9:58AMANHECER

Na profunda noite universal
que apenas contradizem os postes de luz
uma ventura perdida
ofendera as ruas taciturnas
como pressentimento trêmulo
do amanhecer horrível que ronda
os arrabaldes demantelados do mundo.
Curioso pela sombra
e acovardado pela ameaça da aurora
revivi a tremenda conjectura
de Schopenhauer e de Berkeley
que declara que o mundo
é uma atividade da mente,
um sonho das almas,
sem base nem propósito nem volume.
E já que as idéias
não são eternas como o mármore
mas imortais como um bosque ou um rio,
a doutrina anterior
assumiu outra forma na aurora
e a superstição dessa hora
quando a luz como uma trepadeira
vai implicar as paredes de sombra,
persuadiu minha razão
e traçou o capricho seguinte:
Se estão alheias de substância as coisas
e se esta numerosa Buenos Aires
não é mais que um sonho
que erigem em compartilhada magia as almas,
há um instante
em que periga desmedidamente seu ser
e é o instante estremecido da aurora,
quando são poucos os que sonham o mundo
e só alguns notívagos conservam,
cinzenta e apenas esboçada,
a imagem das ruas
que definirão depois com os outros.
Hora em que o sonho pertinaz da vida
corre perigo de quebranto,
hora em que seria fácil a Deus
matar de todo Sua obra!

Porém de novo o mundo se salvou.
A luz discorre inventando sujas cores
e com algum remorso
de cumplicidade do ressurgimento do dia
solicito minha casa,
atônita e glacial na luz branca,
enquanto um pássaro detém o silêncio
e a noite gasta
permaneceu nos olos dos cegos.

de Jorge Luis Borges

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>