14:51Anorexia literária

por Miguel Sanches Neto

É conhecida a exigência de um mercado de romance para obras de maior fôlego. Livros com mais de 300 páginas tendem a ter mais chance de mercado do que livros curtos, pois o leitor comum sente prazer em conseguir cruzar um território narrativo mais extenso – espécie de Liso do Sussuarão, como na obra maior de Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas.

No dicionário de lugares comuns, seria o livro que para em pé.

Agentes literários estrangeiros reclamam que nossa literatura é seca demais, recomendando um regime de engorda para atender ao gosto do público.

No pólo oposto, o jornalismo cultural brasileiro dá destaque para as obras curtas ou curtíssimas. Faça uma análise das resenhas e verá que a maioria dos títulos resenhados tem menos de 180 páginas. Por quê? Gosto pela brevidade? Concepção moderna de linguagem?

Nada disso, simples circunstâncias editoriais. O jornalista não tem tempo para ler obras mais extensas e escolhe, entre os lançamentos, as de leitura mais rápida. Melhor ainda se for uma história em quadrinhos – que nunca teve tanto espaço em nossa mídia. E assim cumpre a sua função de divulgar “livros”.

 As duas posturas geram equívocos. Um livro é bom indiferentemente do seu tamanho ou de sua natureza, mas quando só se busca o bom entre as obras gordas ou entre as magérrimas, leitor comum e jornalista matam outras possibilidades literárias.

Este quadro ingrato de nossa vida cultural se fortaleceu por conta da substituição do crítico pelo jornalista de cultura, que raciocina em termos de custo e benefício.

Pagar a resenha por páginas lidas seria a solução?

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