9:28Collor no ventilador!

de Luiz Cláudio Cunha* (publicado no blog de Ricardo Noblad) 

O elegante Fernando Collor obrou de novo. Desta vez no ambiente solene e sobre os tapetes macios de azul profundo do plenário do Senado Federal. Na sessão de segunda-feira (10/08/2009), expelindo pela boca a graça retórica e a graxa intestina que regurgitou sobre o jornalista Roberto Pompeu de Toledo, colunista da revista Veja, o nobre senador Collor confessou ao país: “Eu tenho obrado em sua cabeça nesses últimos dias, venho obrando, obrando, obrando em sua cabeça”.

Obrando, Collor deixou o rastro de um estilo inconfundível que alcança os olfatos mais distantes e sensíveis. Obrando, Collor depositou em sua presidência, aqui e ali, obradinhas discretas, quase imperceptíveis, e despejou também obradas monumentais, que impressionam pelo volume e pela consistência, que não se desfaz ao longo do tempo.

A imagem sempre composta, empertigada, aprumada, de ternos bem cortados, gravatas de grife e sapatos de fino cromo, não permitia imaginar que aquele homem, como qualquer um, também tivesse seus momentos de íntima comunhão com a fisiologia. Pois agora sabemos, nessa surpreendente auto-purgação, que Fernando Collor também obra. Obrando, Collor desce à condição humana que até ele, como uma estátua sedestre, precisa assumir em alguns privados momentos do dia.

Alguém poderia supor que, ao obrar com tanta insistência, dias a fio, sobre a cabeça de alguém, Collor estaria apenas declinando ações transitivas ou intransitivas, bem comportadas, que os dicionários definem como ‘fazer, executar, praticar, maquinar, urdir, proceder, trabalhar, construir’. Mas o próprio orador tratou de esclarecer que, obrando, Collor urdia naquele discurso um propósito bem mais explícito e mal-cheiroso: “Venho obrando, obrando, obrando em sua cabeça. Para que alguma graxa possa melhorar seus neurônios”.

Até os compêndios mais elegantes são obrigados a reconhecer que, entre outros significados, obrar também significa ‘expulsar excrementos; defecar; sujar-se de matéria fecal’. Chegamos aí à matéria prima que compõe a massa retórica collorida e as intenções manifestas do requintado discurso do nobre senador. A exegese da fala de Collor, assim, pertence menos ao reino didático dos dicionaristas e mais ao universo íntimo dos proctologistas e dos laboratórios de análises clínicas.

A idéia de usar a graxa de sua flora bacteriana para ‘melhorar’ os neurônios só podia ser obra intelectual, e pouco graciosa, de Collor, que já obrou muito sobre as cabeças coroadas de Sarney e Lula. Na noite de 5 de novembro de 1989, Collor fechou-se num estúdio de TV, sentou-se e obrou fartamente no horário da propaganda eleitoral sobre o então presidente da República: “Gostaria de tratar o senhor José Sarney com elegância e respeito. Gostaria, mas não posso. Não posso porque estou falando com um irresponsável, um omisso, um desastrado, um fraco. Quero que a Nação saiba que estou falando com um cidadão de más intenções, que não dignifica o cargo que ocupa. O senhor sempre foi um político de segunda classe. O senhor nunca teve uma atitude de coragem.”

No calor da campanha, as contrações musculares de Collor o levaram a obrar, feio, na cabeça do adversário Lula, despejando nas telas de TV um depoimento mal-cheiroso de uma ex-namorada do candidato do PT e suas supostas pressões para um aborto. Na sua meteórica passagem pela presidência da República, Collor acabou tropeçando em obradas, depositadas aqui e ali em lugares insuspeitos da administração pública, e atribuídas a amigos e aliados próximos, liderados por seu obreiro-mor, Paulo César Farias, que acabou emprestando o nome à CPI que empestou o seu governo. O odor insuportável que emanou da obra investigada pela CPI de PC Farias escorreu perna abaixo e acabou no impeachment. E o governo Collor se esvaiu pelo ralo da História.

Entrevistado tempos depois pelo repórter esportivo Milton Neves, o ex-candidato Lula deu o troco, ao responder se sentia pena daquele homem expelido do Palácio do Planalto: “Não é que eu tenha pena… Como ser humano, eu acho que uma pessoa que teve a oportunidade que aquele cidadão [Collor] teve de fazer alguma coisa de bem para o Brasil, um homem que tinha respaldo da grande maioria do povo brasileiro… Ou seja, [um homem que,] ao invés de construir um governo, construiu uma quadrilha como ele construiu, me dá pena, porque deve haver qualquer sintoma de debilidade no funcionamento do cérebro do Collor”.

E disse mais Lula: “Efetivamente, eu fico com pena porque eu acho que o povo brasileiro esperava que essa pessoa [Collor] pudesse pelo menos conduzir o país, se não a uma solução definitiva, pelo menos a indícios de soluções para os graves problemas que nós vivemos. E, lamentavelmente, a ganância, a vontade de roubar, a vontade de praticar a corrupção, fez com que o Collor jogasse o sonho de milhões e milhões de brasileiros por terra”.

Hoje, Collor, Sarney e Lula tapam o nariz e tentam limpar frases e obras de um passado que os separava em nome das conveniências de um presente que os une, visando um futuro político em comum. Na quarta-feira (12), no Rio de Janeiro, o presidente Lula citou “os debates no nosso querido Senado”, para criticar: “O nível do debate está abaixo da média de compreensão da nossa sociedade. São pessoas formadas, com mais de 35 anos, que poderiam agir de forma mais civilizada”. Lula teve o cuidado de não mencionar o nome de ninguém.

Essa complacência toda permite e explica a retumbante reaparição do velho Collor, ‘obrando, obrando e obrando’ nos escovados tapetes do Senado Federal, que deglutiu impassível a infeliz travessura semântica do representante das Alagoas. Ninguém, na Mesa Diretora ou no plenário, pediu a imediata assepsia do discurso, em nome da higiene, da saúde pública, do decoro e dos bons modos que devem presidir os homens, senadores ou não.

Assim, impavidamente engolida por seus pares, a obra intelectual desta semana de Fernando Collor cumpriu seu caminho digestivo pelas instâncias intestinas da Casa e acabou depositada para análise dos historiadores no seu devido lugar: os anais do Senado Federal. 

* Luiz Cláudio Cunha é jornalista.

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