8:19João Rath e o tango do fechamento

por José Sérgio Rocha

Dizem que fechamento de jornal só perde para atendimento de emergência médica e fechamento de caixa no banco entre os fatores profissionais que levam à hipertensão. Nas redações em que trabalhei, as funções em que passei mais tempo foram as de redator e de subeditor, o que me credenciava a ter um ataque dos bons.

Mas no ano de 1984, recém-chegado à redação de “O Globo”, não me senti ameaçado por doença alguma. Por um motivo simples: o editor não me dava trabalho. O cara não tinha nada contra mim, até gostava, tanto que me contratou… enfim, não era nada pessoal. O que havia, talvez, era excesso de redatores na Editoria Política.

Eu já estava era com medo de ser demitido por falta de produção. Tinha duas filhas pequenas para sustentar, um casamento acabando que em breve resultaria em pensão alimentícia e, para piorar as coisas, havia saído, por vontade própria, do “Jornal do Brasil”. No novo local de trabalho, alguém “me sairia” antes.

Por isso, vou contar – talvez para as paredes do Comunique-se – mais uma história do jornalista João José Leal Rath, que era então o nosso subeditor. Quem conheceu bem a figuraça sabe que, muito antes de o Domenico de Masi começar a cochilar, o Rath já havia pegado no sono há muito tempo. Ócio criativo era a especialidade dele. O jornalista e escritor José Castello já o definiu de forma magistral. Rath foi um autor sem livros. Castello chegou a traçar um paralelo entre Raduan Nassar e o nosso herói. Enquanto Nassar abandonou as letras depois de alguns livros geniais, Rath deixou a literatura antes mesmo de começar a escrever.

Rath era a pessoa certa para ouvir minhas lamúrias. Embora subeditor, ele raramente participava do fechamento. Seu verdadeiro papel no jornal era o de imaginar pautas supostamente malucas que rendiam matérias geniais. E descobrir, a cada nova leva de estagiários, os focas mais promissores. Eu já o conhecia do meu primeiro período como estagiário na Reportagem Geral do “Diário de Notícias”, no ano de 1973, e foi ele quem me descobriu…

Vou abrir parênteses para queimar meu filme e contar como foi. Rath era, então, o editor nacional do “DN”. Meu chefe de reportagem era um grande sujeito chamado Alfredo Schleumer, que se matou e eu nunca soube o motivo. Tomara que não tenha sido por causa de alguma bobagem que eu escrevi. No jornal da Rua do Riachuelo, antes de entregar minha primeira matéria assinada ao Alfredo, mostrei-a àquele sujeito estranho com quem havia simpatizado de cara porque ambos gostávamos de corridas de cavalo. Eu estava até participando de um filme sobre turfe, no Curso de Cinema da Universidade Federal Fluminense (UFF), e ele tinha virado meu consultor.

Rath tirou os óculos da cara para ler meu texto à maneira dele, quase de olhos fechados. Vista cansada misturada com miopia. Sua resposta me desarvorou:

— Elegancinha, você é um gênio! Cometeu um erro de concordância maravilhoso, que há muito tempo ninguém cometia mais. Eu já estava saudoso desse erro. Gê-ni-o! Você é gê-ni-o!”.

Pois é, a matéria sobre o pintor João Câmara não estava lá grande coisa, mas acabou saindo depois de uma bela copidescada, se não me engano, do talentoso redator Luís Carlos Cabral.

Onze anos depois, como disse, eu me queixava ao João Rath de que não tinha o que fazer. Ele sorriu:

— Nem eu, elegancinha!

Eu, meio indignado:

— Mas eu não estou gostando disso!

Ele, muito sério:

— Eu não estou preocupado, mas precisamos fazer alguma coisa por você. Me deixa pensar.

Fui tomar um cafezinho. Na volta, ele anunciou:

— A partir de amanhã começam suas aulas de tango!

Eu já não estranhava mais nada vindo do autor da frase mais engraçada que ouvi sobre o jornalismo:

— De todos os que me me fazem sofrer neste mundo, o único que me paga é o Roberto Marinho!

As aulas consistiam no seguinte: Rath me trazia montes de letras de tango argentino e me contava, através delas, a história desse gênero musical. As letras eram inteligentes, engraçadas. Me apaixonei pelo tango, embora nunca tivesse vontade de aprender a dançar. As aulas eram dadas bem ao lado do mesão do editor, Luiz Alberto Bettencourt. Eu e o Rath sentávamos em dois bancos altíssimos. Quem passava por perto e ouvia a nossa conversa, dobrava de rir. Em plena hora do fechamento, um redator e um subeditor que não tinham mais o que fazer ficaram mais de uma semana alheios a tudo. O país na maior confusão. Final da ditadura militar, Brizola governador, campanha das diretas quase nas ruas, e nós ali, nos dois bancos altos, como os que eram ocupados pelos alunos burros de castigo, nas salas de aula, dissecando as letras de “Cambalacho”, de “Cafetín de Buenos Aires”, de “Mano a mano” etc.

Até que um dia, o editor Luizinho, normalmente bem-humorado, não se conteve e deu um berro que a redação inteira ouviu:

— Vamos acabar com essa farra! Tem trabalho à beça!

O Bruxo João Rath piscou o olho:

— Viu, elegancinha? Está tudo resolvido.

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