12:33Naif Saleh, adeus

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Naif Saleh

O coração do meu amigo Naif Saleh parou há pouco. Ele tinha 57 anos e era uma criança de olhar doce que conheci no trabalho e, por estas coincidências da vida, só depois vim a saber que era tio da Soraia, mulher de um velho chapa, o jornalista Paulo Krauss. Foi amor à primeira vista não por ele ser apaixonado por cinema e trabalhar com vídeo. As grandes amizades independem de gostos, independem de contatos, independem de ideologia. As grandes amizades acontecem, apenas. Ficamos dois anos juntos, no Tribunal de Contas. Mas unidos para sempre. O coração do meu amigo Naif Saleh parou há pouco porque ele tinha uma dificuldade enorme de tratá-lo. Na verdade ele precisava trocá-lo, por causa de uma anomalia, mas tinha medo. Ele tinha medo de morrer e morreu por causa disso. Imagino que o coração do Naif precisava ser trocado porque era enorme no sentimento. E por isso ele sofria. Sofria um amor que não deu certo. Sofria não ter aparecido a grande chance profissional da sua vida. Mas também era muito alegre. A gente se encontrava de vez em quando na feira de sábado ali perto do campo do Coritiba. Um dia ele, esfuziante, me mostrou o carro novo comprado em trocentas prestações. Era uma vitória ter aposentado o Escort que transportava aquele corpanzil há séculos. Era a única pessoa que eu conhecia aqui que tinha cadeira cativa na praia de Copacabana para o revellion. Todo ano o Naif embarcava na noite do dia 30 num ônibus, descia 12 horas depois no Rio de Janeiro, passava o dia zanzando e, no final da tarde, ia lá na barraca de um velho conhecido que alugava-a para aquela festa – e isso bem em frente ao Copacabana Palace. No outro dia cedo, devolvia a cadeira, ia para o rodoviária e voltava para Curitiba. Há três anos ele me contou que entrou no tradicional hotel como se fosse hóspede. Zanzou pelos corredores, deu um bordejo ao lado da piscina famosa e depois saiu de fininho porque estava chegando a hora de começar a chegar o pessoal da festa. Quando lhe contei que, por uma deferência de um amigo eu estava lá, ele não acreditou. Nunca esqueci o dia em que ele inventou uma lá na sala de comunicação do TC. “Vamos fincar nossa bandeira aqui”, dizia, imaginando que eu iria continuar quando o novo “rei” assumisse a presidência. Eu saí, ele ficou triste, mas daqueles dias ficou também uma lembrança que guardo em casa, meio sem-querer. Suraia, a mãe querida que sempre cuidou deste menino, libanesa, é uma cozinheira excepcional. Quando ele soube que da minha paixão pela cozinha árabe, um dia trouxe um prato de quibe cru vindo do paraíso. Fez isso várias vezes, assim, de repente, trazendo como um presente que não tem preço. Da última vez eu levei pra casa a iguaria. Ele recomendou: “Tenho que devolver o prato da minha mãe”. Eu não devolvi por esquecimento. Toda vez que nos encontrávamos eu lembrava. Ele não dizia para eu não esquentar. Mas, na verdade, eu queria devolver para, quem sabe, ser presenteado de novo com aquela comida inesquecível. O prato está lá. Será mais uma lembrança deste menino que nos deixou por causa do coração.

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