12:42Prestes na Biblioteca

por Ivan Schmidt

Arquivo de Prestes doado à Biblioteca Nacional

A viúva de Luiz Carlos Prestes, Maria (atualmente com 81 anos de idade) entregou aos diretores da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, várias pastas contendo documentos pessoais, relatórios de atividades político-partidárias, informes e fotografias pessoais, que dentro de mais algum tempo estarão disponíveis para pesquisadores e interessados no Arquivo Nacional.

Segundo informações, o arquivo Prestes contém a relação nominal de quase 300 torturadores e, talvez seja esta a parte que mais interessa, sobretudo, aos parentes daqueles militantes da luta política desencadeada pelo golpe de abril de 1964, especialmente dos que foram presos e torturados.

Maria, cujo nome de batismo é Altamira Rodrigues Sobral, nasceu em Recife em 2 de fevereiro de 1932. Militante do PCB desde a adolescência, Altamira sofreu sua primeira prisão em 1949, no Recife, ao participar da preparação de um ato de solidariedade às greves de trabalhadores que pipocavam na época. Em 1952 mudou-se para São Paulo, onde conheceu e passou a colaborar com Giocondo Dias em algumas tarefas, além de servir com uma espécie de governanta na casa do secretário-geral do partido, Luiz Carlos Prestes, o já lendário cavaleiro da esperança.

Prestes estimulava Altamira, que já havia adotado o codinome Maria, a estudar e ler, dando-lhe obras de Charles Dickens, Alexandre Dumas, Shakespeare, Máximo Gorki, Dostoievski, Balzac, Graciliano Ramos, Mário de Andrade e Lima Barreto, entre outros. Não demorou muito para a convivência se transformar em romance e casamento, mesmo ante a relutância da militante disciplinada que alegava não possuir formação intelectual suficiente para ajudar o líder nos trabalhos teóricos imprescindíveis à luta revolucionária, como o próprio Prestes reconhecia.

O insignificante entrave foi ignorado pragmaticamente por Luiz Carlos, para quem estar unido a uma mulher instruída em filosofia, história e outras ciências afins, poderia acarretar-lhe muito mais problemas: “Eu tenho minhas ideias, ela teria as dúvidas dela. Fiz um esforço enorme para escapar da minha formação elitista. Com uma mulher intelectualizada, que no Brasil de hoje só pode ser uma representante das classes favorecidas, eu estaria retomando meu lado pequeno-burguês”. A citação está no livro escrito por Maria Prestes (Meu companheiro), publicado pela Rocco, RJ, em 1993.

Maria acabou assumindo o lugar da alemã Olga Benário, primeira mulher do cavaleiro da esperança, presa e entregue pela polícia política da ditadura Vargas à Gestapo, que a enforcou num campo de concentração. A diferença de idade entre Prestes e Maria era bastante acentuada, mas nem isso impediu a união de ambos.

A organização partidária achou por bem centralizar as operações no Rio de Janeiro e Prestes passou a residir numa casa situada na rua 19 de Fevereiro em Botafogo. O aparelho foi muitas vezes visitado por Giocondo Dias, Carlos Marighella, Agliberto Azevedo, João Amazonas e Maurício Grabois. Foi nessa época conturbada da política nacional, incluindo a ação clandestina dos comunistas, que Maria percebeu os enormes preconceitos existentes entre os pretensos seguidores do marxismo-leninismo. É também desse período a prisão de Luiz Carlos Prestes, que somente seria relaxada com a queda da ditadura em 1945.

Com o golpe de 64, Prestes foi o primeiro nome da primeira lista de políticos cassados. Em meio ao clima de insegurança, delações e assédio policial, a família acabou se transferindo (em diferentes etapas) para Moscou, onde os nove filhos tiveram praticamente sua educação formal. Prestes foi o primeiro a tomar o rumo de Moscou e ao se despedir de Maria garantiu fazer o possível para minimizar o sofrimento dela e das crianças. “Quis enveredar pela lógica de que foi um erro constituir tão numerosa família”, escreveu ela.

Maria fugiu sozinha pela fronteira do Paraguai e de Buenos Aires tomou um avião para Paris, onde não teve nenhum apoio de elementos do comunismo internacional. Diplomatas da embaixada soviética providenciaram seu imediato embarque para Moscou pela Aeroflot. Os filhos foram mais tarde, com o auxílio do advogado Aldo Lins que legalizou as certidões de nascimento da autêntica escadinha.

É possível que muitas dessas histórias estejam relatadas no arquivo de Prestes, do qual há uma amostra na edição atual da Revista de História da Biblioteca Nacional. Para saber mais recomendo a leitura do livro de Maria Prestes, que nos brinda com uma “entregada” do Velho: quando a luta política arrefecia, ele passava os dias resolvendo problemas de palavras cruzadas. Que ninguém é de ferro!

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