8:18Traulitadas no divã

por Rogerio Distefano, no Maxblog (www.maxblog.com.br):

Psicanálise de Lula

Tem razoável número de psicanalistas escrevendo em jornais. Aliás, os psicanalistas fazem tanto sucesso no Brasil que os mais expressivos deixam a atividade até para dirigir portos, como o de Paranaguá. (Falei “os mais expressivos”? Errei. Só existe um “mais expressivo”, e se chama Eduardo Requião, por unânime aclamação do irmão mais velho, trigovernador do Paraná). Os psicanalistas brasileiros se aventuram em tudo, inclusive na literatura, como a autora do livro “Mentes Perigosas”, que fez dois best sellers com seu fichário de consultório.

Os psicanalistas brasileiros escrevem até romances, policiais ou amorosos, como o casal Luiz Alfredo e Lívia Garcia Roza. Não sei se é recalque ou medo do CRM, mas os psicanalistas brasileiros não se aventuram na análise política. Se fazem, é só indiretamente, como no “Mentes Perigosas”, do qual devorei as trinta primeiras páginas pensando que a autora, Ana Beatriz Barbosa Silva, nos preparava para o clímax: desvendar o cliente que a inspirou, que até ali eu imaginava ser o político Roberto Requião de Mello e Silva. Na página 31 percebi que aquela mente era muito menos perigosa que a do atual senador do Paraná.

Nossos psicanalistas – pena que morreram os melhores escritores entre eles, Hélio Pellegrino e Eduardo Mascarenhas; Ângelo Gaiarsa foi-se ontem aos 90, contribuindo para a lacuna – têm à frente um filão para analisar e se esbaldar de ganhar dinheiro em livros e conferências: o presidente Lula. Eu, que de psicanálise só conheço as biografias de Freud por Ernest Jones e de Jung por Deirdre Bair, que sobre Freud só li o excelente livrinho do sociólogo Carlos Estevam Martins, lá dos remotos anos 1970, até eu, ignorante até o último folículo de caspa, consigo detectar neuroses, recalques e complexos no presidente do Brasil.

Limito-me a dois exemplos, um contínuo, de oito anos, e um recente, de anteontem. Nosso presidente está há oito anos insistindo que seu governo é melhor que o de FHC. Todo mundo sabe que não é melhor nem pior, é mera continuidade – em português de fábrica ao invés de português de academia. Lula nem precisava mostrar isso, mas insiste, cansa, está quase levando sua candidata à derrota em nome dessa obsessão: se expõe nos comícios, estupra a liturgia do cargo, esculhamba o que resta de solenidade na república, se mete na propaganda política. Aqui e lá fora é sempre a mesma repetitiva, lengalengosa, nhenhenhosa ladainha anti-FHC, Lula entre o Édipo que mata o pai por ciúme da Viúva de Caxias, ou a paciente de Melanie Klein querendo “recuperar o pênis do pai”. Sobre os oito anos não preciso dizer nada, pois com este aperitivo espero despertar a atenção de vocês que me lêem.

A última de Lula vem de anteontem. É de caderno, de manual de “psicanálise para dummies”, como os gringos celebrizaram os livros que divulgam conhecimentos para ‘imbecis’: Lula culpou os ricos, que não aceitam um presidente metalúrgico. Com todo o respeito pelo presidente – a quem admiro criticamente -, isso é complexo de inferioridade, grave, crasso, escancarado, daqueles que uma pessoa com mínimo refinamento psicológico esconderia. Ou sublimaria, como é tão comum: com seus sucessos, tantos e tão frequentes, Lula deveria ter arquivado no recalque isso de origem, de não ter estudado, de ser retirante nordestino.

Além dessa loucura sobre o ódio dos ricos – que, ao contrário, amam Lula, que os deixa mais ricos a cada dia -, o presidente bate naquela coisa patética do “filho da mulher que nasceu analfabeta”. Quase chorei quando ouvi, me identifiquei, lembrou minha mãe, que também nasceu iletrada. Exemplos abundam, com perdão do cacófato, e me limito ao mais eloquente, aquele do “nunca antes na história desse país”, em que o recalque está, como diria Eça de Queirós, escondido sob o manto diáfano da compensação.

Não me julguem mal por estas palavras, como não julgo mal o presidente Lula. Antes e apesar de todos os complexos ele é um homem feliz, embora não esteja resolvido (quem está?). Ele ficará na História por ter se apresentado aos brasileiros na sua mais pura essência psicológica, sem os requintes de pacientes de iguais sintomas, que com excepcional capacidade os escamoteiam em racionalizações e pirotecnias psicológicas, como o multicitado Requião de Mello e Silva. Aí está, com um livrinho de cem páginas, o de Carlos Estevam, o Max faz o que os psicanalistas deviam ter feito nestes quase oito anos.

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