pela MPB, pelo cinema, pelo teatro, pela poesia dividida entre um retorno do discurso e um avanço de seu curso. A esquerda brasileira, que desconhece Gramsci, é tão reacionária, que é preciso que um ex-camisa verde, seguidor de Plínio Salgado, venha revolucionar o teatro, com o Rei da vela, para espanto do cadáver de Oswald de Andrade, enquanto Nelson Rodrigues, inspirado em Oswald, mas freudpsicologizante, mergulha em revoluções mento-intestinais”.

O grande visionário da cultura pós-nacionalista escreveu, ainda, no mesmo ensaio: “Não há mais guerra, não há mais revolução. As ideias do século XIX estão exauridas. Em consequência da atuação de Stalin, os partidos comunistas brasileiro e latino-americanos em geral são os únicos partidos ideológicos que são fisiológicos: como a revolução não é possível, o jeito é infiltrar-se na máquina estamental”.

Mais claro que água de brejo em dia de tempestade.

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