14:38PARA NUNCA ESQUECER

 

Didi nasceu no dia 08 de outubro de 1929

por Armando Nogueira*

Sentado em um carrinho de mão, ouvia, horrorizado, a conversa de seu pai com o médico, na sala de visitas: era melhor amputar logo a perna, o tumor começava a ficar roxo, o joelho não parava de inchar – acabaria morrendo de gangrena.

Quatro dias antes, o garoto (14 anos) estava perfeito. Mas, numa pelada de bola de meia, um desses beques da roça que chutam de olhos fechados, três vezes maior que ele, acertara-lhe um tremendo pontapé no joelho. Na tarde seguinte, o abscesso era tão grande que o médico não via outra saída senão cortar a perna. Não cortou porque a preta Creusolina resistiu, prometendo curá-lo com massagens de sebo de rim de carneiro.

Ao cabo de seis meses de sofrimentos, livrou-se da cadeira de rodas e das muletas e pôde acompanhar a procissão de Nossa Senhora das Dores, caminhando com os próprios pés. Ia puxando da perna, que ficara sensivelmente mais curta que a outra.

Em 1950, quando já se insinuava no futebol carioca, jogando na seleção de novos que inaugurou o Maracanã, Didi, então com 22 anos, ainda capengava um poquinho – a perna direita continuava um centímetro mais curta que a esquerda. Hoje, está perfeitamente recuperado e aquela perna, condenada à amputação e salva pela abençoada terapêutica de sua avó, acabou por converter-se no instrumento essencial de sua glória e fortuna: com ela, inventou a folha-seca e os passes de curva, fascinante obra de técnica pessoal que eleva o futebol às culminâncias da arte.

Didi, negro esguio, de 32 anos, pescoço longo à Modigliani, nascido na cidade de Campos, no Estado do Rio, é, seguramente, o jogador mais controvertido do moderno futebol brasileiro. Conheci-o por volta de 1948, na modesta equipe suburbana do Madureira, desfiando um futebol de mil talentos para o chute, o passe e sobretudo para o drible; driblava alegremente, tinha o gosto infantil do floreado. E, como era bem dotado fisicamente, suas ações de bola revestiam-se de grande beleza plástica. 

A lição dos campos desenvolveu-lhe ainda mais o conhecimento instintivo da bola a que chama, carinhosamente, de criança (“Não maltratem a criança” – costuma dizer aos jogadores de estilo rombudo.). Mas a vida modificou-lhe a alma e o futebol, tornando-o homem amargo e craque esquivo.

Uma noite, conta-se com reserva, Didi, recém-casado, acordou em sobressalto; tinha o pijama e o lençol ensopados de querosene. Alguns minutos mais e teria morrido queimado, vítima de uma crise de ciúmes que acometera a mulher com quem mal iniciava a primeira experiência conjugal, experiência ali mesmo encerrada para sempre. Anos depois, voltaria a sofrer muito nas especulações e irreverências de jornais e torcedores em torno de sua vida particular: um gol perdido, um passe defeituoso, tudo era pretexto para alusões insultuosas ao romance que entretinha com a moça que hoje é sua mulher, Guiomar, e a quem, segundo confessa, deve todos os estímulos para que pudesse continuar no futebol e chegar a campeão do mundo.

Esses episódios penosos da área sentimental seguramente terão traumatizado a evolução de um estilo voltado para o futebol alegre, festivo.

Didi nunca teve o carinho unânime das arquibancadas; é, no campo, um jogador solitário, inteiramente preocupado com a arte e a ciência de seu futebol, alheio às paixões do público. E aí está o segredo de sua incompatibilidade com a torcida, sempre hostil a ele. O ideal do torcedor é o craque cem por cento atleta, o competidor, o guerreiro olímpico – e ele não é isso. Didi é um artista a quem repugna o entrechoque e desgosta o corpo-a-corpo da bola dividida. Seu ritmo é intermitente, descontínuo, embora terrivelmente eficiente. Ele produz para a equipe, encanta o espectador, mas exaspera o torcedor intolerante e apaixonado, antes, durante e depois da partida. Por isso, jamais será ídolo de multidões; há de ser, sempre, um craque de elites. Didi não sabe cortejar o público, jogando no tom emocional que incendeia a multidão dos estádios. Prefere jogar fria e linearmente, embora pudesse encher o campo com a riqueza esférica de seu futebol. Sua glória está na magia de um passe: o toque de efeito, criando espaços e trajetórias com a bola, dá-lhe a satisfação integral nesse esporte apaixonante. Chuta a bola prensada contra o chão, buscando os efeitos, e, com isso, simplifica a equação de um gol. Tem a obsessão do passe, no que se revela um altruísta, pois parece indiscutível ser o passe a expressão máxima da solidariedade no futebol.

Com as artes de uma balística indecifrável, Didi consegue vincular o passe longo à essência do jogo, revolucionando a teoria tradicional de que só o passe curto é capaz de provocar o desequilíbrio do adversário (e “o desequilíbrio é a única concepção válida no futebol”).

É jogador de admirável versatilidade, mas sua fixação tem sido, nos últimos anos, o passe de curva que executa com grande precisão, a qualquer distância. Contra os franceses, na Copa do Mundo, um crítico sueco contou 40 passes de Didi, todos de efeito e com irrepreensível pontaria. A bola serpenteia entre os adversários, queimando a grama e vai parar, submissa, ao alcance do companheiro. Mas corre tão repassada de efeito que a operação de dominá-la transforma-se em difícil problema mesmo para jogador de técnica apurada. Daí porque Didi tem a preocupação de fazer com que a bola fique, madurinha e sem efeito, a meio metro do destinatário, poupando-lhe a tarefa de controlar, ou, para usar a terminologia dos jogadores, de “limpar a bola.”

O passe de curva não é, como se pode imaginar, uma obra de inteligência intuitiva. Nasceu de uma necessidade profissional, de um sofrimento. Em 1952, Didi machucou o tornozelo e não conseguia ficar bom. Ia a campo, diariamente, tentando um jeito de bater na bola sem magoar o pé. Descobriu, um dia, que chutando com a base dos artelhos e não rigorosamente com o peito do pé, como manda o figurino, não sentia absolutamente nada. Concentrou-se, então, no treinamento dessa estranha deformação do chute perfeito, que é bater na bola quase com a ponta do pé, utilizando como superfície de impacto, principalmente, a base do dedo grande e seus dois vizinhos mais próximos. A princípio, estranhou o peso da bola que é muito mais sentido na ponta do que no meio do pé. Depois, começou a busca do efeito, justamente para atenuar o esforço da alavanca. E começou a chutar de raspão, desviando o pé para um lado ou para o outro, tal como se faz com o taco para imprimir efeitos à bola de bilhar (por sinal, Didi é muito bom em bilhar francês, notadamente nas bolas de efeito). A perfeição da jogada viria com a prática. Hoje, ele é capaz de dar à bola dois efeitos distintos e simultâneos chutando de raspão e prensando-a contra o chão. (“Ela sai completamente zarolha” – diz, com orgulho.)

Didi não consegue mais se libertar do chute em sustenido. Às vezes, experimenta o convencional, isto é, atingir a bola em cheio, de frente e com o peito do pé, mas não tem jeito. Os reflexos já estão de tal maneira condicionados àquela ação enviesada que mesmo o passe curto lhe sai com efeito – e o passe curto, pela natureza da situação em que se produz, deve ser rápido, preciso e, sobretudo, puro (nas tabelinhas, por exemplo).

O movimento da perna para a execução do passe de efeito criou, com os anos, um pequeno problema para Didi: há algum tempo, o médico Hilton Gosling advertia-o para uma leve atrofia num dos músculos da coxa, possivelmente decorrente da má distribuição de trabalho no grupo muscular. Em compensação, resultaram fortalecidos a musculatura do pé e os ligamentos da articulação, com o que ficou Didi menos sujeito a um acidente grave e comum em nosso futebol de campos tão maltratados – a entorse (distensão violenta dos ligamentos). 

Circunstância desfavorável ao passe de curva é a bola molhada. A bola aumenta de peso, exigindo maior esforço e se prejudica, assim, a conta do lance. Esse problema, aliás, pode ser arrolado entre outros de ordem técnica e psicológica que conspiraram contra o êxito de Didi na Espanha, onde o campeonato é disputado em pleno inverno. Didi causou algumas decepções ao Real Madrid quando tentava o passe de curva ou o famoso chute chamado folha-seca que não é senão uma variante da jogada original; na folha-seca, a bola é chutada pelo ar e, como leva alta dose de efeito, descai, subitamente, no meio da trajetória, surpreendendo o goleiro.

Jogada em que também se fez mestre é o pênalti, cujo segredo, contudo, não está na bola que é chutada com a face interna do pé, sem efeitos. Didi toma distância de três passos, bem medidos, e, ao se aproximar da bola, precisamente na última passada, estanca uma fração de segundo para observar, num relance, como repercutiu o goleiro a sutil freada. E como, invariavelmente, o goleiro deixa de perceber o lado para o qual saltará, o chute parte suavemente para o canto oposto.

Durante a Copa do Mundo de 1958, na Suécia, e recentemente na Espanha, Didi era com frequência solicitado a fazer demonstrações para jogadores, técnicos e jornalistas. Em Estocolmo, um cinegrafista de Hamburgo lhe ofereceu cem mil cruzeiros para que se deixasse filmar chutando de efeito. Didi achou pouco, contrapropôs 200 mil, justificando que gostaria de ratear o dinheiro com os colegas de delegação. Mas nem por isso o cinegrafista deixou de obter parte do que pretendia, pois, nos treinos do Brasil, ficava discretamente a filmar, em câmara lenta, a técnica do seu autor preferido.

Didi é o melhor exemplo brasileiro de um craque que aprendeu a disciplinar a sua técnica, jogando, com brilhante rendimento, um futebol que vem do instinto e da reflexão. Ele sabe, como poucos no mundo, mobilizar as suas potencialidades; no instante de um drible de corpo ou de uma tabelinha (são inesquecíveis as tabelinhas que executava com Pelé no Sul-Americano de 1959, em Buenos Aires), no momento de um contrapé, Didi é maravilhosamente medular, irresistível; na execução de um passe longo, e cerebral, científico. Tem perfeita noção espacial, e como possui, também, profundo conhecimento do jogo e da posição dos jogadores, é capaz de criar uma situação excepcional de gol que aparentemente não existia. É esta, sem dúvida, a grande virtude que distingue o gênio do simples talento no futebol – a capacidade de antever a jogada. Didi, como Pelé, por exemplo, é tão extraordinário no mistério da antevisão de um lance que em certos momentos chega a fazer do futebol um jogo irreal.

É comum ouvir-se que Didi joga displicentemente, e, no entanto, ninguém se confessa mais responsável do que ele no futebol brasileiro. Na véspera da final contra a Suécia, em 58, não dormiu um minuto sequer, mentalizando o jogo como um enxadrista. A aparente frieza com que surge no campo esconde, apenas, um temperamento de rara emotividade controlado à custa de grande força de vontade. Didi é um passional que se consome no jogo e na véspera do jogo; que reza antes de entrar em campo e faz promessas fervorosas pela vitória. Em 1957, saído campeão pelo Botafogo, foi do clube para casa a pé, caminhando mais de quatro quilômetros em pagamento de uma promessa; dois dias depois tomou um avião para ir depositar na sala de milagres da Igreja de Nosso Senhor do Bonfim, na Bahia, a camisa com que jogara. É supersticioso; sua melhor história no gênero superstição ocorreu na Suécia: ao entrar no ônibus, no dia da final da Copa do Mundo, encontrou ele seu lugar ocupado pelo professor Carvalhaes, o psicólogo da delegação. Pensou pedir-lhe, delicadamente, que saísse; o banco vinha dando sorte. Nos cinco jogos de classificação, sentara naquele lugar. Lembrou-se de que não podia se confessar um supersticioso justamente ao homem posto na embaixada para libertar os jogadores de todos os complexos. Mas o temor aos fados era mais forte e Didi arriscou, batendo no ombro do professor.
- Me desculpe, professor, mas esse lugarzinho está regulando para mim. Não leve a mal, mas eu tenho sentado aí e nós ganhamos todas.
O psicólogo deu um pulo do banco, com ar de que fora surpreendido a cometer uma grave imprudência contra seu próprio destino, e mais que depressa, foi sentar no seu lugar de sempre, que também vinha regulando.

Didi, craque felino, que calça 40 no pé esquerdo e 41 no pé direito; que tem um par de chuteiras num museu do Peru e outro, modelado em gesso, numa vitrina de troféus de futebol na Suécia; que, um dia, encerrou uma batalha campal entre jogadores brasileiros e uruguaios (Buenos Aires, 1959), surgindo no ar, como um gato, e desferindo um pontapé que aterrou três desafetos de uma vez; que jamais sofreu uma distensão muscular e que, por amor do futebol, amarra as chuteiras com um simples laço de sapato.

Didi, homem esquivo, de chute oblíquo e dissimulado como o olhar de Capitu.

* Crônica escrita em 1961

3 ideias sobre “PARA NUNCA ESQUECER

  1. jango

    Mestre Didi por Mestre Armando Nogueira.
    Um verdadeiro ensaio técnico, psicológico e humano dessa fera da bola chamado Didi.
    Em outros tempos de jogo de botão, o melhor vidro de relógio do time ia na parte de baixo com o sorriso de Didi, tirado de uma figurinha ganha no bafo no recreio do colégio.

  2. candido mendes neto

    Ai ai, não vi didi jogar, mas li muito o Armando. Saudade de artigos dessa envergadura e, obviamente, do Armando.

  3. alderijo bonache

    Tive o privilégio de ver esta fera em campo num jogo no ano de 1963 no Pacaembu na cidade de São Paulo, quando o Botafogo tinha uma constelação!

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