7:22AS DUAS

por Sergio Brandão

É uma saudação pouco comum a que usam sempre que se encontram. Se olham e piscam o olho direito uma para a outra, e seguem silenciosas rumo ao pavilhão onde trabalham. Parece que a piscada de olho foi o que restou da relação. Depois de um tempo ficaram assim, quase sem assunto. A mais velha até esboça alguma reação, mas a outra não. O encontro acontece na porta da fábrica onde trabalhamos, antes de chegarem ao cartão ponto. Quando não se encontram na entrada, também não se encontram o dia todo. Às vezes não se falam durante dias, pelo menos aqui dentro.

De longe sinto que a mais velha ainda tem interesse na relação. Depois de quase uma semana sem se encontrarem, passei a prestar mais atenção só para ver onde aquilo iria chegar. Foi exatamente uma semana. No sétimo dia elas se encontram no cartão ponto. Cada uma vem de um lado da calçada. Caminham quase juntas para o encontro.

Eu tinha razão! Só a mais velha tenta a conversa além da piscada. Uma vez a piscada foi acompanhada por um meio sorriso, de canto de boca, da mais nova. Ela, como sempre, cabisbaixa, e parece que desta vez resmungou alguma coisa depois da piscada. Como estou longe não entendo e nem tenho certeza se ela tentou mesmo responder alguma coisa. Naquele dia, pela primeira vez, também vejo as duas sentadas lado a lado no banco do pátio, depois do almoço. Mas estão silenciosas. A mais nova fuma. É a primeira vez que a vejo com um cigarro na mão. Fuma até quase o filtro. Suas tragadas são profundas. Demora para soltar a fumaça que sai quase imperceptível pela boca e nariz. Acaba e joga a guimba longe. Se levanta e segue para seu trabalho, sem se despedir, nem nada. Fiquei pensando se cheguei atrasado. Se houve alguma conversa que não testemunhei.

Depois de quase 3 anos, finalmente estou a duas semanas de minhas férias. Ando cansado. Preciso mesmo parar por alguns dias. Não programei nada. Não sei se viajo, se vou ali perto, na praia, ou fico em casa, cuidando de coisas que há muito tempo pedem a minha atenção. As duas continuam com o mesmo comportamento. Penso o que será delas nestes 30 dias das minhas férias. E de mim também… o que farei sem esta história. Algo me diz que não vou sossegar enquanto não ver o fim disso, com as duas voltando às boas. Penso em interferir. Mas logo recuo porque não as conheço pessoalmente e elas podem não me entender. Somos apenas colegas de trabalho e nem me conhecem. Para elas sou mais um entre os 630 funcionários da fábrica.

Quem é este cara para dar palpite nas nossas vidas?, vão dizer. Os dias passam e decido que devo entrar em cena. Hoje é o dia! Amanhã já estarei de férias e não tenho muito tempo. Crio coragem e começo a trabalhar.

Sondo o ambiente. Arrumo coisas para fazer em ambos os departamentos. Primeiro observo as duas que trabalham sem que me percebam. Finalmente me encho de coragem e arrisco com a mais velha. Me aproximo e puxo uma conversa idiota qualquer. Ela me observa de canto de olho sem perder a concentração no que faz – e não me responde. Fico sem jeito, e insisto com algo mais objetivo, perguntando seu nome. Ela me responde dizendo que é Angélica. Finalmente uma delas ganha nome. Falo sobre a mais nova. Ela me olha com cara de quem não entendeu.

“Como assim, ‘a mais nova”, diz ela?

“Aquela moça com quem você sempre conversa.”

Ela me diz que não conversa com ninguém. Tem razão, elas nunca conversam mesmo. Eu tento explicar melhor, me referindo àquela moça com quem ela sempre está junto. Vejo que se atrapalha me dizendo que devo estar enganado. Tento ser mais preciso ainda. Digo que me refiro à moça mais nova que às vezes ela cumprimenta, às vezes chegam juntas se encontrando no pátio e àss vezes se encontram no horário do almoço e se sentam juntas nos bancos lá de fora. Ela me olha com ar de quem ainda não entendeu e dá com os ombros, como se negasse conhecer a mais nova. Sabia que não deveria ter me intrometido nesta história. Mas como já tinha começado, insisto e ela acaba me levando em conta, mas troca os papéis. Me devolve as perguntas.

“Como é esta moça que o senhor vê comigo? Como se veste? Quantos anos ela que têm?”

E finalmente me pergunta: “Onde ela está agora?”

Digo que provavelmente trabalhando.

“Passei por lá e a vi de costas em seu pavilhão”.

Proponho levá-la até ela.

Seguimos até o pavilhão ao lado, onde está a mais nova. E eu com uma enorme de uma interrogação, sem entender direito o que acontecia. No caminho ela me faz outras perguntas. Não pude responder quase nada, afinal só sabia que tinham uma relação melhor e nesta época se falavam. E agora só se cumprimentavam piscando o olho e trocavam meias palavras. Chegamos ao departamento da mais nova. Da porta aponto para ela. Seguimos e nos aproximamos. A uma distância pequena, ela nos percebe e se vira. Me olha e em seguida mira a mais velha. As duas se olham profundamente. Não sei quanto tempo aquilo durou. Elas se olhavam no fundo dos olhos sem nada dizer, mas diziam coisas com os olhos que eu não conseguia entender. Só depois de algum tempo percebo que elas conversam apenas se olhando. Diziam coisas afetuosas uma para a outra. Às vezes a mais velha falava mais asperamente, para depois retomar um tom maternal e restabeleciam o diálogo em tom mais brando. A mais nova perguntou para a mais velha sobre mim. Ela disse que não sabia quem eu era. Que tinha acabado de me conhecer e que não sabia direito o que eu fazia ali. Disse que pelas coisas que havia conversado com ela, estava bem informado sobre elas. O encontro foi interrompido por um senhor que chega dizendo que não era permitido conversas durante o expediente, já me segurando pelo braço e olhando para o meu crachá. Percebe pela cor que eu estava fora do meu setor. Pediu que saísse, me conduzindo até a porta. Para minha surpresa, a mais velha que parecia não ter sido percebida por ele. Caminha um pouco  atrás de mim, calma e pensativa. Espero por ela e pergunto: “Então? Agora você é capaz de me responder? Parece que vocês começam a se entender de novo?” Sem responder ela me olha no fundo dos olhos, como havia feito com a mais nova e sem dizer nada, mas ainda falando com os olhos, me diz que eu não deveria fazer parte daquela história. Também com os olhos, digo que foi com a melhor das intenções, que apenas só queria ver as duas novamente bem. Ainda a caminho do pavilhão onde trabalha me diz que eu precisava medir melhor minhas interferências em assuntos que não me diziam respeito. Me assusto com o tom de suas palavras. Aquilo, dito com os olhos ganharam um tamanho maior ainda.

Olho com indignação, esperando uma explicação que justificasse a gravidade do que eu havia feito.  Ela balança a cabeça e toda solene me pede desculpas. Visivelmente embaraçada me diz que nunca entenderia a relação delas, mas que de qualquer forma precisávamos conversar sobre aquilo. Disse que oportunamente me procuraria para terminar o assunto.

Naquele dia eu sairia muito mais tarde que ela. Fiquei com aquilo martelando em minha cabeça. A cumplicidade nos olhares. A piscada característica delas no cumprimento com o olho direito. Meu Deus!, pensei. Será que estou ficando maluco imaginando tudo isso? Não podia, mas a partir dali aquela história ganhava um suspense inesperado. Fui caminhando lentamente até chegar ao meu local de trabalho sem conseguir tirar aquela conversa que tiveram, apenas com olhares. Os olhos das duas pareciam ter línguas de tanto que falavam. Apenas se olharam e conversaram. Meu Deus! estou mesmo ficando maluco. Que bobagem é esta que estou dizendo. Entender o que duas pessoas conversaram apenas com olhares? Não sei por que, mas de repente me vem a lembrança que moraram, ou ainda moram, não sei, perto de minha casa. Quatro quarteirões para baixo, numa casinha de madeira. Uma vez, por acaso, eu as encontrei no ônibus e coincidentemente descemos no mesmo ponto e a caminho da minha casa vi as duas entrando nesta casa onde deduzi que moravam. Mas isso aconteceu apenas uma vez. Nunca mais as vi, a não ser na fábrica. Nunca mais estiveram tão juntas como naquele dia no ônibus e depois entrando na tal casinha de madeira. Sigo meu caminho e mais tranquilo deixo para elucidar as coisas a partir da conversa que teria, com Angélica. Esperei dois dias e nada. Imaginei que me procurasse. Não foi o que aconteceu.

Já em casa, de férias, continuo na expectativa que me procure. Viajaria no dia seguinte sem conseguir falar com ela. Sabia que não conversaria com Angélica, afinal, ela não tinha meu telefone e nem meu endereço. A história não me sai da cabeça. Acho que estou mesmo ficando maluco. Sigo para uma caminhada. Reproduzo toda a história que do começo ao fim faz todo sentido. Passo o dia pensando novamente na conversa delas. Naquela noite sonho com Angélica. É um sonho próximo do real. Quando me levanto não lembro mais o que sonhei. Isso já passa do limite a ponto de interferir na minha vida. Imagina só, eu em férias, com muitas coisas para fazer, e não consigo tirar as duas da cabeça?

Decido procurar Angélica na fábrica. Mesmo sabendo que corria dois riscos: o primeiro de ser interpretado com incoveniente, me metendo mais uma vez numa história que não me diz respeito, como Angélica mesma já tinha deixado bem claro. Depois porque estava em férias e não tinha nada para fazer no trabalho. Não seria fácil explicar uma ida inesperada até lá.

Conto com a sorte que me acompanha até que chego ao pavilhão onde Angélica trabalha. Olho pela porta de vidro e não a vejo. Entro e pergunto por ela. Uma senhora que saía de uma mesa grande passa por mim. Aproveito e pergunto por ela. Ela pensa por uns segundos e me diz que não conhece. Sugere que pergunte à sua chefe apontando uma moça loira, na ponta da mesa. Vou até ela e repito a pergunta. Ela pede o sobrenome de Angélica. Digo que não sei. Ela pensa um pouco e responde que deve ser em outro setor, porque ali ela não conhecia nenhuma Angélica. Digo que não podia ser em outro setor, era ali mesmo que ela trabalhava. Me apresentei como funcionário da fábrica e disse que já tinha conversado com ela naquele pavilhão, naquele mesmo local. Pergunto se não seria possível ela ter deixado o trabalho por alguma razão. A moça me responde que isso não seria possível porque há meses não havia troca de funcionários e conhecia todos os seus colegas e que já estava há anos no cargo de chefia. E por ali não havia passado nenhuma Angélica. A resposta me provoca um frio na espinha. A minha primeira reação foi correr até o local de trabalho da mais nova. Chego com o coração na boca. Sinto ele pulsando no pescoço.  Na primeira passada de olho não a vejo, mais no canto do pavilhão percebo que ela conversa com outra funcionária. As duas parecem trocar informações sobre uma das peças em produção na fábrica, apontando para um protótipo exposto num balcão. Penso rapidamente como chegar até ela. A minha ansiedade me carrega para dentro do pavilhão. Quando dou conta do que estou fazendo, já estou ao lado dela.

Me olha. Parece me reconhecer. Fico mais tranquilo. Peço desculpas e vou logo me apresentando como aquele amigo da conversa daquele dia com a Angélica. “Como assim?”, diz ela.

“Daquele dia que conversamos nós três, aqui mesmo, lembra-se?”

“Nós três quem?”

“Eu, você e Angélica.”

“Angélica? Que Angélica?”

Engulo seco… meu coração volta a bater no pescoço. Desta vez posso ouvi-lo batendo muito forte dentro de mim. Quase sem coragem consigo lhe perguntar: “Você não conhece nenhuma Angélica?”

“A única Angélica que conheço é minha mãe, mas já morreu faz muitos anos.”

Como se fosse uma forte pancada na cabeça aquela resposta fica ecoando. É o elo de toda aquela história que me atormenta há dias. O início do fim de um enigma que jamais imaginei que pudesse ser exatamente o que acabava de ouvir. Ou ainda devo considerar a minha primeira desconfiança e procurar um analista? É que os sentimentos chegam num nível que não era mais possível defini-los. Todas aquelas histórias beiravam um misto de angústia, ansiedade, solidão, tristeza, alegria, amor. Tudo aquilo junto não me permitia entender nada com exatidão. Também já não tinha segurança se de fato aquilo tudo estava mesmo acontecendo. Chego a pensar que a morte deve ser assim. Sim, porque é o único sentimento que não me lembro de ainda ter sentido…

Angélica foi funcionária durante muitos anos da fábrica. Levou sua filha para trabalhar junto, logo que Maria completou 16 anos. Ensinou Maria e todos os funcionários que passaram pelo setor de montagem enquanto esteve ali. Angélica morreu relativamente cedo, aos 43 anos. Adoeceu e em três dias estava morta. Angélica sempre teve o sentimento de zelo extremo pela filha. Angélica e Maria viveram sozinhas. Angélica se separou cedo do pai de Maria. Logo depois da separação, prometeu que nunca se separaria da filha. Não foi assim fisicamente, agora tenta manter o combinado espiritualmente. Convivi muito pouco com Angélica como seu colega na fábrica. Nem lembrava dela. Assim que entrei na fábrica ela já estava lá há muito tempo. Na ordem, era a terceira mais velha entre todos os funcionários. Já se passaram mais de 10 anos da sua morte. Hoje pago caro por não ter guardado seu rosto, sua fisionomia, seu jeito e principalmente sua história. Teria entendido mais rápido tudo isso. Ter Angélica na minha vida só agora, e desta forma, me fez perceber que vivemos no fio da navalha. Entre um mundo que ainda não explico e o real, mas acima de tudo entendo que o amor é a linguagem silenciosa da vida.

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