6:08Como era gostoso o meu comentaristês!

por Sérgio Rodrigues, na FSP

Quebrando linhas e pisando na área, jargão teve auge na Copa. Antigamente, entregar gols não era nada de que se orgulhar

Quebra linhas, entrega gols, gera jogo, quebra pro ataque, ataca os espaços, ataca a profundidade, acha o passe, tem muita qualidade, jogador diferente, consegue machucar o adversário, faz bloco baixo, alarga o campo, joga entre linhas, faz o facão, dá uma fatiada, gesto técnico perfeito, desmonta a defesa, pisa na área, chapa no canto.

Há uma linguagem codificada dos comentaristas de futebol —em parte criada por jogadores e nem tão nova, mas de todo modo recente no tempo histórico— que teve sua apoteose na Copa do Mundo de 2026: o comentaristês.

Antigamente —tempo vago que a maioria de nós situa no século passado, o velho vintão—, se uma pessoa dizia que fulano entregava gols, ninguém que a ouvisse teria dúvida: estava falando de um goleiro inclinado a engolir frangos ou, no máximo, de um zagueiro trapalhão. Entregar gols era concedê-los.

O uso do verbo “entregar” no sentido daquilo que um goleador faz ao marcar gols, ou um time ao obter vitórias, é uma contaminação do inglês “deliver”, com seus ares corporativos de triunfo profissional, de tarefa bem-cumprida.

Naquele tempo, vale notar ainda, machucar o adversário era assunto para o juiz —às vezes convocado a punir o agressor com o cartão vermelho, dependendo do caso— e, claro, para o departamento médico.

Alguns torcedores também machucavam e eram machucados na saída dos estádios, em escaramuças de hostes rivais. O sentido de agredir, mas esportivamente, é extensão figurada de um verbo antes associado apenas a danos infligidos por violência física.

Acredito que a ideia tivesse sua beleza quando começou a circular. A repetição a tornou cansativa: metáfora velha se cristaliza, vira chavão. E só algumas vezes se sedimenta em linguagem comum, como em asa de xícara, dente de alho e pé de mesa.

Esses são eventos raros. Com a possível exceção da chapada no canto, a maioria dos tiques, expressões, imagens, bordões —numa palavra, jargão— dos comentaristas de futebol de hoje vai morrer, virar pó, sumir, quando o seu tempo passar e outra geração vier, com novas palavras e sentidos.

história da linguagem do futebol tem muitas camadas geológicas. Escavando fundo, vamos encontrar quípers, centerfors e córners fossilizados. Se o sabor era de anglofilia, hoje mal se disfarça certo viés tecnocrático.

Quebrar linhas? Não, isso ninguém sabe o que evocaria a ouvidos antigos. Provavelmente nada —não na língua do futebol. Mudando o contexto, talvez pudesse querer dizer “destruir a marretadas trechos de linha férrea” ou coisa parecida.

Durante a Copa —que procurei assistir ao máximo e que achei estupenda, mesmo com todos os senões—, esse patoá de locutores e comentaristas me incomodou bastante. Registrar seu espalhamento pelo vocabulário de trabalho de tantos profissionais virou uma fonte de fascínio e irritação.

Agora que a Copa acabou, vejam só, me pego quase com saudade desse sabor específico de trololó, o comentaristês, que por tantas semanas me embalou tardes e noites. Vou ali atacar uma profundidade para ver se passa.

Compartilhe

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.