18:29Horóscopo

por Zé da Silva

Gemeos

Vestiu branco e foi para o bueiro. Não esperou o sinal. Arrancou a tampa e pulou. Estava de salto alto. Quebrou os dois. Um rato mostrou os dentes, mas estava espetado. Azar dele. Ela seguiu em frente. Acocorada. O cheiro era insuportável. Mas tinha sonhado a vida toda com isso. Desde que viu o filme. Com aquela que depois cantou para o presidente, casou com jogador de beisebol, dramaturgo e morreu sozinha. Não queria isso. Morrer sozinha naquela vila de subúrbio. O vestido alugou com cheque sem fundo. Pintou o cabelo sozinha. Ficou mais para verde, mas ninguém iria ver. O plano começou na madrugada fria e de neblina. Tinha uma lanterna. Percorreu o canal até perder completamente as forças. Não sabia onde estava. De repente notou que à sua frente, bem distante, havia outra luz. Que se movimentava. Ficou com medo. Aquilo parecia o farol de um trem, pois aumentava de intensidade com o passar do tempo. Fechou os olhos. Ouviu os passos que chegaram ao seu lado. E uma respiração ofegante. Tomou coragem e abriu. Era um homem. Bem vestido. De terno escuro, gravata discreta, nó perfeito. Ele estendeu-lhe a mão. Ela notou um relógio clássico. Parecia ouro. “Vim te buscar”, ele disse. Ela foi. Mais à frente havia uma escada. Eles subiram. A brisa da manhã limpou a alma dos dois. Ele apontou para um carro. Importado. Abriu a porta para ela. Ligou a máquina. Pouco ruído. Saiu devagar. Colocou uma música. Sinatra. Strangers in the night. Olhou para ela e disse: “Eu sempre tive um sonho”.

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