6:32A hora do engulho

por Célio Heitor Guimarães

Há momentos em que a leitura de jornais e revistas, mais que angústia, aflição ou ódio, causa-nos náuseas, uma vontade imensa de colocar para fora as entranhas. Não pelos jornais ou revistas propriamente ditos, que são apenas o espelho do mundo que nos cerca. Mas pelo que eles informam, pelo que são obrigados a trazer a público, já que órgãos de controle da administração pública e de combate à patifaria e à canalhice simplesmente não existem no Brasil. E se existem, não funcionam, quando não fazem parte do esquema.

A Gazeta do Povo, reproduzindo despacho da Agência Estado, denuncia, na edição de sábado, que cerca de 10 mil servidores superlotam o Senado Federal – a grande maioria, com certeza, comissionada, sem concurso, sem habitação e sem a necessidade de comparecer ao serviço. Não fosse apenas isso, a voracidade dos eminentes senadores não tem limite – atualmente a disputa é por gabinetes que chegam a 300 m2…

O notório Jarder Barbalho, o homem da ficha suja, reconduzido a Casa por ordem judicial, acaba de desalojar a diretoria adjunta do Senado, que foi transferida para a sala da Polícia Legislativa, porque o cacique do Pará exigiu ocupar 90% do segundo andar do Anexo I, uma torre de 25 andares próxima
ao Palácio do Planalto. Dali o “boto amazonense” poderá trocar acenos com a doutora Dilma.

Barbalho, aliás, retornou com um sonho e dele não faz segredo: quer retomar a presidência do Senado. O difícil apenas é descobrir qual dos três candidatos é pior: Jader, Sarney ou Renan. Talvez os nobres senadores devessem escolher um “quartus”: o impoluto Fernando, aquelle da casa da Dinda. Está no nível.

O Judiciário que absolveu Jader é o mesmo que combate e faz tudo para desmobilizar o Conselho Nacional de Justiça – uma das poucas coisas boas que aconteceram neste país nos últimos anos; o mesmo que procrastina o julgamento dos “mensaleiros”, na expectativa de que o crime seja prescrito; o mesmo que abriga centenas de figuras suspeitas de aumentar o patrimônio pessoal de forma “atípica”; o mesmo que deveria querer fora do meio, mais do que ninguém, os meliantes de toga, mas que, ao contrário, agita bandeirolas de um corporativismo indecente, pouco se lixando para a opinião pública; o mesmo que cria indecorosas gratificações de refeição, transporte e moradia, com efeito retroativo, que somam milhões de reais, muita vez pagos em uma única parcela ou até antecipadamente.

Aí se abre a revista Época desta semana e flagra-se um virtuoso desembargador federal Francisco de Assis Betti, jactando-se – em meio à encomenda de “umas mulheres para nós” – de ser “bandido”: “Aqui, meu filho, está falando Chico Betti bandido. Eu não tô nem preocupado com Tribunal, não”! Eu tô preocupado é com as suas causas”. Causas que, segundo o Ministério Público Federal, eram as vendas de sentenças judiciais.

E lembrar que já houve tempo em que para galgar os degraus dos tribunais superiores os candidatos, além de notável saber jurídico, eram obrigados a ter reputação ilibada e conduta exemplar!… E se supunha que tais requisitos deveriam persistir mesmo depois de haverem chegado lá…

Então, toma-se ciência pelas redes sociais do singelo caso, que circula na internet, de uma simpática senhorita de boa linhagem, chamada Gloria Maria. Vocacionada para o serviço público, Glorinha prestou concurso para o cargo de técnico-judiciário do STJ. Foi reprovada na prova objetiva. Inconformada, ajuizou uma ação cautelar e obteve liminar. Fez a prova discursiva. Foi reprovada novamente. Entrou com nova ação. Queria ter a sua pontuação aumentada. Conquistou nova liminar. E, graças a isso, foi
nomeada “provisoriamente” – uma interinidade que já dura 16 anos. Com um detalhe: a menina havia tirado 13,45 pontos; pediu para que fossem elevados para 28,22. Conseguiu.

Aí, veio o julgamento do mérito da ação ordinária nº 1998.34.00.001170. O juiz federal de Brasília refutou o pedido, que considerou ilegal e imoral e condenou a autora nas custas e honorários. Claro que moçoila recorreu e – surpresa! – os eminentes julgadores do egrégio Tribunal Regional Federal da 1ª Região reformaram a sentença de 1ª instância e aprovaram dona Glorinha “com louvor”!

Debalde a Universidade de Brasília, a quem coube a realização do concurso, argumentou que o resultado foi correto e que não cabe ao Judiciário corrigir provas de aptidão, posto que, em assim fazendo, estaria a agredir, entre outros, o princípio da isonomia entre os candidatos.

Pudera: Glória Maria Lopes Guimarães de Pádua Ribeiro Portela é filha do ministro Antônio de Pádua Ribeiro, do mesmo STJ, o homem que, segundo se anuncia, deverá suceder a briosa ministra Eliane Calmon na corregedoria do Conselho Nacional de Justiça!…

Salta um plasil duplo!

4 ideias sobre “A hora do engulho

  1. alceu pinto de almeida filho

    A grande causa é a passividade, omissão, apatia e covardia do nosso povo. Se pelo menos 0,5 % de nosso povo saisse do seu conforto e fosse para as ruas protestar no asfalto, calçadas e meio fio teríamos uma situação diferente. A única coisa que assusta esses agentes do mau é a pressão popular nas ruas. O banana do povo brasileiro está conformado com essa situação, não toma atitudes e é o grande responsável por tudo isso. O brasileiro tem vergonha de protestar nas ruas.
    Os malfeitores não têm medo das críticas da internet e da mídia, dissociadas de protestos nas ruas.
    Alguém discorda?

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>