8:102012 chegou. E agora?

por Célio Heitor Guimarães

No planalto curitibano, a cidade amanheceu enfarruscada. Estava vazia, respirável, civilizada, uma delícia. Até uma fresca brisa chegou da serra. Oxalá os veranistas esticassem o veraneio até abril! E aí Curitiba seria o melhor lugar do mundo. Para viver, trabalhar, filosofar, amar, devanear, vagabundear.
Sem carros, sem ônibus, sem políticos, sem barulho, sem fumaça, sem administradores públicos, sem autoridades ditando ordens e proibições, sem coletores de impostos, sem stress. Um paraíso. Lindo, firme e feliz.Aproveitemos enquanto for possível.

Já o novo ano começou como de costume: desgraças, inundações, desmoronamentos, mortes, irresponsáveis ao volante, vítimas inocentes. Bebida, muita bebida! E muita ilusão. Tudo efêmero, passageiro.

2012 é uma incógnita. Poderá ser tudo, como poderá não ser nada. Os maias tinham-no como o derradeiro ano. Com data marcada para o fim: 21 de dezembro. Cunhado em pedra. Por ocasião do solstício (linda palavra, sempre quis usá-la, finalmente a oportunidade) de inverno no hemisfério norte. Talvez cheguemos lá para conferir.

Há quem diga que o fim não será do mundo, mas de um ciclo de vida. Bem mais sensato. Até porque acontecimentos escabrosos já estão aí há muito tempo. Sobretudo na política nacional. Terremotos, tsunamis, vendavais também. Há ainda que chover muito para lavar os pecados do mundo.

Agora, que uma mudança se faz necessária, isso faz. Tem muita gente no mundo, muita miséria, muita desigualdade social e econômica, muita ganância, muita esperteza, muito desamor. Bem que o Criador poderia aproveitar a oportunidade aberta pelo calendário maia e transferir essa gente esperta, gananciosa e canalha para outros mundos. Aqueles no ciclo inicial de vida,em meio aos dinossauros, pterossáuros e outros auros. E aí nunca na história deste mundo se viveria tão feliz.

Sou um tolo sonhador. Gostaria de viver – ainda que por pouco tempo – em um mundo mais decente, mais igual, mais respirável, mais fraterno, sem horários, sem regras e sem rotinas, sem militares e sem armas de destruição, sem preconceitos e sem dogmas religiosos, onde o dar significasse mais do que o
ter ou o receber, onde se vivesse em paz com a flora e com a fauna, onde se cultuasse as flores, os riachos de águas frescas, as cachoeiras, as trilhas no meio da mata, as montanhas, as auroras, os pores-do-sol, onde se adorasse apenas as pequenas coisas, como um sorriso, o sono de uma criança, a gota de orvalho, um raio de sol, a cambalhota do tiziu. E se fosse preciso sofrer, que se sofresse junto o sofrimento de todos. A isso se chamaria vida. E, aí sim, poderíamos nos chamar de seres humanos. Sem a necessidade de templos ou altares porque Deus estaria misturado com todas as coisas.

Por enquanto, o que temos é um mundo criado pelo homem branco com seus rifles, suas bombas, seus negócios, sua ambição e sua profunda solidão. Um grande deserto deixado pelo progresso. Nele não há lugar para fantasias nem para sonhos e milagres. Tampouco para eternidades.

Muda, mundo! Ou mudemos nós.

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