8:50O Espírito-que-anda vive!

O Fantasma, no traço de Douglas Kauba

por Célio Heitor Guimarães

Dos heróis de papel da minha meninice e parte da idade já adulta, um dos favoritos sempre foi O Fantasma (The Phantom), criação de Lee Falk. Ele não tinha poderes especiais, mas impunha respeito. E era, sobretudo, misterioso. Eu era fascinado por aquela figura soturna, que envergava uma malha justa roxa (no Brasil, por muito tempo, foi vermelha) e sunga listrada de preto e amarelo sobre o corpo atlético e habitava a Caverna da Caveira, na Floresta Negra; que os pigmeus Bandar, da fictícia selva de Bangala (primeiro, Bengala), com exceção do parceiro Guran, juravam ser imortal; que galopava pelas matas e planícies africanas na garupa do belo corcel branco Herói, acompanhado do fiel Capeto, muito mais lobo do que cão; que chefiava anonimamente a Patrulha da Selva, botava ordem nas tribos indígenas, protegendo-as com o sinal do Fantasma, e combatia piratas, traficantes e a bandidagem de forma geral, marcando os seus queixos com o anel da caveira; que passava as férias na Ilha do Eden, onde os animais selvagens convivem pacificamente, ou na Praia Dourada de Keela-Wee, onde a areia é de ouro em pó; que, quando deixava o seu habitat, vestia um capote xadrez, usava chapéu e óculos escuros e atendia pelo nome de Kit Walker; e cujo rosto nunca foi visto por ninguém, a não ser pela esposa Diana Palmer, da qual fora noivo por mais de 40 anos, e pelos filhos gêmeos Kit Jr. e Heloise, nascidos em 1978. Dizia a lenda que quem visse o Fantasma sem máscara morreria. Outra curiosidade: nos quadrinhos, jamais se viu os olhos dele.

E eu não era o único. Muita gente boa admirava o Fantasma – primeiro herói mascarado dos quadrinhos. O jornalista Luís Nassif, por exemplo, ao escrever a introdução de “O Fantasma – Sempre aos Domingos” (Opera Graphica Editora, 2006), registrou: “Dos gibis da minha infância, poucos tiveram a força e a fantasia do Fantasma, ‘O Espírito-que-anda’, que está completando 70 anos de criação. Descendente de um náufrago branco, que quatro séculos antes veio dar em uma praia de Bengala, na África, depois que piratas mataram seu pai e afundaram o navio em que viajavam, o Fantasma dos anos 50 era o 21º da linhagem”.

The Phantom nasceu da imaginação e genialidade do escritor e produtor teatral norte-americano Lee Falk (na verdade, Leon Harrison Gross, nascido a 28 de abril de 1911, em St. Louis, Missouri, e também criador de Mandrake, o Mágico), que dele cuidou pessoalmente por mais de 60 anos. Mas creio que nem mesmo Falk seria capaz de prever o sucesso que seria o personagem quando a primeira tira de jornal foi publicada, em 17 de fevereiro de 1936. Tampouco o mito que se tornaria – sem dúvida, um dos maiores da história das histórias em quadrinhos.

– Na minha infância – contaria Lee -, eu me interessava muito por mitos e lendas, o que veio a influenciar mais tarde a criação da figura do Fantasma. Ele começou por ser um personagem quase primitivo, mas, gradualmente, fui enriquecendo-o cada vez mais com qualidades excepcionais e a envolvê-lo com façanhas cada vez maiores.

Na verdade, inicialmente, Lee Falk imaginou o herói como um playboy milionário chamado Jimmy Wells que, à noite, vestia o seu exótico traje e colocava uma máscara para combater bandidos e malfeitores. Depois, Falk decidiu fazer dele o herdeiro de uma linha de justiceiros, combatendo permanentemente o crime, como uma tradição que passa de pai para filho. Aí, o personagem deixou de ser um homem comum para se tornar uma lenda. Que já dura mais de 76 anos.

A realidade é que o Fantasma pode não ser imortal, como imaginam os pigmeus Bandar, mas é mais do que septuagenário – como assinala o jornalista Sérgio Augusto, um pioneiros da crítica sobre quadrinhos na imprensa brasileira:

– Quando surgiu nas páginas do American Journal, em fevereiro de 1936, ele já tinha 31 anos de idade e 411 de mitologia. De imediato, calou fundo em seus leitores e até hoje mantém intacto o seu prestígio em mais 500 jornais de quarenta países. Os balãozinhos de suas histórias já foram traduzidos em quinze línguas diferentes, inclusive o inglês “pidgin”, falado pelos nativos na Nova Guiné.

As primeiras tiras de Phantom foram escritas e desenhadas por Lee Falk, que as enviou para o King Features Syndicate, que já distribuía o mágico Mandrake aos jornais norte-americanos. Mas o criador visual do herói foi Ray S. Moore, que deu aos desenhos um estilo noir, com muita luz e sombra, próprio dos filmes policiais da época. Outra reconhecida qualidade de Moore era criar belas mulheres, cheias de sensualidade.

Ray desenhou o Fantasma até 1948 e a sua retirada continua cheia de mistério. Chegou-se a dizer que ele teria morrido no final da década de 40, mas a verdade é que morreu mesmo em janeiro de 1984, aos 78 anos, vítima de um derrame cerebral.

Em 1948, o herói passou às mãos de Wilson McCoy, assistente de Moore. É tido como o pior dos desenhistas do personagem, mas foi quem o consolidou perante o grande público. Foi com ele que surgiram o corcel Herói, a Ilha do Éden, a marca do Fantasma, a Patrulha da Selva, a Caverna da Caveira e as Crônicas do Fantasma. O traço de McCoy era duro, quase caricato, que engrossava a silhueta do personagem de Lee Falk, tornando-o meio gordinho.

Em 1962, Sy Barry assumiu a série. Era, então, assistente do irmão, Dan, que desenhava Flash Gordon. Profundo conhecedor de anatomia e da técnica dos quadrinhos, Sy tinha um estilo limpo, elegante. Foi o único desenhista do Espírito-que-anda durante muitos anos. Depois, passou a contar com alguns assistentes, entre os quais André LeBlanc, um haitiano naturalizado brasileiro, que marcou época na quadrinização de grandes clássicos da literatura nacional para Edições Maravilhosas, de Adolfo Aizen, da Ebal.

Na sequência, The Phantom saiu da prancheta de inúmeros outros artistas, entre os quais Bill Lignante, George Olesen, Keith Williams, Fred Fredericks, Joe Orlando, Graham Nolan, Paul Ryon e os brasileiros Walmir Amaral, Gutemberg Monteiro, Getúlio Delphin, Júlio Shimamoto, Milton Sardella e Primaggio Mantovi.

O Fantasma estreou no Brasil em 28 de março de 1936, no suplemento Correio Universal, com o surpreendente nome de Fantasma Voador, que durou por algum tempo sem nenhuma justificativa, uma vez que ele jamais voou. Depois, passou para a Rio-Gráfica Editora (mais tarde, Editora Globo), frequentando O Globo Juvenil, Gibi, Novo Globo Juvenil, até ganhar revista própria, o Fantasma Magazine, em março de 1953, então com periodicidade bimensal, que foi até o nº 371 (outubro de 1968), fora os almanaques e as edições extras e especial. Publicaram ainda o herói as editoras nacionais Saber, Ebal, Sampa, L&PM, Opera Graphica e Mythos.

Lee Falk morreu em 13 de março de 1999, de ataque cardíaco. Morava em Nova York, em um luxuoso apartamento defronte ao Central Park.

Nos EUA, o herói continua em ação. Como revista (comic book), sua última casa editora foi a Dynamite, que lançou, em 2010, uma minissérie em 12 edições com uma releitura do personagem, intitulada The Lost Phantom (O Último Fantasma). As histórias foram escritas por Scott Beatty, com desenhos do brasileiro Eduardo Ferigato e de Johnny Desjardim, cores de outro brasileiro, Vinicius Andrade, e capas do excelente Alan Ross.

No entanto, a mais antiga editora do Fantasma continua sendo a australiana Frew, que desde 1948 publica, ininterruptamente, o material distribuído pela King Feature, mesclando-o com a produção sofisticada da sueca Egmont.

Já nos jornais, a arte das páginas dominicais foi assumida em 2011 pelo uruguaio Eduardo Barreto, que já ilustrara Superman, Turma Titã e Esquadrão Atari, permanecendo as tiras diárias sob os cuidados de Paul Ryan (desenhos) e Tony DePaul (roteiros). Em abril deste ano, Terry Beatty passou a cuidar também da arte das pranchas dominicais. E o leitor brasileiro torce para que alguma editora brasileira se interesse pelo material.

Enquanto isso não acontece, os fãs do imortal herói poderão deliciar-se com três edições especiais de excepcional qualidade, lançadas no Brasil por quem gosta de quadrinhos e os trata bem: o já antes referido “O Fantasma Sempre aos Domingos” (edição de 2006) e “Fantasma – A Biografia Oficial do Primeiro Herói Fantasiado dos Quadrinhos” (2007), organizados por Franco de Rosa, derradeiros trabalhos da saudosa Opera Graphica Editora, e a reedição de “Fantasma – A Saga do Casamento” (2011), da Editorial Kalaco, do mesmo de Rosa, legítima sucessora da Opera Graphica. A distribuição das edições é da paulistana Comix Book, mas elas poderão ser encontradas (ou encomendadas) na Itiban Comic Shop desta Capital.

2 ideias sobre “O Espírito-que-anda vive!

  1. Ivan Schmidt

    Mais uma vez Célio Heitor esbanja erudição sobre histórias em quadrinhos, que modestamente incluo entre os gêneros literários mais apreciados no mundo inteiro. Meu primeiro contato com Fantasma foi no dinossauro Globo Juvenil Mensal, no início dos anos 50. E tenho uma história que muitos vão interpretar como puro delírio, embora jure pelos meus três netos (o patrimônio mais importante que consegui ajuntar), que é a mais pura verdade. Eu ainda era adolescente, vivia em São José (SC) onde conheci um cara tão fissurado pelas aventuras do Fantasma, que um dia entortou um arame na forma de caveira, esquentou num pequeno fogareiro de álcool e marcou a própria pele com o símbolo do imortal Espirito que anda! Meninos eu vi!

  2. Helio Guerra

    Eu sou um fã do fantasma e tenho que corrigir a informação no seu belo texto… porque, já apareceu sim os olhos dele nas edições brasileiras, na contra capa do Fantasma Magazine nº 01 de 1953, na capa do Almanaque do O Fantasma do ano de 1957 e no O Fantasma Magazine nº 70 de 1962 ( A Rainha Samaris).
    Espero ter ajudado, mas alguma pergunta e só olhar na Confraria do Gibi ou no outro grupo Lee Falk/O Fantasma/Mandrake Brasil.

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