6:54Futebol é coisa de puta

de Rogério Pereira, publicado no site de crônicas “Vida Breve” (http://vidabreve.com/), do jornal Rascunho:

Na tevê, vinte e dois marmanjos, uma bola e três senhores que tentam colocar ordem no tropel da cavalaria. Em volta, um bando de alucinados aos gritos. Minha filha, na ingenuidade que ainda lhe inunda o corpo, pergunta-me: “Me leva no futebol, papai?”. O sim óbvio quase escapa. Sou também um alucinado que na arquibancada abandona os bons modos e solta todos os palavrões aprisionados na timidez diária. Paro e reflito: não posso levá-la ao estádio. Ainda não. Ela, às bordas dos quatro anos, não entenderá. Não está preparada para descobrir que sua avó, minha mãe, é puta. Ou, então, que a sua mãe — esta mulher cujo amor se esparrama pelo corpinho esguio da filha — também se transformará em breve em uma apetitosa rameira. No estádio, onde a lógica quase sempre fica do lado de fora, somos um bando de devassos. De grandíssimos filhos da puta.

Esqueça a bola, o gol, o craque, os dribles magistrais, as brigas, os títulos. Nada disso é o centro do futebol. O centro do futebol é a mãe. A minha, a sua, a do árbitro, a dos jogadores e a de todos os torcedores. A lascívia invade os estádios aos urros de filho da puta. Se o árbitro erra contra nós: filho da puta. Se erra o nosso favor, o outro lado vocifera: filho da puta. Nossos jogadores são grandes filhos da puta para a torcida adversária. Às vezes, para nós também. O mesmo vale para os jogadores do time adversário em relação à nossa torcida. Bandeirinha é filho da puta mesmo quando acerta. Não importa, todo bandeirinha (ou auxiliar, argh!) parece ter nascido no prostíbulo. Técnico, além de filho da puta, é burro. Gandula é um pouco de tudo, inclusive filho da puta. Nós bradamos filho da puta contra os torcedores adversários. Eles, por sua vez, bradam de lá: filho da puta. Nos berros, não há espaço para plurais, correção vocabular. É no singular mesmo: filho da puta contra uma multidão. Ao fim, somos, todos, um exército de filhos da puta no espelho. Um estádio de futebol é um imenso prostíbulo ao ar livre. A Copa do Mundo, a convenção universal das meretrizes. Ou dos filhos delas.

No gramado e nas arquibancadas, a lascívia exuberante transforma nossas queridas e amadas mães — senhoras que, muitas vezes, nasceram para o casamento e os bons costumes — em marafonas, dignas da galhofa alheia. O sexo para procriação ou deleite esporádico transforma-se em bacanal, em suruba descarada. Somos uns filhos desprezíveis, abomináveis. Sem permissão, arrastamos nossas santas mãezinhas para o útero da perdição. Tudo em nome de algo em que homens suados, musculosos, fortes e saudáveis se abraçam em êxtase quando conseguem colocar uma bola num retângulo. Ou seria um buraco? Nós, os filhos da puta, pulamos feito cangurus caducos e abraçamos o desconhecido ao lado como se fôssemos íntimos. Fazemos juras de amor a algo que desconhecemos: um time de futebol. Do outro lado, silêncio. Por pouco tempo. Logo, voltamos todos à guerra: filho da puta são nossas bombas destruidoras.

Nelson Rodrigues errou feio quando disse que, no futebol, o brasileiro sofre da “Síndrome de vira-lata”. Nada disso. Sofremos, e muito, da “Síndrome do filho da puta”.

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Não me atraem as putas perfeitas, aquelas esculpidas em mármore, prontas para as capas de revistas, cujos serviços valem ouro, diamante ou carro importado. De corpos retilíneos, seios inflados pelas bolhas de plástico. Estrias e celulites são varridas para recônditos, para debaixo de um tapete de carne, pecado e desejo. Ancas desenhadas na meticulosidade de um engenheiro esteta. Têm os gestos calculados, cabelos bem tratados, maquiagem à perfeição. Os gemidos são perfeitos, ritmados, ensaiados. Movem-se com a segurança de um felino a caçar em seu habitat. Estas predadoras divinas me causam tédio, enjoo.

Aprecio o improviso, o canhestro, a volúpia manca das minhas putas da infância. As que roçavam a bunda disforme no muro chapiscado. Os furinhos da pressão na argamassa irregular e vagabunda disputavam espaço com os da celulite. Quase sempre, faltava-lhes bunda. A mãe nos arrastava pelas ruas daquela C. que nos habita como uma doença incurável. Meus olhos espetavam os corpos desproporcionais a perder nacos de gordura pelas frestas da calça de coton. Tristes as minhas putas da infância. As tetas (sim, as meretrizes que me interessam não têm seios: arrastam tetas gigantescas, volumosas, fartas, caídas) explodiam pelo top vagabundo: frágil feito seus sonhos. A pele nada tinha de lisa. Eram estradas esburacadas, irregulares. A superfície lunar, arenosa, em alguns centímetros de carne. Nenhuma obra emergencial daria jeito naquele terreno de devassidão e sofrimento. Corpos irregulares enroscados nos muros: aves estrambóticas, ridículas, à espera da pedrada que as acertasse o peito; animais ansiosos pela chegada de um caçador qualquer. Nas sombras, os olhares de pedinte imploravam um pedaço de carne, de pão. Não lhes dava nada, além da curiosidade de criança.

Algumas delas ainda estão lá, nos muros. Cansadas das batalhas perdidas. Muitas têm filhos. Os legítimos filhos da puta. Quem sabe eles estejam na multidão dos estádios? Urrando contra a horda de semelhantes do outro lado da torcida. Irmanados no complexo que nos une a todos. Já as outras, as dignas de capas de revista, ainda não têm filhos (estraga o corpo), mas também vão aos estádios. Algumas arrastam jogadores de futebol para a perdição de seus corpos. Ou para o altar. Mas esta já é outra história.

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